Conheça, Vedānta

Ação e Reação, Parte III

Quando você aprecia o céu azul, você é uma pessoa que não exige. Olhe para você mesmo; veja como você é alguém que aprecia/compreende. Uma pessoa que está satisfeita com o Ser, esta é a pessoa que você é, muito atenta, consciente.

Escrito por Swāmi Dayānanda Saraswatī · 7 mins de leitura >
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Ação e Reação
Parte III

A Pessoa é Livre

Conheça a Pessoa Livre da Personalidade

Como você rejeita as reações? Primeiro você deve perceber que as reações se originam da confusão havida no papel que uma pessoa representa. E, então, você tem que resolver a confusão estando bem familiar com você mesmo, o Ser, o purusa, que podem ser apenas apreciados.

O Ser, não comprometido/livre, que não responde, o ser despido que não qualifica as coisas como boas ou más, é você mesmo. Sempre quando você se depara com a natureza como o céu azul, as estrelas, as flores, os pássaros, você diz: “É belo”. Nesse momento você é uma pessoa contente.

Quando você está sobrecarregado, a sua mente está ocupada ou impaciente e você não é capaz de enxergar o belo; você não tem tempo, um tempo livre para você. Mas quando você está desocupado, não leva muito tempo para que você aprecie o que é belo. Agora, quando você diz : “Isso é belo”, você enxerga beleza “nisso”.

Você é o Ser satisfeito, o belo. Se você diz: “Isso é belo”, isso é um prazer; mas, se você enxerga que “Eu sou belo”, isto é meditação. Este sou eu, o Ser contente e satisfeito sou eu. Se você vê isso durante toda vez que vivencia prazer, todo bhoga, o prazer se torna Yoga, a apreciação do Ser.

Essas são ocasiões que brotam de você, essa pessoa silenciosa e compreensiva. A personalidade com centenas de gostos e aversões e cobranças que normalmente vem à tona para responder ao mundo é silenciada por certas situações esmagadoras; situações que são à primeira vista, profundas, enraizadas, agradáveis.

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Uma pessoa, um acontecimento, uma cena, até mesmo uma piada, podem fazer surgir essa pessoa que aprecia, que compreende. Quando você se vê nessa felicidade ou alegria ou silêncio, isto é auto- apreciação, auto-reconhecimento, auto-aceitação e há a mudança, a oportunidade para você se familiarizar-se com você mesmo.

Este é o jeito de se ver livre das reações porque se torna evidente de que as reações não pertencem à pessoa, pois elas vêm da confusão havida no papel que se representa. Quando esta discriminação, discernimento vem à tona, reações não podem perdurar.

A Personalidade é Falsa

Uma coisa boa sobre reações é que elas são falsas. Entenda que a pessoa é real porque ela é sempre a mesma, sempre presente, em silêncio, radiante. A reação ou a personalidade é falsa porque está sujeita a ser repudiada.

Em sono profundo ou em momentos de alegria, a personalidade é deixada de lado, mas a pessoa permanece.

A pessoa está mesmo lá mesmo até quando a personalidade está reagindo a situações. É o papel que depende de mim, eu sou independente do papel. Então o papel não é real, nem irreal. Isto é mithya. Mas reações são falsas. Ambas, ações e reações não me contagiam, a pessoa.

Elas me atingem, me afetam, apenas porque há ignorância e confusão sobre a pessoa e o papel. Nós não nos interessamos em olhar para a natureza da pessoa. Isto é puramente falta de atenção. É como um abandonado, sem teto. Prestar atenção ao Ser torna-se meditação.

Você tem que reconhecer que as reações são falsas. Esta é a única coisa que não criará problemas a longo prazo. Alguns dizem que você tem profundas impressões dentro de você porque em você se comporta como tal. Mesmo se as profundas impressões estiverem lá, elas são falsas. Elas não tocam/atingem o “Eu”.

Se elas atingirem o Eu, você não pode apreciar nada. Quando você contempla uma flor ou olha para o céu como são, onde estão as impressões ou samskaras ou vasanas? Elas não vem à tona. O Ser é sempre puro; sempre permanece o mesmo. Não se junta a nada a tempo algum; nunca se reúne a dependência ou impureza.

Raga, dvesa, vasanas, literalmente falando nada está no Ser. Tudo o que você tem é a mente com algumas lembranças. A totalidade do problema é nada mais do que reações construídas, as quais eu mencionei antes, pertencem aos papéis e então elas são apenas tão verdadeiras quanto os papéis. Uma onda não tem uma realidade por si só, tem sua existência na água.

Água é satyam, real e a onda é mithya, falsa. A onda é um papel que a água assume: então o nascimento e a morte da onda ou a sua grandeza ou pequeneza são tão verdadeiras quanto a onda, isto é, não importa o que elas são. O que importa é a água, a qual é sempre a mesma, não importando quais tipos de ondas e as ondas não deixam impressões ou samskaras na água.

Similarmente, não deixam impressões no Ser. Se eu tenho que representar papéis e todos incluindo o Swami tem que representar papéis, eu tenho que me tornar familiar comigo como uma pessoa, livre dos papéis. Isto é meditação.

A Meditação é um Encontro Consigo Mesmo 

A meditação que estou falando é a meditação descrita pelo Senhor Kṛṣṇa na Bhagavadgītā [VI–25]:

Faça a mente permanecer em si mesma e então não pense em mais nada.

Em meditação é importante saber quem medita. Existem vários tipos de meditações que prevalecem hoje em dia. Alguém quer que você olhe para a ponta do nariz e um outro alguém, entre as sobrancelhas. Eles pedem para você olhar aqui e ali e eles pedem para você imaginar alguma coisa no interior.

Mas, quem é aquele que medita? Se o meditador tomar conta da meditação, tomará conta de si mesmo. Eu diria, meditação é um encontro com você mesmo – nada mais.

Você pode dizer que é um encontro com o Senhor que resulta no encontro com você mesmo, apenas. Se é um encontro com você mesmo, você tem que se libertar dos papéis. Você deve ser A, a pessoa e não o papel B, C, D…etc…

Normalmente eu não me deparo com A; eu sempre me vejo com B,C, D… Portanto, meditação é justamente se manter com este ensinamento: Eu deveria saber o que A é, o que a pessoa, o Ser é. Em segundo lugar, apenas se conscientize de A. Um encontro comigo mesmo está abrigando os papéis.

São os papéis que criam reações. Você geralmente reage nos papéis e então todas essas reações estão embutidas na personalidade a qual se torna um reator, uma reação marcante! E então, geralmente não há ator.

Seja você mesmo, desprendendo-se de todos os papéis e isto é meditação que é a ação suprema – significando, ausência de ação. Você desiste de todas as ações, fica consciente de si mesmo como pessoa.

Isto é uma coisa muito importante, alguém se conhece a si mesmo e também desiste do pai que está embutido, da filha que está embutida, da esposa que está embutida, da mãe embutida…

Então, os três poderes – o poder de conhecer, o poder de desejar e o poder de agir – estão sob meu comando. Portanto, meditação, como um programa, se torna necessário. Eu vou lhe dar um programa adequado que não é muito difícil.

Você se senta em uma postura relaxada. Fecha os olhos. Agora apenas seja você mesmo, livre dos papéis, crie situações na mente, como o céu azul, montanhas, etc… Você quer que o céu azul seja diferente em algum aspecto? Não, apenas olhe para o céu azul. É belo. Não o céu azul que é realmente belo; você que é belo.

Quando você aprecia o céu azul, você é uma pessoa que não exige. Olhe para você mesmo; veja como você é alguém que aprecia/compreende. Uma pessoa que está satisfeita com o Ser, esta é a pessoa que você é, muito atenta, consciente.

Deste modo para ser você mesmo, pense nas estrelas. Deixe o céu ser enfeitado com estrelas. De novo olhe para você mesmo. Pense nas montanhas…uma formação de nuvens, um por do Sol… um nascer do Sol… o Oceano.

Olhe para eles. Visualize as árvores…flores…flores vivas nos arbustos. Olhe para os pássaros, que voam livres pelo céu…apenas os visualize mentalmente.

Agora olhe para você. Como se sente? Você é uma pessoa simples, satisfeita e muito consciente. Você é você, sem exigir; sem raga, sem dvesa. Não diga que os pássaros são belos e por isso você os quer! Neste momento, eu somente quero ser eu mesmo. Familiarize-se com esta pessoa que não exige.

Agora visualize situações as quais geralmente provocam reações em você. Primeiro visualize as situações tais como as estrelas, árvores, céu etc. as quais não provocam qualquer reação em você. Agora visualize situações que provocam reações em você.

Suponha que há uma pessoa que o magoou profundamente ou que o destino tenha lhe roubado alguma coisa ou lhe privado de alguma coisa ou que a morte tenha levado alguém de você. Olhe para essas situações e veja como você reage em termos de tristeza e raiva.

A meditação consiste em olhar para essas situações com referência à pessoa anterior – a pessoa relacionada com o céu; a pessoa que prevalece quando você aprecia as estrelas, o céu, as montanhas, os rios que não exige, a pessoa apreciativa/compreensiva.

Tente trazer aquela pessoa para suportar/abater as situações que normalmente provocam reações em você. Olhe para as situações e por mais sérias, graves elas possam ser, aceite-as como elas são.

Se uma situação requer uma resposta de você, se a situação precisa de uma mudança, faça tudo o que tenha que ser feito, procure mudar se isto torna a situação fácil ou mais confortável. Isto não requer uma reação, mas isto requer uma ação.

Sentado para meditação, você se olha nessa situação para a qual você pode ter raga, isto é, você quer que alguma coisa aconteça ou você pode ter dvesa, isto é, você pode não gostar que alguma coisa esteja por perto.

Com referência a quaisquer dessas situações, você se vê, satisfeito, uma pessoa não exigente e todas aquelas reações pendentes e embutidas devem desaparecer, porque como eu disse antes, elas são falsas.

As reações não tem status por si só – não existem vasanas ou qualquer coisa. Existem apenas lembranças – nada mais do que isso.

Você tem alguns desejos, etc… Deixe-os lá. Se existe o subconsciente, o inconsciente, deixe-os lá; não se importe com eles. Você é apenas uma pessoa simples que é livre, intrinsecamente livre, de qualquer aflição.

Este é você, Você não faz nada para ser você. O fogo não faz nada para ser quente.Você não faz nada para continuar sendo você. Você não medita. Você apenas é, o simples, o ser consciente.

Esse estado cônscio de si mesmo em cada situação cessa as reações acumuladas, as quais formam a personalidade. Você é apenas uma pessoa.

Uma pessoa é sempre apenas uma pessoa, que tem compromissos a cumprir, papéis a representar e roteiros a seguir. Isto é muito simples, isto é ação. A personalidade é criada por reações, uma vez que a pessoa sempre age.

Om Tat Sat.

॥ हरिः ॐ ॥

Complete a leitura das outras partes deste livro aqui:
Ação e Reação — Parte I
Ação e Reação — Parte II

Se quiser saber mais sobre a lei de ação e reação e outros temas correlatos, há aqui uma transcrição de belíssimas aulas e sessões de perguntas e respostas sobre o assunto, por Swāmi Paramārthānanda

Tradução de
Humberto Meneghin

॥ हरिः ॐ ॥

Swāmi Dayānanda Saraswatī (1930-2015) ensinou a sabedoria tradicional do Vedanta por cinco décadas, na Índia e em todo o mundo. Seu sucesso como professor é evidente no sucesso dos seus alunos: mais de 100 deles são agora Swāmis, altamente respeitados como estudiosos e professores.

Dentro da comunidade hindu, ele trabalhou para criar harmonia, fundando o Hindu Dharma Acharya Sabha, onde chefes de diferentes seitas podem se reunir para aprender uns com os outros.

Na comunidade religiosa maior, ele também fez grandes progressos em direção à cooperação, convocando o primeiro Congresso Mundial para a Preservação da Diversidade Religiosa.

No entanto, o trabalho de Swāmi Dayānanda não se limitou à comunidade religiosa. Ele é o fundador e um membro executivo ativo do All India Movement (AIM) for Seva.

Desde 2000, a AIM vem trazendo assistência médica, educação, alimentação e infraestrutura para as pessoas que vivem nas áreas mais remotas da Índia.

Havendo crescido em uma pequena vila rural, ele próprio entendeu os desafios particulares de acessar a ajuda enfrentada por pessoas de fora das cidades. Hoje, o AIM for Seva estima ter ajudado mais de dois milhões de pessoas necessitadas em todo o território indiano.

Escrito por Swāmi Dayānanda Saraswatī
Swāmi Dayānanda Saraswatī (1930-2015) ensinou a sabedoria tradicional do Vedanta por cinco décadas, na Índia e em todo o mundo. Seu sucesso como professor é evidente no sucesso dos seus alunos: mais de 100 deles são agora Swāmis, altamente respeitados como estudiosos e professores.

Dentro da comunidade hindu, ele trabalhou para criar harmonia, fundando o Hindu Dharma Acharya Sabha, onde chefes de diferentes seitas podem se reunir para aprender uns com os outros.

Na comunidade religiosa maior, ele também fez grandes progressos em direção à cooperação, convocando o primeiro Congresso Mundial para a Preservação da Diversidade Religiosa.

No entanto, o trabalho de Swāmi Dayānanda não se limitou à comunidade religiosa. Ele é o fundador e um membro executivo ativo do All India Movement (AIM) for Seva.

Desde 2000, a AIM vem trazendo assistência médica, educação, alimentação e infraestrutura para as pessoas que vivem nas áreas mais remotas da Índia.

Havendo crescido em uma pequena vila rural, ele próprio entendeu os desafios particulares de acessar a ajuda enfrentada por pessoas de fora das cidades. Hoje, o AIM for Seva estima ter ajudado mais de dois milhões de pessoas necessitadas em todo o território indiano.
Perfil

Uma resposta para “Ação e Reação, Parte III”

  1. Adorei…”É o papel que depende de mim, e eu sou independente do papel” …que bela prática da libertação!
    Grata Humberto.
    Om tat sat

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