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Kena, a Upaniṣad da Grande Pergunta

Edição da Kenopaniṣad completa, com comentários de Swāmi Dayānanda.

Escrito por Swami Dayananda Saraswati · 11 mins de leitura >

Introdução à Kenopaniṣad

A Kenopaniṣad não é a Upaniṣad mais fácil de todas: é bastante complexa e desafiante em alguns trechos, já que usa alguns paradoxos para ensinar, mas é muito boa e gratificante também. Não há nada de místico neste ensinamento. 

A mística não faz parte do nosso estudo. Usar misticismo para falar sobre autoconhecimento é como querer usar uma bicicleta ergométrica para chegar a algum lugar. Você não pode afirmar coisas como “ir sem se deslocar”, ou ainda, “viajar sem sair do lugar”.

Compreender o paradoxo das Upaniṣads leva muito tempo e muito estudo. Eles são aparentemente contraditórios, mas fazem muito sentido uma vez que são compreendidos. Alguns paradoxos colocados por poetas como Walt Witman são similares, mas carecem da estrutura que a tradição védica de ensino possui.

Para a correta compreensão destes paradoxos é preciso ter uma mente bem treinada e preparada, bem como estar exposto há um certo tempo ao estudo e à visão do Vedānta. Não adianta querer compreender os paradoxos desde fora do sistema de ensinamento que é o Vedānta, nem tentar entrar nesse sistema sem estar adequadamente preparado desde os pontos de vista mental ou emocional.

Swāmi Dayānanda Saraswatī

Há uma regra que diz que, antes de buscar este conhecimento, você deve saber para quê ele serve. E, se é mesmo para obter este conhecimento, pois você conhece seu resultado, seu fruto e o acha interessante, qual é a conexão entre esse conhecimento e esta Kenopaniṣad, ou qualquer outra Upaniṣad?

Porque escolhemos este texto? Qual é a conexão? Quem está buscando esse conhecimento? Como fazemos para que ele funcione, para que o plano dê certo? Essa conexão é chamada anubandha catuṣṭayam. São quatro tópicos (catuṣṭayam) que estão interrelacionados: 

1) O tema principal. Qual é esse tema? 
2) A conexão entre o tema e suas prioridades. Qual é a conexão entre ele e os objetivos?
3) A conexão entre o tema e o texto. Qual é a conexão entre o tema e a obra?
4) O buscador. Quem é que está buscando este conhecimento? Essa pessoa é chamada adhikari, aquele que está preparado para se beneficiar do ensinamento.

Precisamos pensar nisto antes de entrar no texto. A introdução desta Upaniṣad responde estas quatro questões. Outra coisa importante: o que você busca nesta vida? O que você quer realizar? Se isso não estiver claro, a ideia da espiritualidade não faz sentido. É necessário, portanto, saber o que nós queremos. Uma mente clara e objetivos bem definidos facilitam a tarefa.

O problema básico do ser humano é a sobrevivência, como organismo vivente. Seja planta, animal ou humano, o ser vivo precisa se manter vivo. Há um esforço instintivo, portanto, para sobreviver. Como ser humano, você não pode dizer que seu objetivo seja a sobrevivência. Os animais e plantas podem sim dizer isso.

Você, sendo autoconsciente e autojulgador, não pode dizer que seu principal objetivo seja esse. Assim, o segundo grande problema humano é a autoaprovação. Este é o que chamamos o problema fundamental. Nos meus julgamentos, deve haver autoaprovação. Apenas quando eu vejo a mim mesmo como alguém digno de aprovação, é que farei esse julgamento.

Esse detalhe não é sempre bem compreendido. Mas é um fato que estou o tempo todo buscando essa aprovação de mim mesmo. Porém, sendo alguém que busca, que quer ser diferente do que é, essa autoaprovação não é possível. Pois se eu estou buscando, não posso ter essa aprovação. Estas duas situações são mutuamente excludentes: ou tenho uma, ou tenho a outra.

Portanto, a autoaprovação é o assunto principal. Preciso fazer alguma coisa em relação aos meus próprios julgamentos para me livrar daquela busca incessante. Eu desejo, quero coisas em todas as esferas da existência: saúde, tamanho, idade, força, peso, aparência, memória, inteligência, longevidade, aprovação por parte dos demais, poder, dinheiro, fama, família, casa, compreensão, casamento, etc.

Kenopaniṣad Swāmi Dayānanda

Sempre há algo que poderia melhorar, em todos os aspectos. E, em todos os aspectos, eu busco, incessantemente. Eu busco em todas as esferas, o tempo todo. Se eu quiser que a pessoa que está do meu lado fique feliz, não consigo resolver isso apenas através do desejo de que ela fique feliz.

Assim, não apenas busco a minha autoaprovação, mas também a aprovação daqueles que estão perto de mim que, por sua vez, também buscam a minha aprovação, já que todos estamos buscando a mesma coisa. Assim, nos acusamos mutuamente, e tentamos manter a saúde mental, o que é um grande tema.

Aquilo que faço na vida, em todas as esferas, faço para provocar alguma mudança. Mas, as condições que consigo através das ações, mesmo quando bem sucedidas, não parecem ser definitivas pois logo mais me vejo buscando e querendo outras coisas novas.

Busco, coloco objetivos, planejo, realizo ações vejo os resultados, e começo tudo de novo. Quem não está interessado em resolver este problema? Quem compreende o problema básico da falta de autoaprovação? A autoaprovação é exatamente aquilo que estou buscando. Não é poder nem dinheiro, nem conforto nem prazer: é autoaprovação mesmo.

Tudo aquilo que eu busco, não busco pelos objetos em si, mas por mim mesmo, pois quero, no fundo, me livrar do sentimento de me ver incompleto, sempre desejando, sempre buscando. Mokṣa não é salvação, mas liberdade. 

Liberdade do fato de estar sempre querendo, sempre desejando, sempre buscando. O mumukṣu não é uma pessoa especial. Aliás, toda pessoa é mumukṣu. Mas, a pessoa precisa admitir para ela mesma que quer resolver o problema básico de querer se tornar algo diferente do que é, de querer parar de desejar e buscar. 

Anubhāva, as experiências, têm sido variadas ao longo das nossas vidas, desde a infância. Todos temos muitas estórias de metas e objetivos nos quais fomos bem sucedidos, mas esse sucesso não parece ter sido suficiente, pois continuamos desejando e buscando.

Sempre achamos que poderíamos ser mais, chegar mais longe, conseguir mais, realizar mais do que fizemos até agora. Sempre existe o desejo de fazer mais e mais. Temos experiências suficientes, a esta altura, para perceber que a realização desses objetivos não funcionou no sentido de nos preencher e que, provavelmente, não conseguiremos fazer isso no futuro.

É preciso resolver o problema de fundo. Eu não posso realizar a minha liberdade através dessas ações. Para ser livre dessa busca incessante, preciso me ver livre, primeiramente, da imagem que tenho de mim mesmo como alguém limitado em todos os sentidos. 

Mesmo na hipótese de ter os sentidos em perfeito funcionamento, sempre vou achar que eles são limitados ou poderiam funcionar melhor, pois suas limitações são evidentes para mim. Tudo no meu corpomente, aliás, é limitado: os órgãos de ação, o pensamento, a memória, as capacidades, etc.

Você não vai nunca conseguir se livrar desse autojulgamento enquanto não parar de se olhar para si como limitado. Essa é a única via de saída deste paradoxo. Talvez eu seja mesmo ilimitado, como diz o ensinamento das Upaniṣads. Mesmo se, dentro das limitações inerentes ao corpo ou ao psiquismo, as limitações continuarem.

O corpo não tem complexos. Os complexos são do meu ego e estão centrados na ideia que tenho de mim mesmo, na ideia de eu. Assim, as limitações são um ponto de vista que, provisionalmente, considerarei equivocado. Dou o beneficio da dúvida ao ensinamento. Quando lembro de mim, fico infeliz. Quando esqueço de mim mesmo, fico bem. Será isto uma coincidência? 

Digamos que alguém tenha algum complexo relacionado aos dentes. Cada vez que a pessoa ri, os dentes aparecem e ela fica triste imediatamente. A pessoa aprende, para se proteger, a rir para dentro, sem separar os lábios. 

Na hipótese dessa pessoa ouvir algo particularmente engraçado, irá soltar a gargalhada abrindo bem a boca pois, naquele momento, ela desliga suas defesas ao esquecer do eu. Porém, quando lembra da sua falta de autoaprovação, imediatamente irá fechar a boca.

Portanto, quando você não lembra de você, você fica feliz, e quando você lembra de você, fica infeliz. Isso significa que o eu tem um problema? Talvez o problema não esteja no eu, mas na imagem de eu que tenho. A tradição de ensinamento do Vedānta diz que você é pleno do jeito que você é. Você é o problema, mas também a solução do problema.

A autoconsciência é um problema que pode ser resolvido quando você passa a olhar para você mesmo como alguém livre de limitações. O pleno é Īśvara, o pleno é a totalidade, e essa totalidade não exclui você. Esse é o tema da Kenopaniṣad. Mokṣa é o tema central. Há apenas uma realidade, que é ilimitada. Esse tema, e a maneira de obter o conhecimento sobre essa totalidade e o que você é, são os assuntos da Upaniṣad.

É necessário compreendermos o sādhana-sadhya sambandha: a conexão entre a prática e seu objetivo. Diz Swāmi Paramarthānanda que “o sādhaka, através do sādhana, atinge o sadhya e torna-se um siddha”. O conhecimento é o meio e o fim ao mesmo tempo. É preciso conhecer o Ser, conhecer a si mesmo. Esse ser é o que eu sou. O conhecimento me torna livre, me mostra que sou ilimitado. A necessidade de autoaprovação perde o sentido quando me vejo dessa maneira.

O texto é sedutor e convincente, pois faz sentido. Sou o que observa, sou o que é observado. Se, depois de me olhar como alguém limitado, olho sem mudar a minha perspectiva, vezes e mais vezes, irei me ver como limitado. Porém, cabe lembrar que essa visão de mim mesmo vem de fora. De alguma maneira, ela se instala em mim, mas não é minha, em nenhum caso. Talvez precisemos de um meio de conhecimento diferente daquele que estamos usando. 

Digamos que você queira ver seu próprio rosto. Como você fará isso, se não consegue olhar a si mesmo? Precisa de um espelho. Você não olha para o espelho pelo espelho, mas o usa para olhar para seu próprio rosto. 

Você pode até examinar o espelho para ver se ele reflete corretamente as imagens, mas seu exame dele termina por aí. Se houver algum defeito no espelho, alguma convexidade ou concavidade, você irá concluir que ele não é confiável para refletir imagens fiéis. Mas, o único objetivo que você tem ao usar o espelho é ver a si mesmo. Quando você olha para o espelho, em verdade, você está olhando para si próprio. Disso, você já sabe. 

Agora, no lugar do espelho, coloque estas palavras do śāstra sobre quem você é. Elas são como o espelho que lhe mostra como você é. Você é o tema dessas palavras. Entre o texto, que consiste de palavras faladas, apresentadas de uma maneira cuidadosa, e o tema, existe um sambandha, uma conexão. O revelador e aquilo que é revelado tem assim, uma conexão.

Preciso de um meio de conhecimento, que é o śāstra, o ensinamento, e um sambandha, uma conexão entre esse ensinamento e eu mesmo. Para ter esse conhecimento, preciso de um meio de conhecimento especial. A Kenopaniṣad, me mostra esse meio de conhecimento especial.

A Upaniṣad como meio de conhecimento de Ātma.

Esta Upaniṣad está escrita na forma de um diálogo. Nitya parokṣa é uma expressão que define uma crença não verificável. Nesta categoria, incluem-se as presunções de que existam lugares para onde ir depois da vida nesta terra. Dentre essas crenças não verificáveis, há algumas que são aceitáveis e outras que não o são, por serem infantis ou absolutamente ilógicas.

A ideia de Svārga, o paraíso, não pode ser provada nem negada, pois ninguém pode ir lá e voltar para nos contar se ele existe ou não. É uma crença, portanto. Você pode ou não estar interessado em passar uma temporada lá, na hipótese de achar que essa visita seria interessante ou não.

Você não vê a conexão entre esse objetivo e os rituais que se recomendam para propiciar essa situação. É por essa razão que Śrī Kṛṣṇa fez o seguinte: num momento de chuva incontrolável, em que as pessoas estavam desesperadas e o buscaram pedindo uma solução, ele simplesmente levantou a montanha Govardhana com seu dedo mínimo e pediu para as pessoas se refugiarem embaixo dela.

As pessoas e até mesmo as vacas ficaram desconfiadas de entrar embaixo da montanha. Alguns pensaram que se ele tinha força para levantar a montanha, o mais lógico seria que ele apenas soprasse para dissipar as nuvens e a chuva iria parar. Porém, ele escolheu deliberadamente não soprar as nuvens para que as pessoas não viessem achar que isso seria o fruto de uma mera coincidência.

Há rituais para fazer chover e para parar as chuvas. Oito planetas se alinharam no céu na constelação do Escorpião, Makāra, em 1962. Calamidades foram anunciadas, e as pessoas fizeram muitos rituais para neutralizar essas eventuais calamidades, que acabaram não se manifestando. Isto aconteceu durante a semana do Śivaratri, a noite de Śiva.

Uns dias depois, me cruzei com um senhor num trem que me disse, meio decepcionado, que as tais das calamidades que haviam sido anunciadas não tinham acontecido. Aí eu falei: “Ora, se as pessoas fizeram todos esses rituais, justamente para tentar neutralizar esses desastres ou conviver melhor com seus resultados, não seria natural que eles não acontecessem?” 

Você pode dizer que foi uma mera coincidência, se quiser. Mas, desde o ponto de vista védico, isto é uma confiança verificável. Você consegue ver resultado das preces coletivas, coincidências à parte. Às vezes, as conexões entre as ações rituais e seus resultados não são evidentes, como neste caso. Há sempre um elemento nestas situações kármicas que não pode ser verificado.

Há outras situações nas quais posso prescindir totalmente desse tipo de crenças ou até mesmo da confiança. Por exemplo, não preciso de śraddhā, de confinaça, para perceber o que meus sentidos captam do ambiente. No caso do autoconhecimento, devo, sim, dar um voto de confiança ao ensinamento, já que há coisas que não posso verificar por mim mesmo no processo do conhecimento até que esse conhecimento fique claro para mim.

Se Īśvara é a realidade não-dual. O ensinamento védico que versa sobre essa realidade é transmitido na forma de um diálogo. Pode haver algo contra a orientação da pessoa que vai em direção à felicidade, em suas vidas prévias, em sua história, em sua biografia, que diga para ela que ela merce pouca ou nenhuma felicidade. Essa distorção na visão de si mesmo deve ser corrigida.

Não há satya, não há verdade, que não seja Ātma. Esse Ātma, esse satya, é você. Tat tvam asi. Esse é o vāyka, essa e a visão do śāstra. Você não precisa nenhum tipo de ensinamento que lhe mostre que você não é eu, que você não é a roupa que está usando. Disso, você já sabe. Porém, é bom que você saiba que há pessoas que ensinam dessa maneira, e isso é um problema.

Estas questões vinculadas ao autoconhecimento não podem ser definidas ou decididas por um consenso, ou por uma votação, ou por uma minoria. Se alguém afirmar que a terra é plana, e esse alguém estiver no poder político, quem ousasse contradizer esse ponto de vista era queimado numa fogueira, como aconteceu com o astrónomo Giordano Bruno.

Até poucos séculos atrás a igreja católica afirmava que a terra era plana e queimava por hereges as pessoas que questionassem suas afirmações, por mais que a observação da natureza dizesse o contrário. Similarmente, isto que estamos colocando aqui vai contra o que a maioria ou o consenso social ou religioso acha sobre a natureza das coisas e dos seres vivos.

Não há aqui a possibilidade de interpretar o ensinamento não-dual de outra maneira, sem sacrificar o alinhamento com a tradição védica. O texto declara isso de forma categórica, embora haja pessoas que prefiram interpretar o ensinamento desde fora do pramāṇam, desde fora do meio de conhecimento que é o próprio Veda.

Tem gente que não olha para o Veda como um meio de conhecimento para Ātma. Essas pessoas podem se tornar um obstáculo no caminho de alguns. O diálogo é fundamental, para dirimir dúvidas, bem como para o aluno perceber a capacidade de compreensão do professor. Essa é a razão pela qual este ensinamento aparece na forma de um diálogo entre professor e estudante, no qual o primeiro dissipa as dúvidas do segundo.

O termo prameśaṅka, define as dúvidas que possam surgir em relação ao conhecimento. Essas dúvidas são eliminadas através do diálogo, dos questionamentos, que são feitos para esclarecer eventuais pontos escuros do ensinamento. É por isso que sempre temos sessões de perguntas e respostas. Este meio de conhecimento diz que há uma só realidade. Se alguém tiver alguma dúvida, olhando desde fora, e ao mesmo tempo não aceitar o Veda como um pramāṇam, estará limitado a tentar conhecer Ātma através da razão, o que não é possível.

Expor-se ao pramāṇam, ao meio de conhecimento que é o Veda, que é diferente dos cinco órgãos de percepção através dos quais interpretamos a realidade, bem como dos outros meios de conhecimento como a inferência, o testemunho e demais, é essencial para conhecer a si mesmo. Somos dotados de órgãos sensoriais, que nos permitem conhecer o mundo em que vivemos, desde as observações mais evidentes, até os buracos negros. 

Este universo, manifestado desta maneira peculiar, pode ser compreendido através desses meio de conhecimento e suas extensões. Assim, o ser humano consegue, com esses limitado sentidos e esta mente limitada, apreciar a dimensão do universo, assim como sua idade. Esses logros são incríveis, considerando o limitado desses órgãos de percepção. 

Os cinco meios para conhecer a natureza.

Os cinco meios de conhecimento válidos sobre a natureza manifestada, chamados pramāṇams, são os seguintes:

1) pratyakṣam, percepção direta,
2) anumānam, inferência de um só passo,
3) arthāpattiḥ, inferência complexa,
4) anupalabdhiḥ, percepção da ausência de algo, e
5) upāmānam, comparação, ilustração, testemunho válido.

O outro meio de conhecimento, que é exclusivo para o Ser, é chamado Brahmavidyā ou Vedānta, e é o que nos permite compreender Īśvara, os seres vivos e a criação. É sobre essa compreensão que fala a invocação inicial, que veremos a seguir.

हरिः

Swāmi Dayānanda.

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