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O novo momento do Yoga

Esta entrevista sobre o novo momento que o Yoga está vivendo em nossa sociedade fez parte do trabalho de pesquisa da jornalista Marcela Buscato, da revista Época. Compartilhamos aqui com nossos amigos e leitores seções da mesma que não foram publicadas nesse semanário, esperando que gostem e desfrutem.

Escrito por entrevista com Pedro Kupfer · 3 mins de leitura >

Esta entrevista sobre o novo momento que o Yoga está vivendo em nossa sociedade fez parte do trabalho de pesquisa da jornalista Marcela Buscato, da revista Época. Compartilhamos aqui com nossos amigos e leitores seções da mesma que não foram publicadas nesse semanário, esperando que gostem e desfrutem. A reportagem da Época pode ser lida clicando aqui.

Marcela Buscato: Depois de ler alguns livros e conversar com alguns profissionais, percebi que o yoga parece viver um novo momento. O yoga está sendo redescoberto como uma prática para quem quer buscar o equilíbrio, não necessariamente seguindo toda a filosofia da religião.

Pedro Kupfer: Em verdade, esta é outra leitura do Yoga, um pouco menos rasa, do que a visão que se tinha no meio da década de 1990, quando as academias de ginástica foram invadidas pela versão mais “física” do Yoga.

MB: Você sentiu essa mudança? Houve um aumento no número de alunos que estão procurando o yoga não pelos benefícios físicos nem pelo aspecto transcendental, mas para busca equilíbrio, auto-conhecimento?

Caso afirmativo, o que você acha que provocou essa mudança (o Yoga não é mais nem coisa de bicho grilo nem uma moda de academia)?

PK: Sim, percebi essa mudança. Tenho a impressão de que ela se deve ao bom trabalho feito pelos próprios professores de Yoga, no sentido de esclarecer à opinião pública que Yoga não é ginástica.

Desde a minha percepção, nunca deixou de haver gente interessada nas metas originais do Yoga, que são o autoconhecimento e a liberdade. Porém, a quantidade de pessoas que buscam o Yoga apenas pelos seus benefícios parece haver diminuído.

É como se a comunidade inteira dos praticantes de Yoga tivesse amadurecido de maneira grupal.

MB: Por que as mulheres são o maior público? Conversei com muitas que se disseram estressadas com a vida de mãe, esposa, profissional e partiram para o yoga para encontrar equilíbrio. Você já percebeu isso nas suas alunas?

PK: É um fato que a maioria dos praticantes de Yoga da atualidade, aqui no Ocidente, corresponde ao sexo feminino.

Embora pessoalmente eu acredite que não há diferenças essenciais entre homens e mulheres, parece haver sim uma diferença na maneira de escolher as soluções que ajudem a administrar o estresse e a pressão que a sociedade impõe às pessoas.

Assim, uma maiorias mulheres parecem ter reconhecido no Yoga uma solução eficiente para reencontrar o equilíbrio, a serenidade e a qualidade de vida. Mas isso não significa que muitos homens não tenham igualmente percebido que essa solução é tão eficiente para eles quanto o é para as mulheres.

MB: Como explicar que o yoga fornece esse equilíbrio e auto-conhecimento que as mulheres buscam? Quais são os aspectos e os elementos da prática que ajudam a manter a calma e a concentração?

PK: A prática de Yoga funciona em níveis diferentes: fisicamente falando, ativa e estimula de maneira positiva o sistema endócrino. Isto se traduz, por sua vez, em sensações de bem-estar, serenidade e equilíbrio. Além disso, ajuda bastante na manutenção da saúde, regula o apetite e aumenta a longevidade. Estes benefícios acontecem a partir da prática das posturas fisicas e dos exercícios respiratórios, chamados, respectivamente, āsana e prāṇāyāma.

Emocionalmente falando, o Yoga nos ensina a a aceitar de maneira equânime as circunstâncias e desafios que a vida nos coloca. Isto se traduz numa postura mais serena e numa melhor disposição no cotidiano. O relaxamento e os exercícios de concentração tomam conta desta esfera.

Na esfera mental, o Yoga tem como efeitos mais evidentes deixar o praticante em estado de equilíbrio, cultivando a aceitação, tanto de si próprio como das circunstâncias externas. Isso acontece como efeito das práticas de meditação e auto-observação, onde a pessoa aprende a observar sua própria mente e evitar as reações mecânicas e os condicionamentos.

MB: Você acha que é possível praticar o yoga sem crer em uma busca pelo divino ou transcendental?

PK: Sim, claro. Inclusive, porque há muitas diferentes interpretações do que seja a meta do Yoga. Dentre elas, há gente empenhada numa “busca pelo divino”, como você diz, o que aproxima as versões do Yoga que elas praticam da religião, e outras que colocam a ênfase no autoconhecimento, a reflexão e a aplicação desse conhecimento no cotidiano, como é o caso da linha que pessoalmente eu sigo.

Algumas formas de Yoga pedem a mesma fé que a religião exige. Outras pedem que a pessoa compreenda quem ela é, sem apelar a nenhum tipo de crença. Essa flexibilidade que o Yoga apresenta o torna muito versátil e atraente nos dias atuais, quando algumas das grandes religiões parecem ter perdido a força, e as pessoas não se contentam nem se preenchem com o materialismo nem com o humanismo.

MB: O que é o yoga para você? Uma religião, uma filosofia, um exercício físico?

PK: Para mim, o Yoga não é nem religião, nem filosofia (muito menos, um exercício físico), mas uma visão da vida e da maneira de olhar para ela. Desde dentro da cultura da Índia, onde o Yoga nasceu, ele é chamado darshana, ou “ponto de vista” sobre a realidade.

Prefiro não usar a palavra filosofia, pois aqui em Ocidente ela está vinculada a sistemas de pensamento nascidos da mente de alguns pensadores que desconstróem o que a geração anterior construiu e colocam outras ideias no lugar daquelas, enquanto que o Yoga lida com aquilo que é universal e eterno, que não muda: os valores universais e suas diferentes aplicações, bem como as formas de encontrar a felicidade e a liberdade que são inatas a nós mesmos. Filosofias vão e vem, como opiniões e teorias. A visão (o darshana) permanece.

jñānayoga

Jñānayoga em 11 Palavras

entrevista com Pedro Kupfer em Conheça, Vedānta
  ·   55 segundos de leitura

7 respostas para “O novo momento do Yoga”

  1. Pedro, boa tarde! Eu tenho uma filha de 2 anos com sindrome de down e tenho ouvido e lido em entrevistas as maravilhas da yoga para essas crianças especiais. gostaria de saber qual o tipo de yoga é mais indicado para essas crianças ?

  2. Oi, Pedro! Gostei muito de descobrir o Yoga.pro.com. Gosto muito dos artigos que ampliam mais meus horizontes sem medo de estar caindo numa cilada. Esta entrevista sua está muito clara e limpa. Gostei muito. Parabéns! : D

  3. Oi Pedro, ja li alguns artigos seu em revista de yoga e no curso de Yoga de Tales Nunes e simplismente adoro sua visão para com o yoga.
    Brevemente espero fazer cursos com você.

    Suas palavras escritas sempre serão de guia para o meu caminho de auto conhecimento.

    Namastê

  4. Oi Pedro,’
    fico feliz com o que li uma vez que, sempre que me questionam sobre o que é de fato yoga, (claro que é a minha resposta simplificada) respondo que “yoga é a maneira com que você conduz a sua existência, suas escolhas, suas responsabilidades, sua conduta como um todo. Ser pleno.” e acho que dá para resumir tudo isto com a palavra darshana. Se estiver errada, me corrija!

    Abraços,
    Adriane

  5. Adorei a reportagem. Sinto a Yoga com algo presente na minha vida como uma verdadeira fonte de energia. Depois da prática e da meditação me sinto renovada. A Yoga para mim foi um verdadeiro divisor de águas na minha jornada pois não me vejo sem a prática, nunca mais, é incrível mas na verdade é como se apenas tivesse retomado algo q estava esquecido…rsrs
    Parabéns pela reportagem, abraços, Ana.

  6. Pedro,
    Parabéns pela entrevista, suas opiniões são sempre bem ponderadas e antenadas com a realidade.
    Discordo um pouco sobre o conceito de filosofia, mas blz, na essência acho que as suas respostas foram ótimas.
    Mais uma vez obrigado pelos livros que vc selecionou p mim lá na Índia, estou descobrindo verdadeiras pérolas. Surendranath Dasgupta, p. ex., é simplesmente fantástico.
    Também gostei muito de Rajmani Tigunait, Paul Dessen, Deepti Dutta, Paul Dessen, Michael Comans, Jaideva Singh, John Woodrofe, Mikel Burley e Gregor Maehle, entre outros.
    É muita coisa boa, e por isso estou lendo e descobrindo cada autor aos poucos p não dar um nó nas idéias!! rs
    Forte abço mafrend!
    =====
    Oi Augusto!
    Fico muito feliz de que você tenha gostado daquela seleção de livros. Dasgupta é realmente muito valioso.
    Abraço grande para você também!

  7. A reportagem está muito boa! E as respostas não publicadas estão igualmente muito boas! Parabéns!

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