Mantra, Pratique

Cura do Egoísmo, Arāṅyaka Gānam

“O Alimento que chega para aquele que não o compartilha é de fato um desperdício. Essa é a verdade. Eu, o sábio, declaro isto. O Alimento que alguém consome desta maneira não é apenas desperdiçado. De fato, provoca a própria morte da pessoa. Ele não alimenta nem os devas nem os homens que chegam à sua porta como hóspedes, esperados ou não, ou amigos. Comendo sozinho, ele torna-se o parceiro do erro e mais nada”.

Escrito por Pedro Kupfer · 6 mins de leitura >

Como curar o egoísmo através da meditação no Āraṇyaka Gānam, “A Canção da Floresta”

Oṁ hā uhā uhā u ||
setūṅg stara | setūṅg stara | setūṅg stara ||
dusta rān | dusta rān | dusta rān ||
dānenādānam | dānenādānam |
dānenādānam || hā uhā uhā u ||

ahaṁasmi prathamajā ṛta || syā || hā uhā uhā u ||
setūṅg stara | setūṅg stara | setūṅg stara ||
dusta rān | dusta rān | dusta rān ||

akrodhanakrodham | akrodhanakrodham |
akrodhanakrodham || hā uhā uhā u ||
pūrvaṁ devebhyo amṛtasyanā || mā || hā uhā uhā u ||
setūṅg stara | setūṅg stara | setūṅg stara ||
dusta rān | dusta rān | dusta rān ||
śraddhayāśraddhām | śraddhayā śraddhām |
śraddhayāśraddhām || hā uhā uhā u ||
yo mā dadati saideva mā || vā t ||

hā uhā uhā u ||
setūṅg stara | setūṅg stara | setūṅg stara ||
dusta rān | dusta rān | dusta rān ||
satyenā ṛtam | satyenā ṛtam |
satyenā ṛtam || hā uhā uhā u ||
aham annam anna ma danta mā ||
dmī || hā uhā uhā u ||

eṣā gatiḥ | eṣā gatiḥ | eṣā gatiḥ ||
etadamṛtam | etadamṛtam | etadamṛtam ||
svargaccha | svargaccha | svargaccha ||
jyotir gacchā | jyotir gacchā | jyotir gacchā ||
setūṅg stīrtvā caturā || oṁ || 
Samaveda, 57:1

Oṁ. A ponte está estendida. É desafiante.
Caridade é a ponte para superar
O medo de entregar. É difícil passar.

A ponte está estendida. É desafiante.
Calma é a ponte para superar
A raiva. É difícil passar.

A ponte está estendida. É desafiante.
Confiança é a ponte para superar
A desconfiança. É difícil passar.

Eu fui criado antes dos elementais.
Sou a imortalidade que os sustenta.
Ninguém existe  sem me consumir.

Protejo àqueles que me oferecem
e dou a eles resultados meritórios.
Sou o Alimento. Sou o Alimento.

Àquele que me dá, me obtém.
Os que não me compartilham
São consumidos por mim.

Eu sou o Alimento.
Devoro àquele que não me oferece.
Eu sou o Alimento. 

Este que buscamos é o Imortal.
Vamos ao Desejável (Svarga).
Vamos em direção à Luz. Oṁ.

cura do egoísmo

Poderíamos chamar esse mantra de meditação da transformação, pois ele implica uma mudança de paradigmas e de visão se si mesmo através da mudança dos padrões de pensamento. Modificando, mudando para melhor esses padrões, transformamos a nossa própria vida, uma vez que o pensamento determina a ação e esta, por sua vez, constrói o nosso destino.

Na tradição do Yoga encontramos uma série de quatro qualificações que devem ser preenchidas pela pessoa que busca a liberdade (sādhana chatuṣṭayam): discernimento, desapego, conduta e desejo de liberdade. O que chamamos aqui de conduta é um grupo de seis virtudes. 

Elas são as seguintes: desenvolver o comando sobre a mente, desenvolver o controle sensorial, despertar a capacidade de se ater aos próprios deveres, cultivar a paciência, desenvolver a capacidade de se concentrar e confiar no ensinamento. Todos e cada um destes valores podem ser objetos de meditação nesta quarta etapa do processo de cinco passos.

As quatro qualificações para a liberdade

Sādhanacatusṭayam é o conjunto das quatro qualificações que indicam que uma pessoa está pronta e madura para assimilar corretamente o autoconhecimento: 

1) nityānityavastuvivekaḥ, discernimento entre o que é perecedouro e o que não é perecedouro,

2) phalabhogavirāgaḥ, desapego em relação aos frutos das ações, 

3) śamādiṣatkasampattiḥ, o conjunto das seis virtudes: 

a) śamaḥ, comando sobre a mente,
b) damaḥ, controle dos sentidos,
c) uparamaḥ, capacidade de se ater aos próprios deveres,
d) titikṣa, paciência, tolerância
e) samādhānam, capacidade de concentração, e
f) śraddhā, confiança no ensinamento, e 

4) mumukṣutvam, motivação para mokṣa.

Afora esse conjunto de seis virtudes, encontramos uma coleção de 16 práticas na Taittirīyopaniṣad, uma belíssima lista de 20 valores universais sobre os quais meditar, no capítulo XIII da Bhagavadgītā.

Também existe outra lista de 10 preceitos de conduta no Yogasūtra, chamados yamas e niyamas, que ainda são complementados de uma maneira muito linda pelos seis valores do Sanatsujātīyaṁ, um instrutivo diálogo sobre a vida de Yoga inserido no Mahabhārata.

No verso 43 desse diálogo, o sábio Sanatsujāta ensina ao rei cego Dhṛtaraṣṭra que há seis formas de praticar, vinculadas com outros tantos valores. Existem muitos caminhos, adequados para as diferentes sensibilidades das pessoas. 

Como funciona esta cura?

A cura do egoísmo consiste em descobrir a alegria do compartilhar, ou a capacidade de enxergarmos além do nosso próprio umbigo, reconhecendo que não estamos sós no mundo, e que a natureza e as pessoas não estão aí para satisfazer nossas expectativas e desejos.

Estas antiqüíssimas palavras dos Vedas, que em muitos casos são altamente crípticas e difíceis de compreender (e não me refiro aqui ao fato de os mantras serem em sânscrito, mas a peculiar linguagem deles), também são tremendamente transformadoras, se tivermos a curiosidade e motivação para olhar para 

Hoje em dia este tipo de prática, apesar de enormemente inspiradora, não é lá muito popular nem conhecida no mundo do Yoga. Cada vez menos pessoas, até na própria Índia, dedicam-se a praticar ou têm curiosidade para conhecer estes mantras.

Nós tivemos o privilégio de aprender com um professor muito bom, Dilip Sharma, amigo nosso e sacerdote principal do lindo templo a Gaṅgādhāreśvara, no Dayānanda Āśram de Rishikesh, norte da Índia.

Annadevattā, o Alimento, é o próprio corpo material de Īśvara, a Inteligência. É ele quem sustenta os elementos e as leis da natureza. Sem essa Inteligência, a natureza não existiria. É por isso que o hino diz que o alimento precede a existência dos próprios deuses, que são os elementais ou forças da natureza, como a terra, a água, o fogo e os demais.

O mantra, que aparece tanto no Sāmaveda como no Kṛṣṇa Yajurveda, antepõe o compartilhar ao egoísmo e deixa clara a importância crucial da solidariedade entre os seres humanos, levando em consideração o bem comum.

Na idade védica, de fato, havia o costume de dar aos necessitados antes de servir a si mesmo, um gesto muito bonito que infelizmente se perdeu hoje em dia.

Depois o mantra diz que quem não reconhece a importância de dar irá, necessariamente, sofrer. Egoísmo não é a melhor atitude. Nunca foi. Literalmente, diz o mantra, aquele que não divide o que tem será devorado pelo próprio alimento que consome. Noutras palavras, irá sofrer e fazer sofrer. 

A estrofe original, que aparece no Taittirīya Brahmaṇa (8:8:2) do Kṛṣṇa Yajurveda, está inserida fragmento por fragmentos neste mantra (juxtaposta às fórmulas típicas do cântico do Sāmaveda), é assim: 

ahamasmi prathamajā ṛtasya pūrvaṃ devebhyo amṛtasya nāma |
yo mā dadāti saidevamāvadahamannamannamadantamadmi ||

E sua tradução livre é esta: “Eu fui criado antes dos devas, dos elementais. Sou a imortalidade que os sustenta. Ninguém pode viver sem me consumir. Protejo àqueles que me oferecem e dou a eles resultados meritórios.”

“Eu sou o Alimento. Àquele que me dá é o que, de fato, me ganha. Por outro lado, os que não me compartilham são consumidos por mim. Eu sou o Alimento. Devoro àquele que não me oferece”.

A cura do egoísmo

Esse mantra nos remete ao ensinamento do grande sábio Āṅgirāsa Bikṣu, que no Ṛgveda (X:17:6) disse:

moghamannaṁ vindate apracetāḥ | satyaṁ bravīmi vadha itsa tasya | nāryamaṇaṁ puṣyati no sakhāyam | kevalāgho bhavati kevalādī || 

“O Alimento que chega para aquele que não o compartilha é de fato um desperdício. Essa é a verdade. Eu, o sábio, declaro isto. O Alimento que alguém consome desta maneira não é apenas desperdiçado.”

“De fato, provoca a própria morte da pessoa. Ele não alimenta nem os devas nem os homens que chegam à sua porta como hóspedes, esperados ou não, ou amigos. Comendo sozinho, ele torna-se o parceiro do erro e mais nada”.

Estas fortes palavras condenam o egoísmo em todas suas formas, ao considerar inaceitável o ato de alimentar-se sem compartilhar o alimento antes com quem quer que possa chegar à própria porta. Morre quem não tem alimento, mas igualmente morre aquele que o tem sem merecê-lo, sem compartilhá-lo. O primeiro morre de inanição, o segundo de egoísmo, por não ter cuidado dos seus irmãos.

Porém, este mantra não precisa ser interpretado apenas desde o ponto de vista literal. O Alimento é também o Conhecimento. E o Conhecimento é para ser compartilhado, assim como a comida com a qual temos o privilégio de nos alimentar.

No próximo mantra dessa seção do Ṛgveda (X:117:2), Āṅgirāsa Bikṣu declara que aquele que se recusa a alimentar os famintos não conhece a paz de espírito, nem tem sossego no coração.

E, noutro mantra ainda (X:117:4), diz que a casa daquele que come sem compartilhar é apenas uma casa, não um lar. Um lar é um lugar onde vivem irmãos, filhos, parentes e amigos. Compartilhando. O mesmo vale para o Conhecimento sobre Si Mesmo: se não for compartilhado, se não for passado àqueles que o pedem e merecem, não possui nenhum valor.

Não há maior sacrilégio que o egoísmo, que ser um kevalādī, alguém que come sozinho, sem olhar para os demais, ou que é indiferente às necessidades deles. Assim eram os valores da cultura antiga da Índia, e assim deveriam ser hoje também. Há valores universais que valem em todos os temos e lugares, ou que deveriam valer sempre, pelo fato de serem universais.

A compreensão do Alimento como símbolo de autoconhecimento é crucial para compreender, dentre outras coisas, a linda Taittirīyopaniṣad, onde este tema é ubíquo. Neste texto, compreender o significado do Alimento em suas variadas manifestações, configura o portal de entrada para a liberdade real. Alimento é Īśvara, é o próprio corpo da Inteligência Criativa, do Ser Ilimitado manifestado como Natureza.

Para compreendermos a importante deste símbolo que é o Alimento, vejamos o que diz esta importante Upaniṣad (II:2): “Tudo o que nasce, nasce de fato do alimento. Tudo o que existe na terra surje do Alimento, é sustentado pelo Alimento e, no fim, é reabsorvido no Alimento.

O Alimento é, de fato, o primeiro nascido dentre todos os seres. É por isso que o Alimento é chamado sarvauṣadha, a erva medicinal que cura todos os males. Aqueles que, com veneração, reconhecem o Alimento como o Ser Ilimitado, obtém de fato todo o Alimento”. 

॥ हरिः ॐ ॥

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