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Yoga Sutra, I:18: iluminação e reflexão

Ao surgir esse estado, os samskaras não frutificam nem formam novos vrittis, mas permanecem apenas em estado latente, como 'sementes queimadas'

Escrito por Pedro Kupfer · 6 mins de leitura >

O outro [samadhi, chamado asamprajñata], é precedido pela aplicação da idéia
da cessação [da identificação com os vrittis], e tem como resíduo o samskara.

virama = parada, cessação, discontinuidade, repouso

pratyaya = idéia, conteúdo mental, convicção, confiança

abhyasa = ‘repetição’, aplicação, prática continuada

purvah = anterior, antigo, prévio

samskara = impressões subliminares

sheshah = resíduo, resto, resultado

anyah = outro, diferente (refere-se ao outro samadhi, chamado asamprajñata)

 

Não é difícil equivocar-se ao tentar definir este grau de samadhi. Asamprajñata é o grau de iluminação que segue após o vitarka, o vichara, o ananda e o asmita samadhis. Ele surge quando desaparece a identificação com o vritti ‘eu sou’ (asmita), quarto e último estágio do samprajñata samadhi que estudamos no sutra anterior. Vyasa nos esclarece ainda mais:

‘Quando todas [as identificações com] os processos e conteúdos da consciência já foram superadas, e somente os samskaras permanecem em forma residual, essa cessação é chamada asamprajñata, samadhi além da reflexão. O meio para se obter este samadhi é o desapego mais elevado. A prática com objetos de apoio [para a contemplação] não é eficiente para alcançar este grau de iluminação”.

Quando até mesmo a desidentificação com os vrittis sáttvicos dos quais trata o sutra anterior é alcançada e o praticante desenvolve desapego em relação a esses conteúdos, ele entra no estado de asamprajñata samadhi. Recapitulando, esses vrittis sáttvicos são: clareza de auto-análise, clareza de discernimento, reflexão sobre a plenitude e percepção da diferença entre o ego e o Ser.

Ao surgir esse estado, os samskaras não frutificam nem formam novos vrittis, mas permanecem apenas em estado latente, como ‘sementes queimadas’, para usar a expressão de Vyasa.

Para compreendermos o presente aforismo, precisaremos, primeiramente, definir a palavra samskara, que aparece aqui, por primeira vez nesta obra. A palavra samskara é traduzida como ‘ritual’, mas quer dizer também embelezamento, purificação, sacralização, cerimônia purificatória. Deriva da raíz samskri, que significa literalmente ‘purificação’, ‘perfeição’, da qual, aliás, procede também a palavra samskritam, que aliás significa ‘sânscrito’, em sânscrito.

No Yoga Sutra, no entanto, esse termo possui um significado bem diferente: o de ativador dos movimentos da consciência. Nesse sentido, os samskaras são as forças subconscientes que, baseadas em memórias ou desejos advindos das ações passadas e, estocados na mente subconsciente, dão lugar a novos pensamentos e emoções.

Todas as ações (karmas) deixam como resultado essas impressões subliminares. Esses samskaras ficam armazenados no subconsciente, ‘amadurecendo’ e aguardando a condição apropriada para se manifestarem na forma de atividade volitiva, gerando vrittis que, por sua vez, irão produzir novos karmas. Para Patañjali, portanto, os samskaras são as sementes dos pensamentos e emoções que, uma vez ‘maduros’, irão produzir novos pensamentos, desejos e vontades, mantendo em funcionamento a roda do samsara, aprisionando e condicionando o ser humano.

De que maneira, então, funciona o asamprajñata samadhi? Este tipo de iluminação refere-se a algum estado em que há ‘perda de consciência’, como já foi sugerido por alguns autores? [1] O erudito Surendranath Dasgupta explica este ponto em sua obra Yoga as Philosophy and Religion [2]:

‘Este estado, assim como os outros estados do tipo samprajñata, é um estado positivo da consciência, e não um mero estado de vacuidade de objetos, ou de negatividade. Neste estado, as características inetrentes aos estados desaparecem, e somente suas potencialidades permanecem vivas”.

Neste estado de conhecimento de Purusha, o praticante permanece em sua real natureza (svarupa), como testemunha (sakshi), plenamente consciente de si e do todo. O objetivo que o yogi tem, neste tipo de iluminação é estabelecer-se na sua real natureza. Muito embora possa afirmar-se que, neste estado, exista uma suspensão temporária da identificação com os processos de chitta, seria errôneo acreditar que isto possa conduzir a um estado de suspensão permanente da atividade mental e, muito menos, que o yogi se torne uma espécie de alienado, incapaz de viver uma vida útil e produtiva no mundo.

O estado de asamprajñata samadhi é chamado igualmente por Patañjali nirbija samadhi, ou iluminação ‘sem semente’, ou sem apoio. Quando este estado tem lugar, todas as ‘sementes’ das aflições (samskaras) e seus efeitos são ‘queimadas’, evitando assim o nascimento de novos processos mentais (vrittis) e dissolvendo assim a identificação com eles.

Transcendendo os estados dos samadhis reflexivos (samprajñata), as propensões subconscientes que formam a raíz da ignorância sobre si mesmo tornam-se inativas e a consciência do praticante (chitta) deixa de se deixar arrastar para o exterior, dirigindo-se naturalmente para o Conhecedor (Purusha).

O ensinamento essencial do Yoga, milênios antes da era de Patañjali, já apontava para esta busca pelo auto-conhecimento. Na Brihadaranyaka Upanishad (III:4.1), o sábio Yajñavalkya deixou uma importante dica sobre a maneira que o yogi tem de conhecer a si mesmo. Quando inquirido pela sua esposa Maitreyi sobre os meios para o conhecimento do Ser, responde:

‘Você não pode ver aquele que vê o que é visto. Você não pode ouvir aquele que ouve o que é ouvido. Você não pode pensar aquele que pensa o que é pensado. Você não pode compreender aquele que compreende o que é compreendido. Ele é seu próprio Ser, e está em tudo. Fora ele, todo o resto é irrelevante’.

Assim, o Yoga e, conseqüentemente, o estado de asamprajñata samadhi, nos conduzem à emancipação (kaivalya), que produz uma transformação da consciência através da qual o praticante se livra das limitações da identificação com a vida de responsabilidades (vyavahara) e com o ego, sem precisar renunciar ao mundo para acançar esse objetivo.

Todas as práticas do Yoga, incluíndo-se o sistema óctuplo ensinado pelo sábio Patañjali nesta obra, têm como objetivo auxiliar o yogi no caminho progressivo que vai desde a identificação com a egocidade ao estado de desidentificação (nirodhah), ou consciência de Purusha.

Assim, as fontes de aflição e sofrimento (kleshas) não são eliminadas através de algum exercício específico, mas através daquilo que Vyasa, no comentário deste aforismo, chama de supremo desapego (paravairagya). O desapego é um processo gradual: ao retornar do asamprajñata para o estado de vigília, o yogi olha para o relógio e percebe que, havendo transcorrido um certo tempo na absorção, o estado de suspensão da identificação com os vrittis (nirodha) teve lugar. Sendo o asamprajñata um estado-conhecimento, ele não pode ser considerado uma experiência. Não há, portanto, lembranças a ser ‘carregadas’ desde essa absorção, de volta para o estado de vigília.

Esse estado de desapego em relação à egocidade, aos karmas, vrittis e samskaras, é o asamprajñata samadhi. Esse estado de atentividade desapegada é cultivado pelo praticante não somente durante a prática da meditação, mas igualmente durante a vida cotidiana. Enquanto realizando suas tarefas, o praticante permanece no estado de nirodhah, integrando progressivamente o asamprajñata na vigília, para viver a vida de Yoga. Tal praticante é chamado jivanmukta, ‘liberado em vida’. A Hatha Yoga Pradipika, um tratado medieval sobre Hatha Yoga, nos dá uma bela definição do jivanmukta:

‘O yogi em samadhi não é atingido pelo processo do tempo (a morte), nem pelo fruto das ações (karma); nada nem ninguém pode afetá-lo. O yogi em samadhi não recebe nada através dos sentidos; não conhece a si mesmo nem aos demais. Aquele cuja mente não está nem desperta nem dormente, livre das lembranças e do esquecimento, para quem nada permanece quieto o ativo, é realmente um liberado (jivanmukti). O yogi em samadhi é insensível ao calor e ao frio, à dor e ao prazer, à honra e ao insulto’. IV:108-111.

Cabe lembrar que a persona do jivanmukta não se evapora, não desaparece, assim como não desaparece o mundo objetivo para ele quando entra nessa condição. O que acontece no asamprajñata samadhi é um estado-conhecimento no qual se aperfeiçoa e estende a auto-identidade do yogi. Liberado do sofrimento inerente à identificação com as propensões subliminares, condicionamentos, pensamentos e emoções, o jivanmukta adquire um senso expandido da sua própria identidade, integrando em si mesmo virtudes como a não-violência, a compaixão e a sabedoria e enxergando a si próprio, não mais como aquela personalidade carente, limitada e fora de foco, senão como Ser ilimitado.

O jivanmukta vive harmoniosamente no mundo, ajudando os demais e sentindo-se totalmente em casa, onde quer que ele esteja. A liberdade do yogi não deve ser comprendida aqui como negação ou fuga das próprias responsabilidades, mas como viver e agir no mundo cotidiano em consciência de Si mesmo, consciência de Purusha. A liberdade é um reflexo dessa transformação interior do yogi.

Essa cognição de Purusha obtida através do Yoga deve, por sua vez, operar em consonância com as dimensões ética e afetiva que esta filosofia nos propõe, para formar uma espiritualidade única, abrangente e integrada, na qual a transformação da vida do praticante funciona por sua vez como um agente transformador das vidas dos demais.

Assim, pelo menos segundo a visão que nós temos deste texto de Patañjali, o Yoga é um sistema que reconcilia o compromisso com a espiritualidade, a transformação interior e o auto-conhecimento (nivritti marga), com a vida de responsabilidades no mundo cotidiano (pravritti marga).

[1] Esses autores foram J. H. Woods, em sua obra The Yoga System of Patañjali, Harvard Oriental Series, Cambridge, 1914, p. 12; e G. Jha, no livro The Yoga Darshana, p. 20, Rajaram Tukaram Tatya, Bombay, 1907.

[2] ‘Yoga como Filosofia e Religião’, ótima obra porém, infelizmente, sem tradução para o português, editada por Trubner and Co., Londres, 1924, p. 124.

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