Conheça, Yoga Clássico

Yoga é Voltar para Casa. Yogasūtra, I:3

O sábio Patañjali nos ensina que o natural (svarūpa) do ser humano é o próprio Yoga. A palavra svarūpa, que significa “sua própria forma”, define o reconhecimento de si mesmo como alguém livre de limitações. Lembremos que Yoga não é um estado de consciência mas uma atitude.

Escrito por Pedro Kupfer · 2 mins de leitura >

A volta à casa

तदा द्रष्टुः स्वरूपेऽवस्थानम् ॥ ३ ॥
tadā draṣṭuḥ svarūpe’vasthānam ॥ 3 ॥
Então, aquele que vê se estabelece em sua própria natureza.

tadā = então, somente depois
draṣṭuḥ = possesivo de draṣṭṛ, “aquele que vê”, o Ser, a Consciência Testemunha
svarūpa = em sua própria natureza. Literalmente, “sua própria forma”
avasthānam = estabilidade, estado de consciência

O sábio Patañjali nos ensina que o natural (svarūpa) do ser humano é o próprio Yoga. A palavra svarūpa, que significa literalmente “sua própria forma”, define a volta para casa, o reconhecimento de si mesmo como alguém livre de limitações.

É importante lembrar que Yoga não é um estado de consciência nem uma experiência ou o fruto de uma experiência, mas uma atitude, uma forma de estar, de viver.

Nesse reconhecimento, o yogin repousa em sua própria natureza. A realização advém quando o yogin deixa de se deixar arrastar pelos vṛttis, movimentos da psiquê.

Uma vez que a pessoa se vê livre dessas flutuações e o apego aos frutos delas, essa identificação. Esse é o objetivo do Yoga, chamado kaivalya ou libertação, por Patañjali. Como já vimos, essa palavra é a que dá título ao quarto e ultimo capítulo do Yogasūtra.

Neste sūtra, ao mesmo tempo em que o sábio nos explica o que acontece em nirodha, a cessação da identificação com os pensamentos, também define e limita o propósito do Yoga.

Esse propósito, segundo Patañjali, é assumir o que somos ou, usando suas palavras, nos estabelecer “na nossa própria natureza”. Noutras palavras, voltarmos para casa. Lembrarmos quem somos. Assumir a nossa própria natureza, que é de paz e plenitude ilimitadas.

A palavra draṣṭṛ, que significa literalmente “aquele que vê”, aponta para o Ser, que será chamado Ātma e Puruṣa nos sūtras subsequentes.

Para compreender quem é, o yogin precisa deixar de lado a identificação com os conteúdos mentais, os pares de opostos como atração e aversão, e os julgamentos limitadores.

Vigília distraída ou vigília lúcida?

Passar da ignorância existencial (avidyā) para aquilo que é o “natural” (svarūpa) é o primeiro passo. Adquirir a capacidade de permanecer na própria natureza, o segundo. Isso significa passar da vigília distraída (vyutāna citta) para a vigília lúcida (nirodha citta).

Como exercício preliminar, para compreender como viver essa vigília lúcida, o praticante explora nas práticas os diferentes graus de meditação e samādhi. Kaivalya significa literalmente “isolamento”.

No entanto, esse termo não se refere a ficar de costas para as realidades da vida, nem a fugir dos próprios problemas. A palavra isolamento não aponta para uma experiência nem para um estado de consciência, mas para a capacidade de separar-se dos próprios medos, crenças, condicionamentos.

Esse é o terceiro e último passo, no qual a identificação com os vṛttis simplesmente desaparece, ao invés de ficar temporariamente suspensos (nirodha), como nos estágios anteriores.

Esse estágio final da prática é abordado no último capítulo desta obra chamado justamente de Kaivalyapāda ou “Caminho da Libertação”.

॥ हरिः ॐ ॥

casa

+ sūtras de Patañjali aqui
Veja aqui um interessante
manuscrito do Yogasūtra em árabe

2 respostas para “Yoga é Voltar para Casa. Yogasūtra, I:3”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *