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Quatro Aforismos Fundamentais do Yogasūtra

Esteja preparado para começar: começar a buscar sinceramente a Auto-realização é o passo mais importante na vida, quando o objetivo mais elevado da existência passa a ser o número um na lista de coisas para se fazer.

Escrito por Swami Jñaneshvara Bharati · 20 mins de leitura >

Os quatro primeiros aforismos do Yogasūtra são essenciais para compreender o propósito da prática.

Esteja preparado para começar: Começar a buscar sinceramente a Auto-realização é o passo mais importante na vida, quando o objetivo mais elevado da existência passa a ser o número um na lista de coisas para se fazer.

A primeira palavra do Yogasūtra é atha (1.1), que significa “agora”. Esta palavra em particular, que significa “neste momento”, implica em uma prontidão para alcançar o estado auspicioso de desejo e compromisso com a Auto-realização, o objetivo mais elevado do Yoga.

Definição do Yoga: Os primeiros quatro sutras definem o Yoga, sendo esta definição expandida nos demais sutras. Em um processo sistemático de meditação, gradualmente movemos a atenção para dentro, através de todos os níveis de nosso ser, obtendo maestria ao longo do caminho (1.2).

Eventualmente, descansamos em nossa verdadeira natureza, que está além de todos estes níveis (1.3). Esta ação e a realização deste centro de consciência é o significado do Yoga.

Aforismos Yoga Patañjali Aṣṭāṅga

Yogash chitta vritti nirodhah.

Tada drashtuh svarupe avasthanam.

Yoga é o domínio das atividades no campo da mente.

Então, aquele que vê descansa em sua verdadeira natureza.

Conhecendo o que sobra após a remoção dos obstáculos:

Existe uma simplicidade fundamental no processo do Yoga que é esboçada no Yoga Sutras. Embora o processo possa parecer muito complexo quando se lê o Yoga Sutras e seus comentários, o tema central é a remoção e a transcendência dos obstáculos, véus ou falsas identidades.

As várias sugestões no Yoga Sutras são o detalhamento ou o refinamento de como fazer esta remoção ou transcendência. Estar sempre atento a esta simplicidade central, torna mais fácil progredir sistematicamente no caminho do Yoga.

O verdadeiro Eu brilha: Uma vez que os obstáculos e as falsas identidades sejam temporariamente postos de lado, o verdadeiro Eu, que sempre esteve presente, vem a brilhar naturalmente (1.3).

No restante do tempo, estamos tão envolvidos com nossas falsas identidades que, literalmente, não vemos que um erro de identificação aconteceu (1.4). Esta é a razão pela qual as vezes é dito que estamos dormindo e que precisamos acordar. Este despertar para o Eu é o significado do Yoga.

Como um espelho: A consciência olha para fora, através do intelecto, através da mente, e depois através dos sentidos e do corpo. A consciência vê um reflexo, como um espelho, que parece real, um mundo ou uma auto-identidade, que ela acha enganosamente como sendo “eu” ou “meu”.

Através do poder do esquecimento de avidya, ou ignorância (2.5), a consciência pura diz: “Eu sou isto ou aquilo”. Esta situação não é má de todo, já que cria a oportunidade para a alegria do despertar, através de uma jornada chamada Yoga, retornando para a totalidade que, de fato, nunca foi dividida.

A Filosofia do Yoga e do Sāṅkhya: O processo de realização através do Yoga se baseia no reconhecimento de que a consciência pura (Puruṣa) esta separada de todas as muitas falsas identidades, as quais são consideradas como sendo uma evolução da matéria primordial (Prakṛti). Os princípios Puruṣa e Prakṛti fazem parte do sistema filosófico conhecido como Sankhya. O Yoga e o Sankhya são dois dos seis sistemas de filosofia da Índia.
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Leia também os artigos:
Sankhya Yoga, Prakriti and Its Evolutes: Returning to Self-Realization;
Yoga Darshana and the Goal of Seeing Reality
(Swami Rama discusses the foundations of Sankhya and the Yoga Sutras).

O Yoga é samadhi

Tanto sábios antigos quanto modernos, incluindo Vyasa, o mais notável comentarista do Yoga Sutras, declararam de maneira direta que o Yoga é samadhi, o elevado estado de concentração perfeita, ou completa absorção da atenção (3.3).

Yoga significa união, literalmente, jungir, da raiz yuj, que quer dizer juntar ou integrar. Significa induzir a união dos aspectos de nós mesmos que, primeiramente, nunca foram de fato divididos. Significa alcançar a experiência direta do centro do ser holístico preexistente que é quem nos realmente somos no nível mais profundo, algo realizado através do samadhi.
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Leia também o artigo:
Bindu: Pinnacle of Yoga, Vedanta and Tantra.

O objetivo do Yoga é o Yoga. Ponto.

Não é Yoga: O Yoga não é somente preparação física, gerenciamento de stress, tratamento médico, ou um meio de ganhar dinheiro, embora o Yoga autêntico seja definitivamente benéfico para muitos aspectos da vida. O objetivo do Yoga é o Yoga, ponto.
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Leia também o artigo Modern Yoga versus Traditional Yoga.

(Nota do tradutor: artigo já traduzido e disponível neste site sob o título “O Yoga Moderno Versus o Yoga Tradicional”).

A Auto-Realização e o Microchip

Existem três “partes” básicas em um microchip:

1- O material do qual o microchip é feito.

2- O programa e a memória que operam no microchip.

3- A eletricidade que permite que o microchip funcione.

Também existem três “partes” básicas em um ser humano:

1 – O material: o “material” básico (prakriti) a partir do qual todos os níveis de nosso ser são construídos ou se manifestam.

2 – A manifestação: as manifestações externas do “material” básico, como o programa e a memória no microchip, incluindo individualidade, inteligência, mente, sentidos, e os blocos de construção terra, água, fogo, ar, espaço, e suas incontáveis combinações e permutações.

3 – Consciência: a consciência pura (purusha), incorrupta e eterna, que flui através de toda a matriz das atividades da ação, fala e pensamentos, semelhante a eletricidade não adulterada que flui pelo microchip.

Experimentando o Eu: A Auto-realização é o estado de perceber a nós mesmos como “eletricidade”, a consciência pura que possibilita que todos os planos de nosso ser funcionem. Não existe um “eu”, resultante da personalidade, programa e memória, que está conquistando algo novo.

O que acontece é a Realização deste Eu central, que está além das incontáveis falsas identidades, tão belo e único quanto pode ser.

1.1 Agora, após ter feito preparação prévia durante a vida e outras práticas, o estudo e a prática de Yoga tem inicio.

O primeiro dos Aforismos do Yogasūtra

Atha yoga anushasanam

· Atha = agora, neste momento auspicioso; implica na transição para esta prática e busca, após uma preparação prévia; implica em uma benção neste momento de transição.
· Yoga = do yoga, união; literalmente, jungir, da raiz yuj, que significa juntar ou integrar; o mesmo que a absorção no samadhi.
· Anu = desde, ou seguir a tradição; implica em ser subsequente a alguma coisa, neste caso a uma preparação prévia.
· Shasanam = instrução, disciplina, treino, ensino, exposição, explanação; Shas implica na transmissão do ensinamento que acontece junto com a disciplina.
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Leia também o artigo Now, Then, and Therefore Yoga Discipline is Being Explained, (Swami Rama on Yogasūtra, 1.1).

O Yoga vem após a preparação: Este sutra introdutório sugere que após muitas ações na vida e demais práticas preparatórias executadas, agora, finalmente, estamos prontos para prosseguir nas profundezas da auto-exploração, a jornada direta para o centro da consciência, Atman, ou Eu, nossa identidade eterna e Verdadeira.

Disciplina e aprendizado: Para praticar Yoga é preciso desenvolver a disciplina e seguir um método sistemático de aprendizado (anushasanam). Está mais relacionado com a qualidade ou com a convicção na prática pessoal do que com a quantidade da prática pessoal. Isto é descrito em detalhes nos sutras 1.21 e 1.22.

Cinco estados da mente: Ao descrever este sutra, o sábio Vyasa nomeia cinco estados da mente, dos quais o estado da mente direcionado (ekagra) (1.32) é o estado desejado para a prática do Yoga. Estes cinco estados da mente vão desde uma mente severamente perturbada até uma mente completamente controlada. Os cinco estados da mente são:

· Kṣipta/perturbado
· Mudha/letárgico
· Vikṣipta/distraído
· Ekagra/direcionado
· Nirodhaḥ/conduzido com maestria

Posicionar os cinco estados da mente
nos dedos das mãos pode ajudar a lembrar

Sabendo onde estamos: É muito útil estar atento aos estados da mente, seja no momento presente, ou nas situações normais nas quais funcionamos diariamente. Isto revela a profundidade da prática que estamos aptos a praticar naquele determinado momento.

Alguns aspectos da meditação do yoga se aplicam a todos os seres humanos, embora precisemos estar atentos para aquilo que seja mais adequado e efetivo, em função do estado da mente de cada um.

Dois destes estados são desejáveis: Dos cinco estados da mente (descritos abaixo com mais detalhes), os dois últimos (direcionado e regido com maestria) são os mais desejáveis para as práticas profundas de meditação do yoga.

Normalmente, para a maioria das pessoas, a mente está em um dos três primeiros estados (perturbado, letárgico, distraído). Ao lidar com uma mente problemática ou letárgica, devemos progredir para uma mente somente distraída, de onde podemos mais facilmente treinar a mente para ser direcionada.

Estabilize a mente no estado direcionado: Sabendo disto, podemos conduzir nossa mente de tal forma que ela seja gradualmente estabilizada no quarto estado, o estado de mente direcionado. (Atente que o uso da frase “quarto estado” é diferente daquele usado em relação ao quarto estado de consciência turiya).

É este estado de mente direcionado que nos prepara para o quinto estado, no qual existe a condução perfeita da mente. Já os dois primeiros estados da mente podem ser tão intensos que se manifestam como aquilo que os psicólogos chamam de doenças mentais.

Saber onde sua mente está agora lhe diz sobre
como se chega ao local para onde você está indo.

1. Kshipta/perturbado: A mente kṣipta está perturbada, impaciente, preocupada, distraída. Este é o menos desejável dentre os estados da mente, no qual a mente está perturbada. A mente pode estar severamente perturbada, moderadamente perturbada, ou levemente perturbada.

Pode estar atormentada, preocupada ou caótica. Não é somente uma mente distraída (vikṣipta), pois possui a característica adicional de uma complicação emocional negativa mais intensa.

2. Mudha/letárgico: A mente mudha está estupefata, entorpecida, pesada, esquecida. Neste estado de mente existe menos velocidade na mudança do processo mental.

É um estado entorpecido ou sonolento, algo como estar deprimido, embora aqui não seja somente o significado clínico da depressão. É uma disposição pesada no qual podemos entrar, quando queremos ficar sem fazer nada, ser letárgico ou ficar viciado em televisão.

A mente mudha é só um pouco melhor do que a mente perturbada kṣipta, diferindo que as atividades perturbadoras diminuíram de ritmo e a mente pode ser mais facilmente treinada. A mente pode ser gradativamente ensinada a ser um pouco mais estável em um sentido positivo, distraindo-se só ocasionalmente, o que é o estado Vikshipta. Daí, a mente pode progredir em seu treino para os estados Ekagra e Nirodhah.

3. Vikshipta/distraído: A mente Vikshipta é distraída, se estabilizando ou concentrando ocasionalmente. Este é o estado de mente relatado com freqüência por estudantes de meditação quando estão totalmente despertos e alertas, e não perturbados, sonolentos ou letárgicos de forma perceptível.

Neste estado de mente, a atenção é facilmente atraída ao acaso. Este é a mente macaco ou barulhenta, sendo comum o relato que ela atrapalha a meditação. A mente pode se concentrar por curtos períodos de tempo, depois sendo distraída por alguma aversão ou atração. Daí, a mente é trazida de volta, só para se distrair novamente.

No dia-a-dia a mente Vikshipta pode se concentrar em um ou outro projeto, embora possa vaguear ou sair do curso por causa de uma pessoa ou outra influência externa, ou por uma memória que tenha emergido.

A mente Vikshipta é onde queremos chegar através das práticas do yoga, para daí prosseguir para a mente corretamente direcionada de Ekagra e para a condução perfeita que vem com o estado de Nirodhah.

4. Ekagra/direcionado:
A mente Ekagra é direcionada, focada, concentrada (Yoga Sutra, 1.32). Quando a mente adquire a habilidade de ser direcionada, a prática real de meditação do Yoga tem início.

Significa que podemos focar em tarefas manuais da vida diária, praticando karma yoga, o yoga da ação, ao sermos diligentes com o processo mental e conscientemente servirmos aos outros. Quando a mente está direcionada, as atividades internas ou externas simplesmente não são uma distração.

A habilidade de focar a atenção é uma destreza primária para a meditação e o samadhi.

A pessoa com uma mente corretamente direcionada apenas continua com os assuntos do momento, não sendo perturbada, não sendo afetada e não se envolvendo com os outros estímulos. É importante perceber que isto é dito em um sentido positivo, e não no sentido negativo de não se preocupar com as pessoas e demais prioridade internas.

A mente direcionada está totalmente presente no momento e está apta a ocupar-se com pessoas, pensamentos e emoções de acordo com a sua vontade própria.

A mente direcionada está apta a fazer práticas de concentração e meditação, conduzindo-nos progressivamente para o samadhi. A habilidade de focar a atenção é um dom primário que o estudante precisa desenvolver para a meditação e o samadhi.

5. Nirodhah/regido com maestria: A mente Nirodhah é altamente regida, controlada, regulada, contida (Yoga Sutra 1.2). É muito difícil para alguém capturar ao significado do estado de mente Nirodhah somente lendo sua descrição.

O entendimento real deste estado da mente vem somente pela prática da meditação e contemplação. Quando a palavra Nirodhah é traduzida como controlada, regulada ou contida, podemos facilmente compreender mal seu significado como sendo supressão de pensamentos e emoções.

A supressão de pensamentos e emoções não é saudável e não é o que se quer dizer aqui. Ao contrário, tem a ver com o processo natural quando a mente está corretamente direcionada e se torna progressivamente mais estável enquanto a meditação se aprofunda.

Não que os padrões de pensamento não estejam lá ou estejam suprimidos, mas a atenção se moveu para dentro ou para além do fluxo de impressões internas. Nesta imobilidade profunda, há uma maestria sobre o processo da mente. É esta maestria que quer dizer Nirodhah.

No segundo sutra do Yogasūtra (o sutra abaixo), o Yoga é definido com “Yoga Chitta Vritti Nirodhah”, que é a grosso modo traduzido como “O Yoga é o controle [nirodhah] dos padrões de pensamentos no campo da mente”. Assim, o estado de mente nirodhah é o objetivo e definição do Yoga. É a entrada pela qual vamos além da identificação com a mente.

1.2 O Yoga é o controle (nirodhah, regular, canalizar, reger, integrar, coordenar, estabilizar, aquietar, apartar) das modificações (padrões de pensamentos densos e sutis) do campo da mente.

O Segundo Aforismo

Yogash chitta vritti nirodhah

· Yoga = do yoga, união; literalmente, jungir, da raiz yuk, que significa juntar, o mesmo que a absorção em samadhi.
· Chitta = da consciência no campo da mente.
· Vritti = operações, atividades, flutuações, modificações, mudanças, ou várias formas do campo da mente.
· Nirodhah = controlar, regular, canalizar, reger, integrar, coordenar, entender, estabilizar, aquietar, apartar.

Nirodhah sugere auto-treinamento: Esta sentença simples é a definição mais sucinta da ciência da Auto-realização, ou Yoga. A chave para entender é a palavra nirodhah, que desafia traduções ou descrições. Quando pobremente traduzida ou mal compreendida, pode soar como a supressão ou repressão de pensamentos e emoções, e definitivamente não é isto que o Yoga fala.

Ao contrário, é sobre um processo mais como coordenar e apartar o que não é significativo ou não-eu (2.5). Significa procurar a jóia da Verdade que está abaixo ou além de todas as demais atividades no campo da mente.

Isto acontece através de um programa de auto-treinamento, trabalhando com as relações, sentidos, corpo, respiração e mente. No fim das contas, o significado de nirodhah e, assim, o do Yoga, começa a emergir experimentalmente pela execução das práticas do Yoga

Nirodhah é o mais desejável dentre os cinco estados da mente: O sábio Vyasa nomeia cinco estados da mente, dos quais o estado de mente nirodhah é o estado desejável para a realização do verdadeiro Eu.

Estes cinco estados da mente são descritos acima na apresentação do sutra 1.1. É extremamente útil estar atento aos cinco estados da mente, de forma a melhor entender sua relação com o mais desejável dos estado da mente, nirodhah.

Descolorindo seus pensamentos: Encontrar a jóia do Eu requer deixar para trás as cores dos padrões de pensamento (1.5), como apego, aversão e medo (2.3), o que envolve testemunhar nosso próprio processo interior.
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Leia também o artigo Witnessing Your Thoughts in Yoga Practice. (Nota do tradutor: artigo já traduzido e disponível neste site www.yoga.pro.br, sob o título “Testemunhando seus Pensamentos em Práticas de Yoga”).

Prática e não-apego: Estes dois princípios estão no cerne deste programa de auto-treinamento: 1) A prática leva à estabilidade e tranquilidade e 2) não-apego (1.12-1.16).

Atitude, empenho e compromisso: São cinco as atitudes, empenho e compromissos para serem cultivados – fé na direção, energia para chegar lá, atenção e memória para ficar lá, e o compromisso progressivo para buscar os elevados estados de concentração e sabedoria (1.20).

Estabilizando e clareando a mente: Práticas preparatórias, como meditação sobre atitudes para com as pessoas e caminhos para focar a atenção, são executadas para treinar a mente para que as meditações sutis possam então ser praticadas (1.33-1.39).

Reduzindo a espessura das cores na mente:
A maior parte da espessura das cores na mente, relacionado principalmente com atrações, aversões e medos, é reduzida por um processo de treino do sentidos, estudo interior e entrega (2.1-2.9).

Discriminação através dos oito braços do Yoga: Cultivar a discriminação interior através dos oito braços do yoga (2.26 – 2.29), para assim sistematicamente descobrir a jóia do Eu (1.3).

A Mente se Torna Como um Cristal Transparente

Quando a mente está nublada não pode ver com clareza os objetos no campo da mente ou os objetos do mundo exterior. É como um cristal fosco ou uma pedra de cor sólida. Quando a mente vai se tornando cada vez mais clara através da prática de meditação do yoga, ela fica parecida com um cristal transparente.

Um cristal transparente irá assumir a cor de qualquer objeto que dela fique próximo (leia os sutras 1.41-1.43). Quanto tal tipo de mente clara foca em um objeto no campo da mente, fica totalmente absorvida naquele objeto, permitindo que seja visto a natureza do objeto com muita clareza.

Sistematicamente, exploramos, encontramos, examinamos e, gradualmente, através do desapego, deixamos de lado as muitas falsas identidades, atrações, aversões e medos.

Esta introspecção é feita nos aspectos mais densos da mente, e também nos mais sutis, onde está o depósito de impressões profundas, que são a força motriz por trás do karma (leia os sutras 1.2-1.4 e 2.1-2.25).

Esta mente com transparência cristalina pode eventualmente transcender a absorção de todos os objetos da mente, deixando para trás até mesmo os níveis de samādhi sobre objetos. A mente se volta para dentro e se entrega na experiência direta daquilo que está além da mente.

1.3 Então, o Observador reside em si mesmo, descansando em sua Verdadeira Natureza, o que é chamado de Auto-realização.

O Terceiro Aforismo

Tada drashtuh svarupe avasthanam

· Tada = então, ao mesmo tempo; no momento da concentração e da meditação.

· Drashtuh = o observador, a alma, a testemunha, Atman, Eu; da raiz drsh, que significa ver (É significativo notar que Patanjali não está tentando definir quem é o observador, ou a natureza daquele que observa. Isto é deixado para ser respondido ou resolvido na experiência direta).

· Svarupe = em sua própria natureza, forma própria ou essência; (sva = próprio; rupa = forma).

· Avasthanam = estabilidade, fixação, permanecer, estar em um estado, descansar, repousar, fixar; a raiz stha significa permanecer.

Então o Eu permanece só: Como resultado da realização do processo de nirodhah, descrito no sutra anterior, o verdadeiro Eu permanece só, sem estar sobrecarregado por várias falsas identidades (descritas no próximo sutra).

Este processo de permanecer só é o motivo pelo qual a frase Auto-realização usa a palavra realização, ao invés de usar uma palavra como conquistar ou alcançar. O processo não é conquistar alguma coisa que não temos, mas sim remover as nuvens para vermos a luz que já está lá.

A onda esquece a verdade que ela é o oceano, pensando que ela é a grande forma que adotou temporariamente. Por um momento, ela adota a rupa (forma) de onda. Finalmente, ela lembra sua rupa (forma) verdadeira como sendo o oceano.

As duas formas coexistem, apesar de uma ser verdadeira e a outra, apesar de bonita, ser somente relativamente verdadeira. Assim, nós humanos, também esquecemos nossa verdadeira natureza, mas, através do yoga, podemos recordar.

A consciência permanece a mesma: Na meditação profunda, percebemos que enquanto os padrões de pensamentos mudam, sempre alterando sua forma, da mesma forma que as ondas do oceano mudam constantemente, a consciência nunca muda. Existe uma consciência constante, sempre fluida, sempre existente que simplesmente é, que observa ou testemunha.

Na meditação esta verdade é percebida sucessivamente, enquanto camada após camada e nível após nível do processo mental são revelados e percebidos como sendo semelhantes ao deslocamento profundo das ondas do oceano. A consciência em si permanece a mesma e se torna cada vez mais clara, enquanto o centro da consciência permanece só, apesar de todos os níveis ela que permeia.

O observador: A palavra drastuh significa observador ou testemunha. A palavra observador não é uma descrição ou definição teológica ou metafísica de quem nos somos. Esta é uma das belas qualidades do Yoga e do Yoga Sutras. Não há nada na palavra observador para acreditar ou não acreditar.

Ao ouvir que o observador descansa em sua verdadeira natureza após transcender as várias formas de padrões de pensamentos no campo da mente (1.3), podemos simplesmente fazer as práticas purificadoras e pessoalmente experimentar os resultados.

A palavra drashtuh é traduzida com freqüência como Eu, Alma ou Atman, o que gera alguma clareza ou investigação teórica sobre a natureza deste observador, mas é útil lembrar que Patanjali na verdade não está nos dizendo qual é a natureza de nosso verdadeiro Eu.

Ele está dizendo que o observador terá a experiência de si mesmo, terá a experiência de sua verdadeira natureza, não importando a maneira como esta experiência seja descrita por cada um.

Vivendo a experiência do observador em sua própria natureza: De modo similar, a palavra svarupe significa em sua própria natureza. Aqui Patanjali também não está dando uma definição da verdadeira natureza do observador.

Mais uma vez, não existe algo para acreditar ou não acreditar. Através da prática e do não-apego (1.12-1.16) e transcendendo os muitos erros de identidade (1.4, 2.5), podemos ter a experiência direta de nossa própria natureza.

A maior parte das pessoas é curiosa e quer ouvir ou ler descrições desta verdadeira natureza, nos fazendo escrever e falar sobre o Eu, Alma, Atman, etc. Enquanto usamos, descrevemos e discutimos estes termos é, mais uma vez, muito útil manter em mente que o Yoga, na verdade, se refere simplesmente ao observador, o qual está descansando em sua própria natureza, possibilitando a experiência direta para assim revelar o que ele é.
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A Consciência se Retira de uma Série de Instrumentos

Quando falamos dos estágios da meditação, pode parecer que “eu” sou um viajante distinto, e que “eu” estou viajando de um local para o próximo, como passar de uma pedra para outra quando ando por um caminho. Não é assim que a meditação funciona.

A consciência se move progressivamente para fora através de uma série de instrumentos, como telescópios, para experimentar o mundo exterior. A jornada da meditação reverte este processo ao recolher sistematicamente a atenção destes instrumentos parecidos com telescópios, permitindo que a atenção descanse em sua forma pura e sem forma, sua Verdadeira Natureza.

Os sentidos são instrumentos que trazem a experiência do mundo exterior para dentro, até a mente.

A mente é um instrumento que traz esta experiência mais para dentro, até a inteligência.

A inteligência é um instrumento que traz esta experiência mais para dentro, até o Indivíduo.

A Individualidade permite que a Consciência experimente a si mesma como um experimentador.

O observador está ligado ao mundo exterior através dos instrumentos.

Os sentidos são então recolhidos dos objetos.

A mente então é recolhida dos sentidos.

A inteligência é então recolhida da mente.

A Individualidade é recolhida da inteligência, permanecendo só.

A Individualidade se entrega na Consciência, enquanto o Observador conhece sua Verdadeira Natureza.

Purusha e Prakriti: O processo de realização através do Yoga se baseia em descobrir a consciência pura (Purusha) como separada das várias falsas identidades, as quais são consideradas como sendo evoluções ou derivações da matéria primordial (prakriti). Os princípios purusha e prakriti são parte do sistema filosófico conhecido como Sankhya. O Yoga e o Sankhya são dois dos seis sistemas de filosofia da Índia.
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Leia também os artigos: Six Schools of Indian Philosophy e Prakriti and Its Evolutes: Returning to Sefl-Realization.

Diferenciando entre Purusha e Prakriti: O processo inteiro do Yoga se baseia na diferenciação entre Purusha e as falsas identidades de Prakriti. Enquanto este processo de discriminação permeia todo o Yoga Sutras, os três grupos de sutras abaixo irão clarear a forma com que a diferenciação se relaciona com as práticas e a realização:

· Os 8 membros e a diferenciação (2.26-2.29)

· Diferenciação elevada (3.53-2.56)

· Buddhi e libertação (4.22-4.26)

1.4 Em outros momentos, quando não está em Auto-realização, parece que o Observador adotou a forma das modificações do campo da mente, tomando para si a identidade destes padrões de pensamentos.

O Quarto Aforismo

Vritti sarupyam itaratrah

· Vritti = operações, atividades, flutuações, modificações, mudanças, ou formas variadas (do campo da mente).

· Sarupyam = semelhança, assemelhar, aparência de, identificação de forma ou natureza, conformidade com a forma de; a raiz sa significa com e rupa significa forma.

· Itaratra = em outro lugar, em outros tempos, quando não neste estado de realização descrito acima.

Quando não estamos conscientes de nossa verdadeira natureza: Quando a atividade de todos os níveis da mente foi transcendida (1.2), experimentamos a consciência pura (1.3). Entretanto, no restante do tempo, a mente flutua entre as várias experiências senhoriais que temos e entre os fluxos de memórias e fantasias.

A existência do mundo externo e das memórias não são o problema. O problema é que a consciência pura enganosamente assume a identidade destes padrões de pensamentos.

Desta forma, incorretamente passamos a achar que quem nós somos é uno e o mesmo que estes pensamentos. A solução é separar o observador daquilo que é visto (2.17), separar aquele que observa do objeto experimentado. Este é o tema e a prática do Yoga.

Barra de Chocolates e Yoga Sutra 1.2 – 1.4

O Yoga é o controle (nirodhah, regulação, canalização, regência, integração, coordenação, estabilização, aquietação, dotação) das modificações (padrões de pensamentos densos e sutis) no campo da mente (1.2).

Então, o Observador permanece em si mesmo, descansando em sua própria Natureza Verdadeira, o que é chamado de Auto-realização (1.3). Em outros momentos, quando não está em Auto-realização, o Observador parece que adquire a forma das modificações do campo da mente, tomando para si a identidade dos padrões de pensamento (1.4).

Inicialmente, este processo de ver com clareza pode acontecer com objetos densos, como por exemplo o que convencionalmente chamamos de memória.

Entretanto, gradualmente, percebemos que também nos tornamos erradamente identificados com os instrumentos sutis, os quais permitem que tenhamos sensações, como os instrumentos da cognição (os sentidos), ou os blocos sutis da construção da auto-identidade, como terra, água, fogo, ar e espaço, assim com a energia sutil que flui.

A consciência envolve os objetos mentais: Quando um escultor em metal quer fazer um molde, ele primeiro faz uma estátua de gesso, então forma um molde de argila ao redor da estátua. Depois, a argila se torna o molde para derramar o metal líquido dentro.

O processo da argila assumir a forma do modelo original de gesso é o que significa o observador, ou Eu, aparentemente assumir a forma dos padrões de pensamentos armazenados no campo da mente.

Quando a consciência pura se envolve ao redor do objeto mental que encontra, apenas parece que ela assumiu a identidade daquele objeto, o que resulta em um tipo de engano de identidade.

Ouro e argila: O ouro é derretido, reformado e moldado em muitos ornamentos diferentes. Ainda assim continua a ser ouro. A argila é esticada, amassada, torcida e modelada em muitos diferentes tipos de tigelas e outros objetos. Ainda assim continua a ser argila.

Embora a consciência molde a si mesma na forma dos muitos objetos armazenados na campo da mente, esta consciência permanece pura se ficar sozinha. A consciência desprovida de qualquer forma é descrita como sendo a natureza da existência, consciência e felicidade.

É sempre um objeto mental: O objeto ao redor do qual a consciência se envolve é sempre um objeto interior mental, embora possa haver um objeto externo sendo percebido pelos sentidos (indriya).

Se vemos e cheiramos nossa comida favorita, ou algo repulsivo, é a memória daquela experiência, o objeto mental, que está sendo colocado em funcionamento e trazido para a superfície.

Mesmo que não tenhamos experimentado algum objeto em particular anteriormente, este é apresentado através dos olhos e ouvidos e demais sentidos, no campo da mente, como se fosse uma tela de cinema, onde o observador pode então observar.

A experiência em si acontece entre a testemunha interior e o objeto apresentado, e o objeto apresentado pode vir tanto através dos sentidos quanto da memória (mundo sutil, consciência interna).

A importância disto é que precisamos trabalhar com nossa consciência interior com relação aos nosso objetos mentais. Em outras palavras, precisamos treinar nossa própria mente e sentidos.

Cinco formas de objetos mentais: Os cinco tipos de padrões de pensamentos que resultam desta falsa identidade (o Observador assumir falsas identidades), são descritos nos sutras 1.5-1.11.

O como libertar a consciência destas poucas categorias de erro de identidade é o processo de iluminação, e é o assunto do Yogasūtra.

Mude o diálogo interno de “eu quero” para “isto quer”.

Quando apegos e aversões emergem no lago da mente, podemos dizer ou pensar algo como “eu quero isto ou aquilo” ou “eu não gosto disto ou daquilo”. Entretanto,

não é o “Eu” que quer isto ou aquilo.
É “isto” que quer isto ou aquilo.

É o padrão de pensamento individual, a impressão profunda ou padrão de hábito no campo da mente, que deseja executar suas atrações ou aversões.

O Yoga explica que o motivo pelo qual não experimentamos o estado de Auto-realização é que a consciência pura se identifica com os padrões de pensamentos profundos (Vrittis) do campo da mente (Chitta; Yoga Sutra, 1.2-1.4).

O problema é que o “Eu” se identifica com todos os Vrittis (padrões de pensamentos), e cada um destes padrões de pensamento são um “isto”, que não é o “Eu”, aquele sou na verdade.

Perceber que é o Vrittis (não “Eu”) que é colorido com atração, aversão e medo é um passo crucial no caminho da Auto-Realização. Uma forma fácil e direta para começar a corrigir este equivoco é:

Pare de dizer – “eu” quero.
Passe a dizer – “isto” quer.

Somos definitivamente responsáveis pelos pensamentos individuais e pelas palavras e ações que deles resultam, mas estes pensamentos não são “quem eu sou”. Enquanto a meditação progride, as cores das atrações e aversões enfraquecem gradualmente, enquanto “Eu”, o Verdadeiro Eu, brilha com mais intensidade.

Mudando “eu quero” para “isto quer”, ajuda a clarear uma mente nublada, de forma a permitir a discriminação entre o “Eu” e os objetos no campo da mente.
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Traduzido do original “Yogasūtra, 1.1-1.4: What is Yoga?”, de autoria de Swāmi Jñāneshvara Bharati, disponível em SwamiJ.com.

3 respostas para “Quatro Aforismos Fundamentais do Yogasūtra”

  1. Caramba! Vocês — comentadores — sabem tudo hein! (Quando crescer quero ser igual a vocês).

    Como sadhaka, sei dizer que a coisa não é fácil.

    Gostei da parte onde é dito “isto quer” e não “eu quero”. Acho que ter isto em mente o tempo todo é fundamental. Os samskaras, vasanas e vrittis (ciclo karmico) são coisas IMPESSOAIS. Estão “aí” pq os achamos interessantes (nos identificamos).

  2. Nota-se que os comentários do Swami Shivaraja, partem de alguém que tem conhecimentos e boa intenção. Todavia, peço permissão a ele para divergir em um ponto: pelo fato da maioria dos internautas costumar ler apenas pequenos textos, não seria justo e nem producente, privar as pessoas interessadas, de usufruir da leitura de um artigo magistralmente escrito, eivado de tão profundos e bem ministrados conhecimentos. Seria realmente um lástima reduzir este texto, o mínimo que fosse. Para muitas pessoas ele deveria ser bem mais longo. Com certeza que a maioria dos internautas, continuará encontrando na internet ou nos demais meios de comunicação, os “textículos” de sua preferência. Abraço a todos, Mário Pereira

  3. Caros amigos do yoga.pro.br,
    Este artigo é excelente. Porém creio que ele poderia ter sido dividido em mais de um artigo, para uma compreensão mais didática. É apenas minha opinião. Creio que o conteúdo ficou um pouco longo, e é fato que a maioria dos internautas não costuma ler algo mais do que textículos.
    Devido ao bom conteúdo deste artigo, acho que ficaria um pouco melhor assim, para disponibilizar esta parte tão relegada (se não em teoria, ao menos na prática) do conhecimento do Ser (Atma Jñana). É apenas uma sugestão para os próximos.
    Quanto a conteúdo, é excelente. Principalmente quanto ao correto esclarecimento de que Moksha não está em adquirir novas carapaças para aquilo que já é perfeito, o qual já somos. E de que o Yogasutras não pretende ser um novo sistema de aquisição intelectual, mas sim a “remoção” de obstáculos, para que “chitta vritti nirodhah, tada drashtuh svarupe avasthanam”, como muito bem cita o autor do artigo.
    Em meus Satsangs às vezes uso o exemplo da cebola e sua suposta semente. Mas uma cebola não tem sementes! Onde está a semente da cebola? Sim! Para se chegar no âmago de uma cebola, temos que ir descascando camada por camada (que são apenas folhas amalgamadas umas nas outras).
    Depois de um processo de “remoção” das camadas, é interessante notar que não há semente… Depois do descascar, quando desdobramos a última folhinha, o que há lá dentro??? Há o espaço vazio, o mesmo que tinha fora e que há em todo o universo, onipresente e onisciente.
    As folhas eram apenas obstáculos que separavam um espaço aparentemente finito, do espaço sem fim ao seu redor, aqui e agora. Considero importante compartilhar a consciência de que “ao invés de descobrir quem é você, tente \\\’descascar\\\’ aquilo que não é. Remova os obstáculos que obscurecem aquilo que É”
    Ainda em relação ao artigo, somente duas pequeninas ressalvas. Novamente, são só a opinião de uma pessoa simples. 1- Não creio que Kshipta seja inferior a Mudha. Creio que ambos estados mentais são eqüidistantes. Pelo contrário, alunos “agitados” costumam dar mais frutos que os “letárgicos” e até mesmo mais que os “distraídos”.
    2- Não quero por nomes, mas quando se fala em “estados mentais” o foco fica muito naquilo que nós brasileiros chamamos de “mente”. Eu me constato como “algo” além até mesmo da mente. Quando isso se esclarece e mostra sua natureza, a mente acompanha, e vice versa. Quando a mente não está com suas “emanações” Eu me revelo. Depois de muito me debater com estudo dos shastras, vi que se nós tentamos mudar nosso estado mental, a coisa só piora, numa espécie esquizofrenia onde uma parte da mente se desdobra para acalmar uma outra parte.
    O mestre Ramana Maharshi, dizia que não somos “dois eus” um “calmo” que tenta acalmar o outro “agitado”. Ele também dizia que não somos a mente, e sim algo além do complexo material corpo-mente e que pode observá-los sem ser afetado por eles, e através dessa observação desapegada, silenciosa e distanciada a mente silencia-se por si mesma.
    Em suma, o “descascar-se” de obstáculos que criam a ilusão de um falso centro (um “não-eu” que aparece para o carente de discernimento como seu próprio “si mesmo”) é observar-se. E como para haver o fenômeno chamado “observação” tem que ter um “observador” e um “objeto observado”, pelo simples fato de algo poder ser observado, já se revela como não sendo aquele que observa (drashtuh). Quando um gradual e natural distanciamento que surge através do simples observar se evidencia “nós como nós somos”. Um “algo” cuja natureza os Vedas dizem ser “verdade-consciência-felicidade”. Totalmente silencioso, autêntico e em Paz.
    Paz à todos.
    Swami Shivaraja
    http://www.shivarajayoga.blogspot.com

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