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Yoga Sutra, 1.40-51: Após Estabilizar a Mente

A mente fica como um cristal transparente: Uma vez que a mente esteja razoavelmente clara e estabilizada (1.33-1.39), o processo profundo do Yoga pode ter início. Eventualmente, a mente fica como um cristal transparente (1.41), sendo uma ferramenta purificada para as explorações mais refinadas dos níveis denso e sutil. Tal mente pode explorar toda uma gama de objetos, desde os menores até os maiores (1.40).

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A mente fica como um cristal transparente: Uma vez que a mente esteja razoavelmente clara e estabilizada (1.33-1.39), o processo profundo do Yoga pode ter início. Eventualmente, a mente fica como um cristal transparente (1.41), sendo uma ferramenta purificada para as explorações mais refinadas dos níveis denso e sutil. Tal mente pode explorar toda uma gama de objetos, desde os menores até os maiores (1.40).

Quatro níveis de meditação em um objeto: Existem somente quatro níveis de meditação sobre um objeto. Estes níveis são sistematicamente experimentados ao longo do caminho para o nível da matéria não manifesta (1.45).

1. Com pensamentos densos, savitarka samapattih (1.42)

2. Sem pensamentos densos, nivitarka samapattih (1.43)

3. Com pensamentos sutis, savichara samapattih (1.44)

4. Sem pensamentos sutis, nirvichara samapattih (1.44)

Frutos das meditações: Destes quatro níveis de meditações em objetos densos e sutis advém a pureza e a luminosidade interior (1.47), a sabedoria elevada (1.48), a redução das impressões que são a força motriz do karma (1.50), e a experiência do samadhi sem objeto (1.51).

Práticas companheiras: Agregada a estas práticas está toda uma variedade de práticas de meditação, descritas nos capítulos 2, 3 e 4 do Yoga Sutras, dentre estas a redução das cores densas (2.1-2.9), lidando com pensamentos sutis (2.10-2.11), os oito membros do Yoga (2.26-2.29) e as explorações sutis através do samyama (3.4-3.6).

1.40 Quando, através destas práticas (descritas nos sutras 1.33-1.39), a mente desenvolve a capacidade de ficar estável tanto nos menores objetos quanto nos maiores objetos, ela está de fato sob controle.

(parma-anu parama-mahattva antah asya vashikarah)

  • parma-anu= extremamente pequeno (parma= o mais; anu= diminuto, menor)
  • parama-mahattva= máxima magnitude (parama= máxima, definitiva; mahattva = infinidade, ampla magnitude)
  • antah= fim, extendendo
  • asya= deste, dele ou dela, aquele que possui
  • vashikarah= controle, poder

A mente sob controle se torna uma ferramenta: Quando a mente está sob controle (vashikara) pode ser usada como um instrumento para explorar os componentes mais sutis do campo da mente, como os samskaras, que são as impressões profundas por trás do karma (ações). Este controle e habilidade para focar no menor ou no maior não é o objetivo. Não é uma questão de aparecer um poder que inerentemente signifique que alcançamos o objetivo final. É apenas uma evidência clara do treinamento do instrumento que é a mente. Então a mente é usada como uma ferramenta de modo um nunca antes imaginado.

Vyasa: “Ao entrar no sutil a mente adquire a posição de estabilidade sobre o menor do menor, abaixo do átomo. Entrando no grande, a posição de estabilidade mental alcança o maior dos maiores. Este grande poder consiste em não sermos interrompidos enquanto percorremos um destes caminhos. Devido a esta prática habitual, a mente do Yogi, cheia deste poder, não precisará mais de adereços.”

1.41 Quando as modificações da mente se enfraqueceram, a mente fica como um cristal transparente, e assim pode facilmente captar as qualidades de qualquer objeto observado, seja este objeto o observador, os meios para a observação, ou um objeto observado, em um processo de absorção chamado samapattih.

(kshinna-vritti abhijatasya iva maneh grahitri grahana grahyeshu tat-stha tat-anjanata samapattih)

  • kshinna-vritti= com as modificações da mente enfraquecidas (kshinna= enfraquecido; vritti= modificações da mente)
  • abhijatasya= transparente, purificado
  • iva= como
  • maneh= de um cristal
  • grahitri= o conhecedor, entendedor, observador
  • grahana= processo de conhecer ou entender, instrumento de conhecimento
  • grahyeshu= o conhecível, conhecimento, objetos apreendidos
  • tat-stha= permanecer nisto, sendo estável neles, no qual permanece ou descansa
  • tat-anjanata= assumir a cor de, fundir com, parecer assumir a forma do objeto
  • samapattih= imersão, coincidência, absorção completa, transmutar para algo parecido, equilíbrio total

O que é samapattih ou imersão?: No sutra 1.17 são mencionadas quatro categorias de meditação (savitarka, savichara, sananda e sasmita). Quanto a mente se torna concentrada e padrões de pensamentos exteriores começam a diminuir (como resultado da prática persistente da meditação corretamente direcionada), então, além de concentrada, a mente pode ficar totalmente imergida no objeto de meditação. Isto é um tipo de expansão interior da atenção sobre o objeto de meditação e esta imersão é chamada de samapattih.

Uma mente igual a um cristal é uma ferramenta: Semelhante ao sutra anterior, isto também é um sinal de uma mente treinada. Quando a mente é semelhante a um cristal, ela não tem cores próprias, o que significa que quando colocamos nossa atenção sobre algum objeto interior, como um samskara ou padrão profundo de hábito, o campo de nossa mente está apto a ser preenchido com a atenção naquele objeto. Ter uma mente como um cristal não é um fim em si mesmo, mas permite que a mente se torne uma ferramenta ainda mais sutil.

A mente se torna clara, como um cristal transparente, e assim o que for testemunhado será visto com clareza, como é. Desta forma, as impressões profundas ou samskaras, que são a força motriz do karma, podem ser encontradas, purificadas e transcendidas, permitindo que a consciência pura, purusha, descanse em sua verdadeira natureza (1.3).

Quando colocamos o foco de tal mente sobre um objeto, advém o insight (conhecimento intuitivo repentino), a percepção de sua verdadeira natureza como sendo apenas outra manifestação de prakriti, a matéria primordial. Isto abre as portas para o verdadeiro não-apego (1.15-1.16) para com aquele objeto, enquanto as cores (klishta, 1.5, 2.3) se desvanecem. Ter a mente tão clara quanto um cristal faz da mente uma ferramenta para os processos mais sutis (3.4-3.6), o que remove as barreiras ou obstáculos que nublam o verdadeiro Eu, que então permanece só em sua verdadeira natureza (1.4).

A Mente se Torna Como um Cristal Transparente

Quando a mente está nublada não pode ver com clareza os objetos no campo da mente ou os objetos do mundo exterior. É como um cristal fosco ou uma pedra de cor sólida. Quando a mente vai se tornando cada vez mais clara através da prática de meditação do yoga, ela fica parecida com um cristal transparente.

Um cristal transparente irá assumir a cor de qualquer objeto que dela fique próximo (sutras 1.41-1.43). Quanto tal tipo de mente clara foca em um objeto no campo da mente, fica totalmente absorvida naquele objeto, permitindo que seja visto a natureza do objeto com muita clareza.

Sistematicamente, exploramos, encontramos, examinamos e, gradualmente, através do desapego, deixamos de lado as muitas falsas identidades, atrações, aversões e medos. Esta introspecção é feita nos aspectos mais densos da mente, e também nos mais sutis, onde está o depósito de impressões profundas (samskaras), que são a força motriz por trás do karma (sutras 1.2-1.4 e 2.1-2.25).

Esta mente com transparência cristalina pode eventualmente transcender a absorção de todos os objetos da mente, deixando para trás até mesmo os níveis de samadhi sobre objetos. A mente se volta para dentro e se entrega na experiência direta daquilo que está além da mente.

1.42 Um tipo desta imersão (samapattih) é um no qual existe uma mistura de três coisas: uma palavra ou nome com o objeto, o significado ou identidade do objeto e o conhecimento associado ao objeto. Esta imersão é conhecida como savitarka samapattih (associada com objetos densos).

(tatra shabda artha jnana vikalpah sankirna savitarka samapattih)

  • tatra= lá, entre estes, naquele
  • shabda= som, palavra
  • artha = significado
  • jnana= conhecimento, idéia
  • vikalpah= com opções
  • sankirna= misturado com, combinado, intercalado
  • savitarka= acompanhado com pensamentos densos (as= com; vitarka= pensamentos densos)
  • samapattih= imersão, coincidência, absorção completa, transmutar para algo parecido

Imersão com objetos densos: O primeiro dos quatro níveis de imersão (1.41) é savitarka samapattih, que significa que ainda existem vitarkas, ou pensamentos densos, enquanto a imersão aumenta. Uma vez que a mente esteja estabilizada e clara o suficiente para testemunhar como se fosse um cristal (1.41), a mente se torna totalmente imersa (samapattih) no objeto de meditação. Savitarka samapattih é o primeiro dos quatro tipos de imersão em um objeto.

Não-apego: Ao longo da caminhada, os objetos densos são encontrados, examinados, entendidos e postos de lado com o não-apego (1.15), já que parecem ser o não-eu (1.4, 2.5). Ao remover estes obstáculos, o aspirante vai se aproximando da realização do verdadeiro Eu (1.3).

Todas as meditações sobre um objeto são 1 de 4 tipos: Existem somente quatro tipos (1.46) de meditação sobre um objeto denso, não importando qual sistema ou escola de meditação seja seguido. Os tipos são:

1. Com pensamentos densos, savitarka samapattih (1.42)

2. Sem pensamentos densos, nirvitarka samapattih (1.43)

3. Com pensamentos sutis, savichara samapattih (1.44)

4. Sem pensamentos sutis, nirvichara samapattih (1.44)

Meditação sobre objetos densos

Savitarka Samapattih (1.42)

Acima são mencionadas quatro categorias de meditação (savitarka, savichara, sananda e sasmita). Quanto a mente se torna concentrada e os padrões de pensamentos externos começam a diminuir (como resultado da prática persistente da meditação corretamente direcionada), então, além de concentrada, a mente pode ser totalmente imergida no objeto da meditação. Isto é um tipo de expansão interior da atenção sobre o objeto de meditação e esta imersão é chamada de Samapattih. O primeiro nível de imersão é Savitarka Samapattih, que significa que Vitarkas, ou pensamentos densos, ainda existem enquanto a imersão aumenta.

Nirvitarka Samapattih (1.43)

Nirvitarka é a concentração em um objeto denso no qual não mais existem atividades externas do nível denso na mente porque a memória foi purificada. Perceba que com Savitarka não existe somente a meditação sobre um objeto, mas também existem fluxos de pensamentos na mente, apesar de não causarem distração devido a vairagya (não-apego). Em Nirvitarka estes padrões de pensamento diminuem.

Meditação sobre objetos sutis

Savichara Samapattih (1.44)

Além de Savitarka e Nirvitarka está Savichara. Em Savichara os pensamentos densos (Vitarkas) diminuíram, mas ainda existem padrões de pensamentos sutis, que são chamados Vichara. Savitarka Samapattih e Savichara Samapattih são processos similares, embora de um estar relacionado a pensamentos densos, e o outro estar relacionado a pensamentos sutis.

Nirvichara Samapattih (1.44)

Nirvichara é a concentração na qual não mais existe qualquer atividade exterior da mente, seja esta atividade densa ou sutil. Este pureza da mente acontece pelo processo de meditação e não-apego. Em Nirvichara Samapattih, a mente imersa assume completamente as cores dos objetos sutis de meditação, tal como um cristal puro assumiria as cores de qualquer objeto próximo. Com a maestria crescente de Nirvichara, o Eu eterno começa a brilhar para o aspirante.

Estes quatro tipos de meditação em um objeto se estendem ao logo do caminho para a experiência direta da matéria não manifesta, ou prakriti (1.45). Desta forma, ao progredirmos na meditação, não apenas os objetos individuais são testemunhados e postos de lado com o não-apego (1.15), mas níveis inteiros de meditação em objetos são transcendidos.

Discernindo partes de um objeto: Depois de adquirir a capacidade inicial que permite que uma mente consciente confusa e tagarela se acalme, chega o momento de discriminar entre três aspectos diferentes sobre a forma como um objeto mental é construído. Os três aspectos são:

1- a Palavra ou Nome que representa o objeto;

2- o Objeto específico sendo observado e;

3- o Conhecimento ou a Natureza daquela categoria de objeto.

Gradualmente o meditador vem a perceber que todas as nossas atrações, aversões e medos, assim como nossas concepções, percepções e opiniões são todas construções mentais. Este processo de discriminação se torna ainda mais sutil, até o discernimento final entre os aspectos sutis do processo mental e a consciência pura, ou Purusha (3.56).

Tendo em mente as três “partes” de um objeto, descritas acima, perceba que:

1- Cada um dos três objetos abaixo poderia ser referido pelo nome ou palavra “maçã”.

2- Cada “maçã” específica é diferente das outras duas.

3- Entretanto, cada uma delas possui uma essência ou natureza de “maçã” que está em cada uma.

1- Cada um dos três objetos abaixo poderia ser referido pelo nome ou palavra “maçã”.

2- Presumindo que os três são estágios da mesma “maçã”, existe, entretanto, uma diferença.

3- Mesmo assim, a essência sutil “maçã” ainda é existente em cada uma.

Uma das maneiras de descrever o processo sistemático da meditação do Yoga é como sendo o discernimento sistemático da diferença entre o nome ou palavra, o objeto específico referido pelo nome ou palavra e a descoberta da essência subjacente. Desta forma, gradualmente examinamos os aspectos ainda mais sutis de nosso próprio ser e descobrimos que nenhuma de nossas falsas identidades é na verdade quem nós somos. Até mesmo o próximo nível que é ainda mais sutil é, eventualmente, percebido como sendo apenas mais um nível ou camada de falsa identidade. No exemplo das maçãs, é como descobrir primeiro a essência da “maçã” na meditação e subseqüentemente descobrir que até mesmo a essência “maçã” é somente uma manifestação de algo mais sutil, como os quatro elementos terra, água, fogo, ar e espaço. Eventualmente, descobrimos que “quem eu sou” é a Consciência pura, ou Purusha. O Eu verdadeiro permanece só, como descrito nos sutras 1.2-1.3. O discernimento final está relacionado a pôr de lado até mesmo os aspectos mais sutis de todo o nosso processo mental, que é sattvic buddhi (3.56).

Ao comentar este sutra, o sábio Vyasa usa a vaca como exemplo para discriminar entre a palavra, o objeto e o conhecimento essencial. Assim, aqui está o exemplo com vacas, que é igual ao das maçãs, acima ou com os carros, abaixo. Este princípio é tão importante de ser entendido que vários exemplos visuais são apresentados aqui. Perceba que cada figura é chamada de “vaca”, mesmo que os objetos sejam diferentes. Assim, em cada uma existe a essência ou natureza de “vaca”. Assim como as maçãs e os carros, procuramos conhecer a essência de “vaca” para também transcendê-la.

Discernindo as Três Partes de um Objeto de Meditação

Quando meditamos em um objeto normalmente estamos observando uma composição com três partes, embora não estejamos cientes disto. Estas três partes são normalmente experimentadas como um objeto simples e inteiro (1.42-1.43). As três partes de um objeto de meditação são:

1-palavra

2-objeto

3-conhecimento

Por exemplo, imagine que estamos meditando sobre um carro (não está sugerindo que

meditemos sobre carros, mas é um exemplo direto e fácil de ser entendido).

1- Palavra: a palavra “carro” é um som vibrando na língua portuguesa. Em francês é “voiture” e em espanhol é “coche”. Como um mantra, existe uma vibração sonora das sílabas, independente da língua específica usada.

2- Objeto: a mente automaticamente pensa em um carro específico quando o som “carro” está na mente. Tente isto e verá como é difícil, senão quase impossível, pensar em um objeto sem que este seja um objeto específico. Pense em uma maçã, uma pessoa, uma flor, ou numa construção agregada com um carro. A mente criará um específico.

Pode ser pequeno ou grande. Pode ser de uma cor ou de outra.

Pode ter formas muito diferentes. Pode ser único de alguma maneira.

3- Conhecimento: o mais importante dos três é o conhecimento ou essência de “carro”. É preciso muito tato para entender por que pensamos tão consistentemente em um carro pequeno ou grande ou vermelho ou azul. É a essência de “carro” que por fim queremos descortinar. Esta essência está além da forma, tamanho e cor. É sem forma, sem tamanho e sem cor.

Ir além dos três é um princípio fundamental: este processo de três partes é aplicado a todos os objetos convencionais no campo da mente, seja relativo a memórias de objetos externos ou a típica seqüência de sonhos ou fantasias do mundo interior. Todos são compostos de palavra, objeto e essência. Queremos repetidamente ver além desta combinação através da meditação, permitindo a emergência da essência ou conhecimento, que está por trás ou além, tanto da palavra ou nome, quanto do objeto específico. Este é um princípio sutil que é compreendido através de uma prática gentil.

1.43 Quando a memória ou armazém das modificações da mente está purificado, a mente parece estar devotada a sua própria natureza e somente o objeto que ela esteja contemplando parece brilhar à frente; este tipo de imersão é conhecido como nirvitarka samapattih.

(smriti pari-shuddhau svarupa-shunya iva artha-matra nirbhasa nirvitarka)

  • smriti= memória
  • pari-shuddhau= sobre a purificação (pari= sobre; shuddhau= purificação)
  • svarupa-shunya= devotada a sua própria natureza (shunya= devotada; svarupa= sua própria natureza)
  • iva= como era
  • artha-matra= somente o objeto (artha= objeto; matra= somente)
  • nirbhasa= iluminador, brilhar intensamente
  • nirvitarka= sem um pensamento denso (nir= sem; vitarka= pensamento denso)

Quando os pensamentos densos externos desaparecem: Nirvitarka é a concentração em um objeto denso no qual não mais existem atividades externas no nível denso na mente, porquê a memória foi purificada. Este é o segundo de quatro tipos de imersão em um objeto denso. Perceba que com Savitarka não existia somente a meditação sobre um objeto, mas também existiam outros fluxos de pensamentos na mente (1.42), apesar de não causarem distração devido a vairagya (não-apego). Aqui, em nirvitarka, estes padrões de pensamento diminuíram para um mínimo.

Não-apego: Ao longo da caminhada, cada um dos objetos densos é encontrado, examinado, entendido e posto de lado com o não-apego (1.15), já que parecem ser o não-eu (1.4, 2.5). Pela remoção destes obstáculos, o aspirante vai se aproximando da realização do verdadeiro Eu (1.3).

1.44 A imersão em objetos densos em savitarka samapattih funciona da mesma forma com objetos sutis, e é conhecida como savichara e nivichara samapattih.

(etaya eva savichara nirvichara cha sukshma-vishaya vyakhyata)

  • etaya= por
  • eva= também
  • savichara= acompanhado por pensamentos sutis (as= com; vichara= pensamentos sutis)
  • nirvichara= destituído de pensamentos sutis (nir= sem; vichara= pensamento sutis)
  • cha= e
  • sukshma-vishaya= ter o sutil como seus objetos (sukshma= sutil; vishaya= objetos)
  • vyakhyata= são apresentados, descritos, definidos

Imersão com pensamentos sutis: Este é o terceiro de quatro tipos de imersão em um objeto. Todos os pensamentos densos foram postos de lado, ou transcendidos. Os objetos de meditação são padrões de pensamentos sutis, os quais são acompanhados por fluxos de outras impressões sutis.

Quando os fluxos sutis declinam: Neste quarto tipo de meditação sobre um objeto, até mesmo os fluxos de padrões de pensamentos sutis externos foram postos de lado, enquanto a imersão em um objeto sutil de meditação se torna completa.

Matéria sutil e concentração sem objeto: Estas meditações sutis se extendem pelo caminho para a matéria mais sutil, ou prakriti (1.45) e finalmente para a meditação sem objeto e o samadhi (1.51).

Não-apego: Ao longo do caminho cada um dos objetos sutis é encontrado, examinado, entendido e posto de lado com o não-apego (1.15), já que parecem ser o não-eu (1.4, 2.5). Pela remoção destes obstáculos, o aspirante vai se aproximando da realização do verdadeiro Eu (1.3).

1.45 Tais objetos sutis são encontrados ao longo do caminho para prakriti não manifesto.

(sukshma vishayatvam cha alinga paryavasanam)

  • sukshma= sutil
  • vishayatvam= ter como objetos
  • cha= e
  • alinga= sem uma marca ou traço, prakriti não manifesto (a matéria mais sutil)
  • paryavasanam= se extendendo até, terminando em

Objetos sutis se extendem para o não manifesto: Estes quatro tipos de imersão ou samapattih estão presentes ao longo do caminho através do nível denso, através dos níveis sutis e para o substrato não manifesto da matéria sutil, ou prakriti. Após, advém a meditação que é sem objeto (1.51).

Não-apego: Ao longo do caminho cada um dos objetos densos e sutis é encontrado, examinado, entendido e posto de lado com o não-apego (1.15), já que parecem ser o não-eu (1.4, 2.5). Pela remoção destes obstáculos o aspirante fica cada vez mais próximo da realização do verdadeiro Eu (1.3).

1.46 Estas quatro variedades de imersão são os únicos tipos de concentração (samadhi) que são objetivas, e possuem a semente de um objeto.

(tah eva sabijah samadhih)

  • tah= estes, aqueles, eles
  • eva= somente
  • sabijah= com a semente, semeado
  • samadhih = absorção profunda na meditação, êxtase

Todas as meditações sobre um objeto são 1 de 4 tipos: Existem somente quatro tipos de meditação sobre um objeto denso, não importando qual sistema ou escola de meditação seja seguido. Os tipos são:

1. Com pensamentos densos, savitarka samapattih (1.42)

2. Sem pensamentos densos, nivitarka samapattih (1.43)

3. Com pensamentos sutis, savichara samapattih (1.44)

4. Sem pensamentos sutis, nirvichara samapattih (1.44)

Estes quatro tipos de meditação em um objeto estão presentes ao longo do caminho para a experiência direta da matéria não manifesta, ou prakriti (1.45). Desta forma, ao progredirmos na meditação, não apenas os objetos individuais são testemunhados e postos de lado com o não-apego (1.15), mas níveis inteiros de meditação em objetos são transcendidos.

Não-apego: Ao longo do caminho cada um dos objetos densos e sutis é encontrado, examinado, entendido e posto de lado com o não-apego (1.15), já que parecem ser o não-eu (1.4, 2.5). Pela remoção destes obstáculos o aspirante fica cada vez mais próximo da realização do verdadeiro Eu (1.3).

Samadhi sem objeto: Então advém a absorção profunda que é sem objeto, que é chamada de nirbija samadhi, ou samadhi sem semente (1.51).

1.47 Enquanto se obtem a proficiência no fluxo imperturbável em nirvichara, são desenvolvidos a pureza e a luminosidade dos instrumentos interiores da mente.

(nirvichara vaisharadye adhyatma prasadah)

  • nirvichara= destituído de pensamentos sutis (nir= sem; vichara= pensamentos sutis)
  • vaisharadye= com fluxo imperturbável
  • adhyatma= espiritual, relativo a atman ou Eu verdadeiro
  • prasadah= pureza, luinosidade, iluminação, clareza

Advento de elevada pureza e luminosidade: Quando as modificações da mente são enfraquecidas, a mente é purificada e adquire uma qualidade parecida com a de um cristal, como descrito no sutra 1.41. Entretanto, este sutra 1.47 está explicando que após acontecer a maestria da imersão em nirvichara (sutil) (1.44), em seguida vem um nível ainda maior de pureza e luminosidade.

1.48 O conhecimento experimental que é obtido neste estado é aquele de sabedoria essencial e está completo com a verdade.

(ritambhara tatra prajna)

  • ritambhara= completo com a mais elevada verdade, essência, cognição suprema
  • tatra= lá
  • prajna= conhecimento, sabedoria, inspiração, insight

Conhecimento superior: Existem muitos insights (conhecimento intuitivo repentino) que acontecem ao longo do caminho, mas todos duram pouco. Lembremos que um dos cinco esforços e compromissos é procurar a mais elevada sabedoria, ou prajna (1.20). Acompanhando a pureza e luminosidade mencionadas no sutra anterior (1.47), que advém da proficiência em nirvichara, ou meditação sutil (1.44), advém a sabedoria que está completa com a mais elevada verdade.

1.49 Este conhecimento é diferente daquele conhecimento que está misturado com testemunho ou através da inferência, porque se relaciona diretamente com a especifidade do objeto, ao invés de palavras ou outros conceitos.

(shruta anumana prajnabhyam anya-vishaya vishesha-arthatvat)

  • shruta= testemunho, ouvir, aprender, da tradição
  • anumana = inferência, raciocínio, dedução
  • prajnabhyam = daqueles tipos de conhecimento
  • anya-vishaya = possuir objetos diferentes (anya= diferente; vishaya= objetos, campos, reinos, domínios)
  • vishesha-arthatvat = relacionado a um objeto particular, propósito, ou significado

Normalmente o conhecimento está misturado: A maior parte do conhecimento está misturada com palavras ou outros conceitos, e assim o conhecimento do objeto não é conhecimento puro de verdade. Esta é a natureza da maioria de nossas experiências. Com o Yoga, queremos ver claramente (1.2), queremos ver a verdadeira natureza das coisas, de tal forma que possamos ficar livres das falsas identidades no campo da mente (1.4).

Conhecimento desobstruído: Neste sutra é explicado que em virtude da capacidade em alcançar este elevado nível de meditação, somos capazes de experimentar o conhecimento em sua verdadeira forma, desobstruído de palavras e conceitos exteriores supérfluos. Ao vermos os objetos com mais clareza, ficamos cada vez mais capazes de vê-los como são, como objetos que nublam nosso verdadeiro Eu (1.3).

Não-apego: Todos os elementos do conhecimento desobstruido de coisas supérfluas também são encontrados, examinados, entendidos e postos de lado com o não-apego (1.15), já que parecem ser o não-eu (1.4, 2.5). Pela remoção destes obstáculos o aspirante fica cada vez mais próximo da realização do verdadeiro Eu (1.3).

1.50 Este tipo de conhecimento, que é preenchido com a verdade, cria impressões latentes no campo da mente, e estas novas impressões tendem a reduzir a formação de outras formas habituais e menos úteis de impressões latentes.

(tajjah samskarah anya samskara paribandhi)

  • tajjah = emergindo ou produzindo de
  • samskarah = impressões profundas, marca residual, impressão ativa
  • anya = de outro
  • samskara = impressões profundas, marcais residual, impressões ativas
  • paribandhi = impedir, obstruir, reduzir, opor, inibir

O samadhi deixa uma impressão no campo da mente: Como as demais experiências, o samadhi, ou absorção profunda, deixa suas impressões no campo da mente. Como outras impressões, estas impressões deixadas pelo samadhi também causam efeitos subseqüentes.

Isto contrapõe outras impressões: O efeito das impressões do samadhi (1.44) e do conhecimento mais elevado (1.48, 1.49), é o de contrapor, impedir, reduzir, ou prevenir a formação de outras impressões profundas.

Libertação do karma: O que está sendo descrito é a parte principal do mecanismo usado no processo de libertação do karma (2.12-2.25). A mente é estabilizada (1.33-1.39), as cores densas são atenuadas (2.1-2.9) e lidamos diretamente com os pensamentos sutis através da meditação (2.10-2.11). Assim as impressões deixadas pelo samadhi parecem ser o principal antídoto para as impressões profundas (1.4), que normalmente bloqueiam nossa visão do Eu verdadeiro (1.3).

1.51 Quando até mesmo as impressões latentes originadas da verdade carregada de conhecimento retrocedem, junto com as demais impressões, então acontece a concentração sem objetos.

(tasya api nirodhe sarva nirodhat nirbijah samadhih)

  • tasya = daquele
  • api = também
  • nirodhe – retroceder, maestria, coordenação, controle, regulação, por de lado
  • sarva = de todos
  • nirodhat = através de nirodhah (nirodhah = controle, regulação, canalização, maestria, integração, coordenação, entendimento, estabilização, aquietação, por de lado)
  • nirbijah = sem uma semente (nir = sem; bijah = semente)
  • samadhih = absorção profunda na meditação, êxtase

Até mesmo os efeitos do samadhi retrocedem: No caminho da Auto-realização, vemos a atenção constantemente retrocedendo dos vários níveis de nosso ser. A palavra retroceder (como uma tradução para nirodah, 1.2) descreve o que esta experiência parece:

  • Quando temos sucesso na meditação e interiorizamos, deixando para trás o ambiente externo, é como se o mundo retrocedesse de nós, apesar de ser a nossa atenção que está indo para dentro.
  • Quando interiorizamos e deixamos para trás nosso corpo, é como se a consciência no corpo retrocedesse.
  • O mesmo acontece com a respiração, que é muito enfatizada até que estejamos prontos para deixá-la para trás. Então, é como se a respiração retrocedesse.
  • Quando encontramos a mente consciente distraída, barulhenta e tagarela, eventualmente parece que ela também retrocede.
  • Quando encontramos os vários níveis do inconsciente, estes também parecem gradualmente retroceder.

Apenas parece que retrocedem: Na verdade nenhum deles está retrocedendo de verdade, mas é assim que a experiência é percebida. Assim, antes da elevada experiência do samadhi sem objeto, ou sem forma, até mesmo os resíduos da iluminação dos estados inferiores do samadhi parecem retroceder, enquanto a atenção se move ainda mais para dentro, deixando-os para trás.

Advento do samadhi sem objeto: Quando até mesmo as impressões latentes oriundas da verdade carregada de conhecimento retrocedem (1.50), junto com as demais impressões, então existe a concentração sem objetos (1.18), que foi descrita como sendo o quarto estágio da meditação em um objeto (1.17).

Não-apego supremo: Experimentamos sistematicamente os estágios de vairagya (não-apego), e como este processo se aprofunda (1.15) ao longo do caminho para o supremo não-apego (1.16).

Sutras Anteriores: 1:33-39: estabilizando e clareando a mente

Traduzido pelo yogi Rogério Maniezi, de Florianópolis, a partir do original “Yoga Sutras 1.40-1.51: After Stabilizing the Mind”, de autoria de Swami Jñaneshavarananda Bharati, disponível em www.SwamiJcom.

Uma resposta para “Yoga Sutra, 1.40-51: Após Estabilizar a Mente”

  1. Obrigada, ao autor e ao tradutor.
    Tenho de regressar a este texto inúmeras vezes.
    Hari Om!

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