Pratique, Ṣaṭkarma

Shanka prakshalana, a purificação total

O shanka prakshalana é uma formidável técnica de desintoxicação e purificação, que consiste em fazer uma autolavagem completa do trato digestivo e intestinal. A técnica em si é bastante simples: consiste em beber água levemente salgada, no PH fisiológico, para que não seja absorvida pelo organismo.

Escrito por Pedro Kupfer · 8 mins de leitura >

O shanka prakshalana é uma formidável técnica de desintoxicação e purificação, que consiste em fazer uma autolavagem completa do trato digestivo e intestinal. A técnica em si é bastante simples: consiste em beber água levemente salgada, no PH fisiológico, para que não seja absorvida pelo organismo. Ela é guiada através dos aparelhos digestivo e excretor aplicando uma série de exercícios dinâmicos com repetição. À medida que o líquido for sendo eliminado se observa a expulsão daqueles resíduos e sedimentos que normalmente se acumulam nos intestinos. A água é expelida cada vez mais limpa e clara, até sair totalmente transparente. Esta lavagem deve ser feita em jejum, observando cuidadosamente as instruções aqui contidas. Dura, em média, entre 90 minutos e duas horas.

Alternar-se-á a ingestão de cada copo de água com a execução de uma série completa dos exercícios descritos a seguir, de maneira que não haja acúmulo de líquido em nenhuma parte do organismo e que este continue em movimento.

A vantagem desta técnica frente à lavagem convencional é que esta última atinge apenas a porção final do cólon, podendo até alterar os movimentos peristálticos através da pressão excessiva produzida pelo líquido sobre as paredes intestinais. A limpeza obtida mediante o shanka prakshálana vai desde a glote até o reto, tonificando os tecidos e favorecendo o peristaltismo.

O fluxo de água promove uma lavagem total e profunda dos órgãos internos. Os resultados da prática se sentirão em todos os níveis do organismo: tonificação das paredes intestinais, estímulo do peristaltismo, hálito mais puro e fresco, pele mais limpa, melhora do sono, leveza, bem-estar e melhora da disposição geral. Dada a eficiência deste método, o ideal é fazê-lo, no máximo, quatro vezes por ano, sendo a época mais propícia a mudança das estações.

O procedimento aqui descrito é o mais tradicional, porém, existe ainda outra variação desta técnica, que consiste em alternar a ingestão de água com diversas e sucessivas contrações abdominais: nauli kriya, uddiyana bandha ou agnisara dhauti. Você poderá optar posteriormente por esta variação, mas aconselhamos que para começar experimente a série clássica, verdadeira obra de arte da engenharia fisiológica do Yoga.

Cuidados iniciais

Considerando que o shanka prakshálana levará entre uma hora e meia e duas horas, aconselhamos que você reserve a ele uma manhã de domingo ou algum dia em que disponha de bastante tempo livre. O fator decisivo para o sucesso no shanka prakshálana (e não apenas nele, mas em todas as técnicas do Yoga) é a confiança no método. Tenha certeza de que esta técnica foi exaustivamente testada antes de chegar até você. Na véspera, faça uma refeição leve e equilibrada, algumas horas antes de deitar.
O momento ideal é pela manhã, em jejum total. Pessoas que tenham constipação intestinal crônica deverão tomar um laxante suave na véspera. Aconselhamos ameixas secas ou uma colher de sopa de sementes de linhaça deixadas de molho em um copo de água desde a noite anterior. Dedique o resto da jornada à meditação, leitura ou alguma atividade que não demande esforço físico. Faça Yoga, mas evite praticar ásanas.
A primeira refeição deve ser feita no mínimo 30 minutos após a lavagem e no máximo uma hora depois dela. Essa refeição deve consistir exclusivamente em um prato de arroz branco com 50 gramas de ghee (manteiga clarificada), azeite de oliva extra virgem ou manteiga normal de boa procedência. Após tanta água salgada, este prato terá um sabor celestial. Alimentos integrais (aveia, arroz ou pães integrais e fibras em geral) precisam ser evitados no primeiro dia, bem como alimentos tamásicos (ácidos, enlatados) e ainda laticínios (leite, iogurte, queijos fortes) e legumes e frutas cruas. Depois do arroz, beba infusões de ervas ou água à vontade. Agasalhe-se bem e evite expor-se ao frio.
Contra-indicação importante: pessoas com debilidade geral, úlcera no estômago, colite, câncer ou disenteria devem abster-se de fazer este exercício.

Os exercícios

Descreveremos agora a seqüência dos quatro exercícios físicos. Mesmo se você os achar maçantes ou fáceis demais, não deixe de fazê-los, pois cada um deles tem um efeito bem específico sobre uma parte do aparelho digestivo ou excretor, como você perceberá na prática. Se você não fizer assiduamente exercícios físicos, aconselhamos que repita esta série várias vezes na véspera, para evitar as dores do day after. Não queira modificar detalhes da execução, pense que isto não são os ásanas que você conhece e está acostumado a fazer. Apenas siga cuidadosamente estas instruções.

Exercício 1
Em pé, com um palmo de distância entre os pés, que ficam paralelos, os braços para cima, os dedos entrelaçados e as palmas voltadas para o teto, faça quatro flexões laterais para a esquerda, alternando-as com outras quatro flexões para a direita. Não desloque os quadris ao inclinar o tórax e faça a flexão mantendo o tronco alinhado com as pernas e os braços.
Não permaneça: apenas faça o movimento coordenado com a respiração. Ao todo, as oito flexões (quatro para cada lado) não devem levar mais do que dez segundos. Este movimento lateral age sobre o piloro, aquela válvula que controla a passagem entre o estômago e o duodeno, antes do intestino delgado. A cada flexão, uma porção de água entra no trato intestinal.

Exercício 2
Ainda em pé, faremos agora um movimento de torção do tronco. Inicie o movimento com os braços estendidos horizontalmente para frente. Gire o tronco para a esquerda, levando o braço desse lado para trás e flexionando o direito até que a mão toque a clavícula esquerda. A cabeça acompanha essa rotação, olhando para trás. Inspirando retorne e faça o mesmo movimento para a direita enquanto solta o ar. Olhe para sua mão direita, que deve ficar bem para trás, sempre na linha horizontal.

Você fará um total de oito rotações (quatro para cada lado), sempre mantendo os braços na linha dos ombros e as costas eretas. Esses oito movimentos também serão feitos em dez segundos. Estas torções levarão a água para o intestino delgado, fazendo-a circular por ele. Coordene sempre movimento e respiração. Exale ao ir para os lados e inale ao retornar. Não permaneça.

Exercício 3
Fique em decúbito frontal e coloque-se como se fosse fazer bhujangásana. Mantenha os pés separados um palmo, apóie nas pontas dos dedos e nas palmas das mãos. Os joelhos não tocam o solo e as pernas ficam elevadas. Se for necessário, contraia um pouco as nádegas. Agora você fará um giro com a cabeça e os ombros, olhando alternadamente para trás, como se quisesse ver o calcanhar do lado oposto àquele para o qual você está girando: ao olhar por cima do ombro esquerdo, tente ver o pé direito; ao olhar por cima do ombro direito, tente ver o pé esquerdo.

Sinta o alongamento produzido pela posição na região abdominal e procure perceber a passagem de água pelos intestinos. Faça quatro giros para cada lado, totalizando oito movimentos sem permanência, em quinze segundos. Não esqueça da respiração, sempre associada com o movimento. Isto fará com que a água comece a entrar no intestino grosso e circule por ele.

Exercício 4
Sente-se no chão e flexione a perna esquerda, deixando o joelho para cima, sem passar o pé para o lado de fora da perna direita, que permanecerá esticada. Agora gire o tronco, colocando o braço direito entre o tórax e a coxa esquerda. Olhe por cima do ombro para trás, inclinando um pouco o tronco e apoiando-se na mão esquerda.

Sem permanecer, inspire e torça-se para o outro lado da mesma forma. Em quinze segundos, faça quatro torções para cada lado. Comprima bem o baixo ventre contra a coxa a cada expiração. Os ombros devem estar na mesma altura e a coluna bem ereta. As torções levarão a água pelo cólon até o reto. Ao todo, esta seqüência de quatro exercícios levará perto de um minuto. Recapitulando, os exercícios ficam assim:

Instruções de execução

Prepare uma boa quantidade de água filtrada e fervida. Mesmo se for utilizar água mineral, é conveniente fervê-la antes de adicionar o sal. Considerando que você vai ingerir no mínimo quatorze copos, ou seja, três litros e meio de água, prepare um pouquinho mais, por via das dúvidas.

Salgue a água mantendo a proporção de uma colher de sobremesa para cada litro. Caso você ache a água demasiado salgada, reduza um pouco a concentração de sal. Utilize sal marinho de boa qualidade. Jamais faça este exercício com água pura, pois o seu organismo começará a absorvê-la e você transformar-se-á em um bonito barril ambulante.

Ingira um copo de água morna e salgada.

Faça a seqüência dos quatro exercícios em um minuto.

Beba outro copo e repita os exercícios.

Continue assim até ter ingerido seis copos. Se sentir que a água não está circulando, faça a série mais algumas vezes. Se ainda assim não funcionar, pode acontecer que a presença de gases nos intestinos esteja bloqueando a passagem do líquido. Nesse caso, faça uma invertida.

Após do sexto copo, faça uma visita ao toalete. Na primeira evacuação saem as fezes normais. Nas seguintes serão pastosas e depois irão ficando cada vez mais líquidas. A água deve fluir sem parar no estômago. Se você sente que não está circulando repita a série de exercícios antes de beber mais.

Evacuando a primeira vez, o ritmo do shanka prakshálana fica assim:

Um copo de água.
Uma série de exercícios.
Visita ao toalete.
Água.
Exercícios.
Toalete.

A cada copo haverá uma nova evacuação. Preste atenção à cor das fezes, que ficarão cada vez mais claras.

Dependendo dos hábitos alimentares, do seu biotipo e das características dos seus intestinos, serão necessários entre doze e dezesseis copos até que a água expelida saia tão limpa quanto a ingerida.

Utilize o bom senso: se você bebeu dez copos de água e ainda não conseguiu evacuar pela primeira vez, interrompa a ingestão de água e passe a executar apenas os exercícios, alternando-os com a execução de alguns ciclos de nauli ou rajas uddiyana bandha e a permanência em uma posição invertida sobre a cabeça ou os ombros. Após a evacuação, retome o ritmo acima descrito.

Quando começar a aparecer a água limpa, você interromperá a absorção, continuando a repetir os exercícios mais algumas vezes e alternando sempre as séries com evacuações.

Ao cessar a eliminação da água, e antes da refeição de arroz com ghee, faça um bom relaxamento.

Ghee é a manteiga clarificada, largamente utilizada na culinária indiana. Apresenta uma série de vantagens sobre as manteigas normais, como o fato de não estragar facilmente, não ferver a baixas temperaturas e ser mais saudável. A preparação do ghee é muito simples: leve ao fogo médio em banho-maria um pacote de manteiga sem sal. Quando a manteiga começar a derreter, abaixe o fogo, continue fervendo-a e retire a cada 15 minutos a espuma que se forma na superfície do líquido. Cozinhe durante 30 a 40 minutos, desligue o fogo e deixe esfriar. Quando tiver esfriado, mas ainda em estado líquido, coloque o ghee em um recipiente adequado depois de eliminar cuidadosamente o sedimento depositado no fundo da panela. É conveniente deixar o ghee preparado desde a véspera. Bom apetite!

Aproveite que você ficou limpo para fazer (e continuar!) uma alimentação mais saudável, energética e sáttwica. Alimentação sáttwica é aquela gostosa, leve e bem combinada, privilegiando produtos frescos e evitando enlatados ou fermentados. Pense que passarão alguns meses antes do próximo shanka prakshálana e que você precisará manter a maquinaria limpa até a próxima mudança de estação.


Extraído do livro Yoga Prático.

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11 respostas para “Shanka prakshalana, a purificação total”

  1. Boa noite!
    Gostaria de saber se pode ser utilizado o sal rosa do Hymalaia em vez do sal marinho.
    Grato!
    +++++++++++
    Não precisa gastar esse sal, que é bem mais caro, Guilherme. Sal marinho normal é o quanto basta.
    Boa prática!

  2. Adorei, tive resultados positivos e recomendo a todos que estão na busca de uma vida saudável.

  3. Fiz o procedimento, mas vomitei a água quase toda e fui ao banheiro apenas uma vez.

    1. Alguns vomitam mesmo segundo Pattabhi Jois se não sair por baixo sai por cima

  4. Bom dia, Uma das funções da adição do sal é fazer com que a água não seja absorvida pela passagem do intestino. Poderia então uma pessoas que tem pressão alta usar desta técnica para limpeza do intestino? Existe também alguma restrição em relação aos rins?
    ======
    Em caso de hipertensão pode-se reduzir a quantidade de sal para a metade, Marcelo.
    Namaste!

  5. Pedro,
    eu tentei fazer o procedimento para limpeza do intestino, mas não funcionou. Fiz tudo como descrito, fiquei até com a região da cintura dolorida nos dias seguintes por causa dos exercícios. Consegui evacuar apenas uma vez.
     
    Tenho o intestino preso desde que me entendo por gente. Hoje estou com 43 anos. Passo por alguns períodos melhores e em outros tenho que usar medicamento. Atualmente estou bastante preocupada com isso, pois sei o quanto é prejudicial para saúde um intestino que não funciona bem.
    Ouvi falar do sal amargo. Vc acha que poderia tentar o procedimento novamente utilizando esse sal ao invés do sal marinho ? Eu tenho refletido muito a respeito porque sei que essa questão provavelmente deve estar ligada a sentimentos e emoções do passado. Estou tentando trabalhar isso para que eu consiga liberar tudo que me prende e deixar o novo entrar.
    Abraços.
    ======
    Laís, 
    Namaste. Não recomendo que você mude o tipo de sal. Não acho que tenha sido essa a causa da falta de sucesso nesta prática, pelo que você diz aqui.

    Paz e luz para você.

     

  6. Achei muito interessante. Mas fiquei com dúvidas. O sal não vai fazer com que a pressão arterial aumente? Um idoso de 75 anos que está c/ mega colon grau V com o intestino retendo muitas fezes, pode fazer? O sal não fica retido? Gostaria muito de receber uma resposta. Obrigada.
    ======
    Olá, Angela, no caso de uma pessoa com as condições de saúde que você descreve, é melhor evitar este exercício. Namaste!

  7. Não sou praticante de yoga mas aprende agui fazer esse metodo e estou muito cheio de saúde,pois indico a tomar 50ml de agua ferfida e morna com sal ,ficando a agua um pouquinho salgada,tomando por manutenção da saúde do estomago e intestino acabando com gases,inchaços,mal estar dor de cabeça,mas cuidado com o sal nos rins,pressão alta,agua ferfida e morna ao tomar com agua,pode tomar em jejum,e logo apos ter ingerido qualguer alimento,pesado ou mal combinado ao coer,SERGIO de JALES sp.

  8. Harih Om, queridos… como disse o Pedro quando perguntei sobre essa purificação, realmente “basta ter fé”, funciona e muito, só tenho uma observação, caso vc seja uma pessoa q tenha a pele seca, constipação intestinal, a mente muito dispersa (biotipo Vata, na medicina ayurvedica), sugiro que tome um cuidado especial com o preparo e o pós, pq como esse procedimento seca muito, deixando frio o intestino, com certeza agravando seu Vata, e recomendado uma dose de lubrificação a mais, tanto antes (se preparando) fazendo auto-massagens com óleos mornos (gergilim) até mesmo ingerindo uma quantidade de ghee ou azeite a mais nas refeiçoes, como depois dando cuidado especial a sua “vatissi”, valeu queridos…
    por sincronia, encontrei muitas pessoas no ultimo mês me perguntando sobre esse assunto… tenho indicado sim, assino com fé!
    fiquem na luz com força, amor, consciência e fé.

    1. Olá Alecrim e Pedro.
      Gosto muito desta prática que costumo fazer 4 vezes ao ano na mudança das estações. Recomendo muito essa limpeza.
      Agradeço a você, Alecrim, pela lembrança sobre a vattice. Nesta última vez, senti realmente os efeitos da secura, mas resolvi com oleação após e o arroz com azeite.
      Grata a todos.
      Boas novas e yoga na prática com coração.
      Namaste

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