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Bhūta Śuddhi, a Purificação dos Elementos

O processo de ascensão da kundalini é compreendido como uma purificação progressiva dos elementos (bhuta) que compõem o corpo ? a terra, a água, o fogo, o ar e o éter. Essa purificação é chamada de bhuta shuddhi

Escrito por Georg Feuerstein · 3 mins de leitura >
bhūta śuddhi

Naquele conhecidíssimo conto de fadas, antes que o príncipe pudesse beijar a princesa adormecida, ele teve de combater dragões e abrir caminho até o castelo.

Do mesmo modo, antes que o sagrado matrimônio de Śiva e Śakti possa acontecer no corpo-mente do ser humano, o yogin tem de remover obstáculos de todo tipo.

Por isso, o caminho de realização (sādhana) é muitas vezes concebido como um caminho de purificação (śodhāna).

O que é o bhūta śuddhi?

Com efeito, o próprio processo de ascensão da kuṇḍalinī é compreendido como uma purificação progressiva dos elementos (bhūta) que compõem o corpo – a terra, a água, o fogo, o ar e o espaço. Essa purificação é chamada de bhūta śuddhi.

À medida que a kuṇḍalinī é conduzida para cima ao longo do canal axial (suṣumṇā nāḍī), ela aos poucos ‘dissolve’ o elemento dominante de cada região somática, ou cakra.

Assim, quando chega por fim ao sexto cakra, ao ājña, a kuṇḍalinī já dissolveu os cinco elementos: terra, água, fogo, ar e éter.

O que isso significa na prática é que a retirada da força vital do corpo gera um estado de frio e insensibilidade no tronco e nos membros.

Quando a kuṇḍalinī sobe mais e chega ao topo da cabeça, ao sahasrāra cakra, provoca a dissolução temporária da mente (manas) no estado de êxtase ‘sem forma’, ou nirvikalpa samādhi, marcado pela cessação completa da consciência individual que os yogins têm do ambiente à sua volta e inclusive do próprio corpo.

A consciência de sua identidade repousa então na Identidade Absoluta do Si Mesmo transcendente, que é indescritivelmente feliz.

Num nível inferior, bhūta śuddhi é um ritual que se cumpre como prática preliminar à adoração da divindade ou das divindades escolhidas, no contexto do estilo de vida tântrico.

É a dissolução simbólica dos elementos do corpo. Esse procedimento, descrito no Mahanirvāṇa Tantra (5.93 et seq.), envolve a visualização em ordem inversa do processo de criação dos elementos.

Assim, o yogin imagina o elemento mais baixo, a terra, ligada ao cakra da base da coluna, dissolvendo-se no elemento água do segundo cakra; imagina a água dissolvendo-se no elemento fogo no cakra do umbigo, o fogo dissolvendo-se no elemento ar no lótus do coração, o ar dissolvendo-se no éter na garganta e o éter dissolvendo-se no espaço infinito da Consciência no cakra coronário.

Nesse ponto, o corpo e a mente do praticante estariam perfeitamente purificados.

A esse ritual deve seguir-se uma série de outras práticas pelas quais o corpo é aos poucos convertido num templo ou num monte sagrado prontos para receber o grande Ser sob a forma da divindade escolhida (īśtadevatta) pela pessoa.

Assim, através da prática de ‘infusão de vida’ (jīva nyāsa), os yogins assimilam a força vital da divindade por eles escolhida (īśta).

Isso se faz pela transmissão de poder a certas partes do corpo através do toque; essas partes são preenchidas com a vida do Deus ou da Deusa prediletos.

Outra forma de ‘infusão’, ‘instalação’ ou ‘colocação’ (nyasa) é a matrika nyāsa, através da qual os cinqüenta sons sagrados do alfabeto sânscrito são colocados no corpo do yogin.

As ‘matrizes’ ou ‘mãezinhas’ (matrikā), como se chamam os sons alfabéticos do sânscrito, são concebidas como filhas do som primordial (śābda) do Absoluto.

Imagina-se que as partes do corpo da divindade escolhidas são feitas das diversas letras do alfabeto, que por sua vez são visualizadas nas regiões correspondentes do corpo do yogin.

Entre os ritos do mesmo tipo temos a ‘instalação dos videntes’ (ṛṣinyāsa), a ‘instalação dos seis membros’ (śaḍaṅganyāsa), que se faz colocando-se as mãos sobre seis diferentes partes do corpo e transmitindo-lhes poder, e a ‘instalação das mãos’ (kāranyāsa), que é o mesmo tipo de exercício feito somente nos dedos e palmas das mãos.

Nos períodos que medeiam entre as práticas dos diversos ritos encaixam-se práticas complexas de visualização (chamadas dhyāna), geralmente da divindade e do seu paraíso celestial.

Tudo isso se resume em energias sutis captadas pelo adepto que se identifica com a divindade da sua eleição.

Cada divindade em si representa uma qualidade energética particular. Essa prática tântrica é associada a muitas recitações de mantras, normas de respiração e concentração intensa.

Já falei dos mantras no Capítulo 2 de A Tradição do Yoga, e são eles também o principal instrumento do praticante do Tantra.


॥ हरिः ॐ ॥

bhūta śuddhi

Extraído do livro A Tradição do Yoga. Traduzido por Marcelo Brandão Cipolla), Editora Pensamento, São Paulo. Digitado por Cristiano Bezerra. Faça aqui o download gratuito deste livro, em sua edição inglesa.

Copyright (c) 2001 Georg Feuerstein, Yoga Research and Education Center.

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॥ हरिः ॐ ॥

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