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Śiva Saṁhitā, a Coleção de Śiva (Ensinamentos do Yoga)

O nome Shiva Samhita significa em sânscrito 'Coleção [de Ensinamentos] de Shiva'. É um texto em 540 estrofes sobre Hatha Yoga datado do século XVII desta era

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Śiva Saṁhitā

O nome Śiva Saṁhitā significa em sânscrito “Coleção [de Ensinamentos] de Śiva”. É um texto em 540 estrofes sobre Haṭha Yoga datado do século XIII desta era. Essas 540 estrofes, compostas na métrica chamada anuṣṭubh, estão divididas em cinco capítulos, chamados paṭalas.

A obra está composta na forma de um diálogo entre o deus Śiva e sua esposa Pārvatī, no qual o deus-yogin ensina as práticas do Haṭha para sua consorte.

Esse detalhe demonstra que, contrariamente à crença em voga em alguns círculos de Yoga da atualidade, esta prática era tanto para homens quanto para mulheres naquela época, assim como nas anteriores.

Esta obra tem aproximadamente cerca de 700 anos de idade, mas resgata práticas e ensinamentos muito anteriores a ele.

Assim como a Gheraṇḍa Saṁhitā, cita copiosamente o mais antigo manual de Haṭha que chegou até a atualidade, a Haṭhayoga Pradīpikā, bem como algumas das mais antigas Upaniṣads e um importante texto de Vedānta atribuído a Ādi Śaṅkarācārya, chamado Ātmabodha.

O primeiro capítulo apresenta o ensinamento sobre o qual se apoia este sistema, claramente baseado no Advaita Vedānta, a maior e mais influente escola de vida da Índia.

O autor nos exorta a perceber a unidade que permeia a criação, à qual todos nós estamos inextrincavelmente ligados, bem como a percebermos e compreendermos a natureza da realidade, oculta sob o véu de māyā, a superimposição do aparente sobre o essencial. 

O segundo paṭala versa sobre a estrutura do corpo sutil. O terceiro capítulo contém as técnicas de āsana e prāṇāyāma.

O quarto, ensina as práticas de mudrā, os selos energéticos, e inclui uma detalhada e insólita técnica de reabsorção seminal prescrita para evitar a perda do sêmen durante a cópula, chamada vajrolī mudrā, o gesto do raio.

O quinto e último capítulo, que é o mais extenso, versa sobre os cakras, centros de energia no corpo sutil, bem como sobre quatro formas de Yoga: Mantra, Haṭha, Lāyā, e Rājayoga, e suas diferentes práticas.

Haṭha e Rājayoga como caminhos complementares

Chegando no final do último capítulo, o autor retoma uma ideia já presente na Haṭhayoga Pradīpikā: a de que Haṭha e Rājayoga são interdependentes e complementares:

“O Haṭhayoga não pode ser obtido sem o Rājayoga, nem o Rājayoga pode ser obtido sem o Haṭhayoga. Portanto, o yogin deverá, primeiramente, aprender o Haṭhayoga das instruções de seu sábio mestre”. Śiva Saṁhitā, V:182.

Compare o leitor a frase acima com a afirmação inicial da Haṭhayoga Pradīpikā: (I:1) “Saúdo o Primevo Senhor, Śiva Ādinātha, que ensinou o conhecimento do Haṭhayoga a sua esposa Pārvatī. Este conhecimento, como uma escada, conduz ao elevado Rājayoga”.

Tipos de praticantes de Yoga (sādhakas)

“O Yoga é de quatro tipos: primeiro, vêm o Mantrayoga; em segundo lugar, o Haṭhayoga, em terceiro, o Lāyā Yoga e, em quarto lugar, o Rājayoga, que elimina as dualidades”. Śiva Saṁhitā, V:9.

O autor afirma que nem todas as formas de Yoga são adequadas para todas as pessoas: “Os praticantes são de quatro tipos: [aqueles cuja motivação é] suave, moderada, ardente e muito ardente. [Este último tipo,] o melhor, pode cruzar o oceano do mundo [das aparências]”. Śiva Saṁhitā, V:10.

A continuação, descreve a motivação e as características de cada um desses tipos de praticante, indicando, em função dessas características, o tipo de prática mais adequado para cada um: 

“Pessoas de mente estreita, distraídas, adoentadas, que questionam os ensinamentos do mestre, homens avarentos, que agem de modo incorreto, glutões, excessivamente apegados ao cônjuge, tímidos, doentes, não independentes, carentes e cruéis, aqueles de mau caráter e os fracos, todos esses são considerados praticantes [de motivação] fraca.

“Com grande esforço, tais pessoas alcançam o sucesso na prática em doze anos. Estes devem ser considerados aptos para a prática de Mantrayoga”. Śiva Saṁhitā, V:11.

“Pessoas de mente aberta, compassivas, amantes da virtude, eloquentes. Aqueles que sempre evitam os extremos, são os praticantes de motivação média. Estes, devem ser iniciados pelo mestre no Haṭhayoga”. Śiva Saṁhitā, V:13.

“Pessoas de mente firme, versadas no Haṭhayoga, independentes, cheias de energia, magnânimas, cheias de simpatia, que sabem perdoar, verdadeiras, corajosas, cheias de confiança [no mestre e no ensinamento], adoradoras dos pés de lótus de seus Gurus, sempre comprometidas na prática de Yoga, tais pessoas são consideradas praticantes ardentes (ādhimātra). Eles obtêm sucesso na prática de Yoga em seis anos, e devem ser iniciados no Lāyāyoga e seus ramos”. Śiva Saṁhitā, V:14.

“Aqueles que tiverem o maior caudal de energia, com iniciativa, comprometidos, heróicos, conhecedores das escrituras, perseverantes, livres dos efeitos das emoções cegas, que não se deixam confundir, cheios de disposição, moderados em sua dieta, que dominam seus sentidos, destemidos, limpos, hábeis, caridosos, bem dispostos para ajudar o próximo, competentes, firmes, talentosos, que cultivam o contentamento, que sabem perdoar, que são de boa índole, devotos, que sabem manter seus objetivos em segredo, eloquentes, pacíficos, que têm confiança nas escrituras e adoram Īśvara e o guru, que têm aversão a desperdiçar seu tempo e são livres de doenças, que conhecem os deveres do ādhimātra e praticam todos os Yogas.

“Sem dúvida, tais praticantes obtêm o êxito na prática em três anos. [Estes são considerados os mais ardentes, e] estão capacitados para serem iniciados em todas as formas de Yoga, sem dúvida”. Śiva Saṁhitā, V:15. 

Śiva Saṁhitā

Para quem é a prática de Haṭhayoga?

O leitor pode considerar as exigências e qualidades que se esperam do praticante ideal um tanto exageradas, porém, o fato é que a maior parte das condições aqui listadas são essenciais para ter-se sucesso na prática.

Mesmo se para o praticante da atualidade for difícil de aceitar isto, desde o tempo das Upaniṣads, o caminho do Yoga sempre foi descrito como um caminho estreito e difícil.

Aliás, desde o início dos tempos, o Yoga foi considerado um caminho para muito poucos, como a própria Śiva Saṁhitā aponta numa outra passagem:

“Este Yogaśāstra aqui exposto é uma doutrina muito secreta, que deverá somente ser revelada nestes três mundos ao devoto de atitude elevada”. Śiva Saṁhitā, I:19.

Pela afirmação acima, podemos deduzir que o ensinamento aqui contido não se destina a qualquer um, nem é para iniciantes. Pelo menos, segundo os autores destes textos antigos.

Se o praticante não estiver preparado para cultivar as virtudes anteriormente listadas, que são condições sine que non para se fazer merecedor e receber o ensinamento do Yoga, este ficará sempre fora do alcance dele.

Condições para o sucesso

“O yogin deve renunciar ao seguinte: 1. alimentos ácidos, 2. adstringentes, 3. substâncias pungentes, 4. excesso de sal, 5. excesso de mostarda, e 6. alimentos amargos. 7. andar demasiado, 8. tomar banho antes do amanhecer, e 9. alimentar-se com frituras. Ele deve evitar: 10. roubar, 11. matar [até mesmo animais], 12. cultivar inimizades, 13. o orgulho, 14. a ambiguidade e 15. a desonestidade. Igualmente, deve evitar 16. jejuar, 17. mentir, 18. pensamentos alheios à libertação dos condicionamentos (mokṣa), 19. crueldade em relação aos animais, 20. dissipar a energia sexual, 21. ficar demasiado perto do fogo, 22. falar demais, sem medir as consequências das próprias palavras e, finalmente, 23. comer demais”. Śiva Saṁhitā, III:33.

Obstáculos para a prática, antarāyāḥ

Reza a Śiva Saṁhitā: “De fato, há muitos obstáculos, quase intransponíveis, na prática do Yoga. No entanto, o yogin deve persistir no sādhana correndo os riscos, até mesmo quando sua vida estiver em perigo [lit., quando “a vida estiver [escapando] pela garganta” (prāṇaiḥ kaṇṭhagatair api)]”. III:47.

A palavra obstáculo, em sânscrito, antarāyāḥ, significa literalmente “interpor-se” ou “ficar no meio”. Os obstáculos podem aparecer sob roupagens muito diferentes, tanto físicas quando psicológicas.

No entanto, a maior parte dos obstáculos pertence ao último tipo. Patañjali menciona nove obstáculos no Yogasūtra: “Doença, inércia, dúvida, negligência, preguiça, volubilidade, equivocação, inconstância e instabilidade são os obstáculos”. I:30.

Estes obstáculos são verdadeiras usinas de conteúdos mentais erráticos, que impedem o progresso na prática. Não obstante, eles fazem parte do caminho, e devem ser aceitos, em primeiro lugar, para poderem ser transcendidos.

Essas diferentes listas de obstáculos que aparecem nos śāstras têm como objetivo nos alertar sobre os possíveis desvios e bloqueios que possam surgir na caminhada, tranquilizando-nos ao mesmo tempo ao nos ensinar que os obstáculos são naturais e fazem parte da jornada e ainda, encorajando-os para superá-los.

De alguma maneira, os obstáculos são mecanismos naturais de auto-defesa e auto-preservação, colocados em movimento por nosso subconsciente para nos proteger dos eventuais desequilíbrios que a prática possa produzir se não for feita corretamente.

No entanto, essas defesas naturais se tornam de fato obstáculos intransponíveis quando nos fazem abandonar a prática (podem surgir pensamentos como “isto não é para mim”, ou “não nasci para fazer esta prática”), ou ainda quando a presença do obstáculo passa a ser ignorada (“acho melhor evitar a meditação, pois não tenho paciência”). 

A questão, chegando neste ponto, é que cada um de nós deve resolver o que significa exatamente chegar ao ponto em que “a vida escapa pela garganta”.

Cada um deve perceber onde termina o esforço e começa o exagero. É sempre desejável levar a prática adiante, superando os obstáculos que surgirem ao longo da caminhada. 

Não obstante, precisamos usar o bom-senso e pedirmos ajuda para percebermos honestamente se a prática que estamos fazendo é a mais adequada para nós mesmos, se é a prática que está nos fazendo bem, se nos ajuda e nos aproxima do objetivo final de todo Yoga, que é a libertação dos condicionamentos e o conhecimento da verdade sobre nosso próprio ser. Eis aí que o papel e a presença de um mestre tornam-se essenciais.

O papel do mestre no Haṭha

O mestre sempre foi fundamental na caminhada do autoconhecimento. Para não se perder nessa caminhada, é importante ter como referência a imagem de um mentor que nos ajude e oriente na busca. Algumas pessoas têm dificuldades em aceitar a ideia de ter um mestre. Porém, se tivemos mestres durante os estudos, porque não tê-los na busca interior? 

Vejamos o que diz a Saṁhitā sobre o papel do mestre: “Apenas o conhecimento ensinado por um guru, através de seus lábios, é poderoso e eficiente. De outro modo, o conhecimento torna-se infrutífero, fraco e doloroso”. Śiva Saṁhitā, III:11. 

“Aquele que se devota a qualquer tipo de conhecimento, servindo seu guru com toda a atenção, prontamente obtém o benefício desse conhecimento”. Śiva Saṁhitā, III:12. 

“Não há a menor dúvida de que o guru é pai. O guru é mãe, e o guru é até mesmo Īśvara. Portanto, ele deve ser assim considerado e servido, em pensamento, palavra e ação”. Śiva Saṁhitā, III:13. 

Essa passagem nos lembra o guruḥ mantra: Gururbrahmā gururviṣṇu gururdevo maheśvara guruḥ sākṣatparabrahman tasmai śrī gurave namaḥ, cuja tradução é a seguinte: “O guru é Brahmā. O guru é Viṣṇu. O guru é Śiva. O guru é de fato Parabrahman. Meu guru, aceite esta saudação”.

“Pela graça do guru, tudo o que for bom para o próprio Ser é obtido. Portanto, o guru deve ser servido diariamente. De outro modo, nada será auspicioso”. Śiva Saṁhitā, III:14. 

Portanto, é preciso termos um mestre sábio que nos ensine, e que funcione como um espelho no qual possamos nos observar e aprender. Esse mestre é quem irá nos iniciar na disciplina yogika mais adequada para nós mesmos.

Você não deve apenas praticar o que lhe der na telha. Aprender a ouvir o que um mestre de verdade tem para nos dizer irá fazer toda a diferença na realização dos nossos objetivos.

Você tem elementos suficientes para compreender que nem todos professores de Yoga que cruzarem seu caminho estão capacitados para lhe ensinar o que você precisa aprender.

Considerando a filosofia pegue-e-pague da sociedade de consumo, pode nos parecer fácil achar um mestre. Se você estiver preparado, seu mestre irá achá-lo. Você não precisa ir para a Índia para procurá-lo.

Isto acontece porque, numa altura do caminho, o estudante acaba por entrar em sintonia sutil com quem pode ensinar o que ele está precisando aprender. 

Śiva SaṁhitāCapítulo I — Prathamaḥ Paṭalaḥ

A Existência é Una

Somente o Conhecimento (Jñāna) é eterno. Ele não tem início nem fim. Não existe nada fora ele. A aparente diversidade do mundo é resultante da limitação dos sentidos. Quando esta limitação desaparece, apenas o Conhecimento, e somente ele, resplandece. 1.

Alguns enaltecem a verdade, outros, a purificação e o ascetismo. Alguns enaltecem o perdão, outros a justiça e a sinceridade. 4.

Alguns pregam o altruísmo e outros oferecem sacrifícios. Alguns pregam a ação, outros dizem que o desapego é o melhor [caminho]. 5.

Alguns sábios pregam sobre os deveres do chefe de família. Outros sustentam que o agnihotra é a prática mais elevada. 6.

Alguns falam do Mantrayoga, outros visitam lugares sagrados. Diversos são os caminhos que se oferecem para a emancipação. 7.

Agindo desta forma no mundo, até mesmo aqueles que conhecem a diferença entre as ações corretas e as incorretas, embora livres do erro, permanecem sujeitos à confusão. 8. 

As pessoas que seguem essas doutrinas, havendo realizado ações corretas e equivocadas, vagueiam constantemente nos mundos, no ciclo de nascimentos e morte, condicionadas por suas duras necessidades. 9.

Outros, mais sábios que os demais, devotadamente dedicados à investigação da verdade, declaram que as individualidades, jīvātmas, são muitas, e todas eternas e ilimitadas. 10. 

Outros dizem: “Somente existe aquilo que é percebido pelos sentidos. Nada existe além deles. Onde estão o céu ou o inferno?”. Essa é sua firme crença. 11.

Outros acreditam que o mundo é um processo fluido de consciência, sem realidade material. Alguns enaltecem o vazio, considerando-o o princípio maior. Outros acreditam na existência de duas essências separadas: o Ser e a Natureza (Puruṣa e Prakṛti). 12.

Este Yogaśāstra aqui exposto é uma doutrina muito secreta, que deverá somente ser revelada nestes três mundos ao devoto de atitude elevada. 19.

Existem dois caminhos [nos Vedas]: o Ritualismo e o Conhecimento (karmakaṇḍa e jñānakaṇḍa). Cada um deles, por sua vez, está dividido em duas partes. 20.

O caminho do ritualismo é duplo, e consiste de prescrições e proscrições. 21.

Quando atos não recomendados forem realizados, certamente irão trazer resultados indesejáveis. Quando atos meritórios forem realizados, eles trarão efeitos benéficos. 22.

Os frutos das ações são de dois tipos: desejáveis ou indesejáveis. Os desejáveis podem ser de vários tipos. Os indesejáveis são igualmente diversos. 24.

As ações corretas são de fato celestiais. As ações errôneas conduzem ao sofrimento. A criação é a consequência natural do karma, e de mais nada. 25.

As criaturas deleitam-se nos prazeres celestiais [advindos das ações meritórias] ou sofrem com [os resultados das] suas ações não meritórias. 26.

Das ações errôneas resulta o sofrimento. Das ações meritórias, a felicidade surge. Por amor à felicidade, o homem busca sempre realizar ações meritórias. 27.

Quando se manifesta o sofrimento resultante das ações errôneas, a consequência certa é mais renascimentos. Quando os frutos das ações corretas for esgotado, o resultado, certamente, será o mesmo. 28.

Até mesmo nos mundos celestiais existe a experiência do sofrimento, ao se perceber o desfrute dos demais [e se comparar com eles]. Certamente, não existe dúvida sobre o fato de que o Universo inteiro está permeado pelo sofrimento. 29.

Aqueles que estudaram o karma, o dividiram em duas partes: ações meritórias e ações errôneas. Estas são as fontes reais de escravidão dos jīvātmas, cada um agindo em seu devido momento. 30.

Aqueles que tiverem se livrado do desejo pelo fruto das suas ações nesta encarnação ou na seguinte, devem renunciar igualmente a todas as ações que tiverem sido realizadas tendo como objetivo seus eventuais frutos. Da mesma maneira, havendo descartado o apego às ações cotidianas e às ocasionais (nitya e naimittika), devem engajar-se na prática do Yoga. 31.

O yogin sábio, havendo realizado a verdade, deve renunciar [ao fruto dos karmas]. Havendo transcendido o mérito e o demérito, concentra-se no Conhecimento. 32.

Afirmações védicas como “o Ser deve ser conhecido”, “Palavras sobre ele devem ser ouvidas” e outras, são as reais salvadoras, doadoras de Conhecimento real. Estas afirmações vaidikas devem ser estudadas com grande atenção. 33.

Eu sou a Inteligência, que propulsiona as ações no caminho do mérito ou no caminho do demérito. Todo este Universo, o que se move e o que permanece imóvel, deriva de Mim. Toda a criação é preservada por Mim. Toda a criação é absorvida em Mim no momento da dissolução final, pois somente o Ser existe, e Eu sou esse Ser. Não há nada que exista separado do Ser. 34.

Podem ser observados muitos reflexos do sol em diversos recipientes de água. Os indivíduos, como os recipientes, são inúmeros, embora o Ser, como o sol, seja um só. 35.

Durante o sonho, o indivíduo cria diversos objetos por sua vontade, que desaparecem quando ele acorda. Da mesma forma acontece com este Universo. 36. 

Assim como, através de Māyā, uma corda aparenta ser uma serpente ou a madrepérola parece ser prata, similarmente, todo este Universo está contido dentro do Ser. 37.

Quando o Conhecimento verdadeiro sobre a corda aparece, a noção errônea dela como sendo uma serpente desaparece. Da mesma forma, ao surgir o Conhecimento do Ser, a ideia do Universo baseada apenas na percepção de Māyā, desaparece. 38.

Quando o Conhecimento sobre a madrepérola é obtido, a visão errônea dela como sendo prata, desaparece. Da mesma forma, através do Conhecimento do Ser, o mundo revela-se apenas como manifestação de Māyā. 39.

Assim como quando um homem passa em suas pálpebras o colírio preparado com a gordura das rãs, um bambu aparenta ser uma serpente, da mesma maneira, o mundo aparece como uma entidade separada do Ser, sob o pigmento ilusório do hábito e da imaginação. 40.

Assim como, através do Conhecimento da corda, a serpente revela-se como uma ilusão, similarmente, através do Conhecimento do Ser, o mundo revela-se [igualmente como algo que depende da presença dele]. Assim como, para alguém com icterícia, a cor branca parece ser amarela, similarmente, através da doença chamada Ignorância, este mundo aparenta ser uma entidade separada do Ser. Esse é um erro muito difícil de ser removido. 41.

Assim como quando a icterícia é curada, o paciente percebe a cor branca do jeito que ela é, da mesma forma, quando a Ignorância ilusória é destruída, a natureza real do Ser torna-se manifesta. 42.

Assim como uma corda nunca pôde tornar-se uma serpente no passado, não pode se transformar no presente nem poderá se tornar serpente no futuro, o Ser, que está além dos guṇas nunca se transforma no Universo [pois já é o Universo]. 43.

Como uma bolha no mar, surgida do vento, o mundo transitório surge do Ser. 45.

A Unidade existe sempre. A diversidade não: há um momento em que ela cessa. A dualidade e as demais percepções do mesmo tipo surgem somente de māyā, [a manifestação que se sobrepõe ao Ser]. 46.

Tudo o que foi, o que é ou o que será, com ou sem forma, em todo este Universo está o Ser. 47.

A Ignorância é um produto da equivocação. Ela nasce de mithyā, e sua própria essência é insubstancial [se vista desde a perspectiva do Ser]. Como este mundo pode ser considerado real, partindo-se dessa premissa? 48.

Todo este Universo, o que se move e o que permanece imóvel, surgiu da Inteligência. Renunciando a qualquer outra coisa, refugie-se nela. 49.

Assim como o espaço permeia um jarro por dentro e por fora, similarmente, aquém e além deste Universo sempre mutante, existe o Ser. 50.

Assim como o espaço, permeando os outro quatro estados aparentes da matéria, não se “mistura” com eles, da mesma maneira o Ser não se “mistura” com o sempre mutante Universo. 51.

Desde os devas até o mundo material, tudo é manifestação do Ser. Somente existe saccidānanda, ilimitado e ímpar. 52. 

Não sendo iluminado por nenhum outro agente, ele é autoefulgente. Por causa dessa auto-efulgência, a natureza verdadeira do Ser é a luz. 53.

Não estando o Ser limitado por tempo nem espaço, ele é infinito, ilimitado e pleno. 54.

O Ser não é como este mundo, composto por cinco estados aparentes da matéria e sujeito à destruição. Ele é eterno; nunca será destruído. 55.

Não existe outra substância além dele. Fora ele, o resto é aparência. Ele de fato é a Verdadeira Existência. 56.

Neste mundo, criac de Māyāśakti, a Ignorância, a destruição do sofrimento implica na conquista da plenitude. Através do Conhecimento, surge a proteção contra todo tipo de sofrimento. Da mesma maneira, o Ser é plena felicidade, ānanda. 57.

Através do Conhecimento é destruída a Ignorância, causa material do Universo. O Ser é Conhecimento. Esse Conhecimento, consequentemente, é eterno. 58.

No tempo, este Universo múltiplo tem sua origem. Igualmente, existe Uno que é realmente o Ser, eterno através do tempo. Ele é Uno, e inconcebível [pela mente, já que não é um conceito ou uma ideia e portanto não cabe no pensar]. 59.

Todas as substâncias irão desintegrar-se no tempo. Porém, o Ser, que não pode ser conhecido pela palavra, sempre existirá. 60.

Havendo renunciado a todo falso desejo e havendo abandonado as correntes mundanas, o yogin percebe o Ser em si mesmo. 62.

Havendo percebido a si mesmo como Ser, como aquele que traz felicidade, [o yogin] deixa de lado o mundo [das aparências] e desfruta a plenitude inefável da mais profunda felicidade. 63. 

Capítulo II — Dvitīyaḥ patalaḥ

Neste corpo, a montanha Meru, [a espinha dorsal] está rodeada por sete ilhas; há rios, mares, campos e senhores dos campos. 1.

Todos os seres que existem no mundo também se encontram no corpo. 2.

ṛṣis e sábios, e todas as estrelas e os planetas também. Há peregrinações sagradas, templos e deidades nos templos. 3.

O sol e a lua, agentes da criação e da destruição, se movem nele. Espaço, ar, fogo, água e terra também estão aqui. 4.

Todos os seres que existem no mundo também se encontram no corpo. Rodeando o monte Meru, realizam suas tarefas. Aquele que sabe disto é um yogin, sem dúvida. 5.

Neste corpo, chamado Brahmāṇḍa (microcosmos), reside a lua de raios de néctar, em seu devido lugar, no alto da coluna vertebral, com oito pétalas (kalas) [formando um semi-círculo]. 6.

[Esse cakra, chamado soma] tem a face voltada para baixo e emite o néctar da imortalidade (amṛta) noite e dia. O néctar celestial sub-divide-se em duas partes sutis. 7.

Se o praticante desejar atravessar o oceano do mundo [condicionado], deve realizar todos os deveres referentes à etapa de vida que estiver atravessando, renunciando aos frutos de seus esforços. II:51.

7 respostas para “Śiva Saṁhitā, a Coleção de Śiva (Ensinamentos do Yoga)”

  1. Obrigado pela brilhante tradução e pela constante divisão de conhecimento. Namastê.

  2. Grata por testemunharem minha impulsividade…

    Na seqüência de minha pergunta, aqui em minhas pesquisas, veio a peça que faltava: Jivatman, que é Paramatman filtrado pelas lentes da mente.

    “Paramatman é jivatman destituído de suas vestimentas”
    (David Frawley)

    Atman é a eterna testemunha. Jiva, a alma individual que, despertada em sua luz de fogo, descobre sua unidade com o Paramatman (Supremo) = Yoga.

    Grata.

  3. Olá! Gostaria de saber se Jiva é o mesmo que Atman. Jiva é a conciência testemunha. Ou seja: acho que a conciência que desfruta é a mesma que observa, certo?

    Antes queria observar se alguém pode responder minha dúvida ou se vocês apenas divulgam…

    Grata,

    Pati.

  4. Namaste!

    Agradeço à equipe deste site por mantê-lo no ar. Gostaria de obter os outros capítulos da Shiva Samhita ainda não publicados. Obtive os dois primeiros capítulos. Parece-me que ainda me faltam três. Acaso Pedro traduzira o restante ou terei de baixar em inglês de outro site? Ou vocês têm a dica de onde poderia obtê-lo em português? Fico perguntando, mas não sei nem se vocês podem me responder!

    Muito grata, de qualquer maneira, e gostaria de frisar que, apesar de adorar este site, gostava mais quando os textos se apresentavam na lateral da página.

    Grata,

    Patrícia.

  5. Agradeço ao Pedro pela tradução e a toda equipe por doarem estas dádivas do conhecimento através deste site. Que Shiva derrame sobre mim méritos para ter acesso ao capítulo 2, 3 (quantos são?)…

    Obrigada,
    Patrícia.

  6. Sou praticante de Yoga, e simplesmente gostaria de agradecer à pessoa ou às pessoas que elaboraram e mantêm este site no ar. Realmente é impressionante a quantidade de informações que obtive.

    Obrigado.

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