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O Fogo Sagrado

Em todas as culturas e tradições o fogo simboliza a presença da luz e do sagrado. Aliás, terá sido a presença do fogo a agrupar os primeiros humanos em volta daquela presença quente e luminosa

Escrito por Miguel Homem · 2 mins de leitura >

Em todas as culturas e tradições o fogo simboliza a presença da luz e do sagrado. Aliás, terá sido a presença do fogo a agrupar os primeiros humanos em volta daquela presença quente e luminosa.

Quando nos sentamos em frente ao fogo sentimos algo mais do que o fenómeno natural: uma presença que nos faz companhia, um amigo antigo e ao mesmo tempo misterioso que nos olha e nos hipnotiza.

Na tradição védica, o fogo sagrado, agni, representa o conhecimento, a consciência, o que é puro e purifica. Da mesma forma que o fogo remove a escuridão, também o conhecimento remove a ignorância e revela a nossa natureza ? púrnatvam. Agni representa a natureza sagrada do Universo e do no Ser, a consciência escondida no corpo, a inteligência viva subjacente no mundo material, como o fogo escondido na lenha.

Os Vedas reverenciavam primordialmente as forças da natureza como manifestações da inteligência presente no Universo. Agni, o fogo, é um dos elementos mais invocados nos Vedas; existem mais de 200 hinos do Rg Veda que lhe são dedicados. De facto, a civilização védica girava à volta do fogo e a própria vida familiar existia à volta dele, de tal forma que o fogo recebia também o nome de grhapati, o senhor da casa.

Agni não é apenas a inteligência presente no fogo, mas também a inteligência presente no Sol, súrya, na luz, jyoti, em tudo o que ilumina e revela. Por isso, o Yoga nasce e existe dentro desta tradição do fogo sagrado. Nasce como um método de iluminação da mente, para que ela possa revelar a verdadeira identidade do ser humano ao invés de a camuflar. A palavra buddha demonstra isso mesmo: Buddha é aquele que iluminou buddhi, o seu intelecto.

Yajña

O yajña é um ritual simbólico em que nos sentamos para reconhecer agni como o símbolo da vida e da inteligência e não apenas como um simples fogo.

Enquanto a prática do Yoga se faz individualmente, o yajña é uma prática colectiva, um karma, para a purificação da mente e o cultivo das virtudes desejáveis no ser humano. O yajña faz parte do Karma Yoga.

O Karma Yoga constitui a acção correcta e a atitude correcta na acção e em relação aos frutos da acção. Segundo o ensinamento védico as acções correctas são, prioritariamente, aquelas que se traduzem num máximo benefício para o maior número de seres e são tradicionalmente enumeradas como sendo: yajñah (sacrifício), danam (doação), tapah (disciplina).

yajïadánatapaùkarma na tyájyaà káryameva tat |
yajïo dánaà tapashcaiva pávanáni maníshinám || 5||

Acções de sacríficio, caridade e disciplina não devem ser abandonadas e devem ser cumpridas, pois os sacrificios, caridade e disciplina purificam os homens de discernimento.

etányapi tu karmáni sangam tyaktvá phaláni ca |
kartavyáníti me pártha nishcitam matamuttamam || 6||

Assim, os sacrifícios, caridade e disciplina, bem como como todos os outros deveres devem ser executados sem apego e sem expectativa de recompensa. Este é, ó Arjuna, o meu bem reflectido e supremo verdicto.

(Bhagavad Gítá, XVIII, 5-6)

O sacrifício, yajñam, não é um ritual primitivo, mas um sacrifício da própria vontade e esforço em benefício alheio, que a final é o próprio benefício. São enumerado cinco grandes sacrifícios, panchamaháyajña, em reconhecimento dos devas, em gratidão aos ancestrais e mestres; em benefício e serviço à humanidade, aos não humanos e à natureza.

O resultado do Karma Yoga é a remoção das imperfeições no ser humano e o desenvolvimento das suas virtudes, o que se traduz numa purificação mental, chitta shuddhi, e uma nova disposição mental (chitta samskárah)

Ora como se transformam as imperfeições em virtudes, como se substituem samskáras não desejáveis, por aqueles que são desejáveis? Quando surgem pensamentos indesejáveis, estes podem ser eliminados pelo pensamento contrário ? pratipakshabhávanam.

Ouçamos Patañjali:

vitarka-bádhane pratipaksha-bhávanam || 33||

Quando estas restrições e observâncias são inibidas por pensamentos contrários, o oposto deve ser pensado [pratipakshabhávanam]. (Yoga-Sútra, II, 33)

Ora, é este o mecanismo por trás do yajña, a transformação das nossas impressões mentais latentes. Do desejo (káma) em relação ao que falta, para o contentamento (santosha) com o que se tem; da raiva (krodha) para a paciência (kshama); da ganância para a generosidade; da ilusão para o discernimento.

2 respostas para “O Fogo Sagrado”

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