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Andando no fio da navalha: o caminho do hatha yoga

O objetivo último do Hatha Yoga é a realização de Deus, a iluminação, aqui e agora, num corpo divinizado ou imortal. Muitas vezes essa realidade é expressa com o símbolo do estado de equilíbrio ou harmonia (samarasa) no corpo, no qual a energia vital, costumeiramente difusa, estabiliza-se por fim no canal central.

Escrito por Georg Feuerstein · 2 mins de leitura >

Essa citação do Kularnava Tantra (9.41) afirma o objetivo último do Hatha Yoga, que é a realização de Deus, a iluminação, aqui e agora, num corpo divinizado ou imortal. Muitas vezes essa realidade é expressa com o símbolo do estado de equilíbrio ou harmonia (samarasa) no corpo, no qual a energia vital, costumeiramente difusa, estabiliza-se por fim no canal central. Essa idéia está presente no próprio termo Hatha Yoga, que se explica esotericamente como a união (Yoga) do ‘sol’ e da ‘lua’, a conjunção dos dois grandes princípios ou aspectos dinâmicos do corpo-mente.

A força vital (prána) polariza-se ao longo do eixo da coluna. Afirma-se que o pólo dinâmico (representado por Shakti) fica na base da coluna e o pólo estático (representado por Shiva), no topo da cabeça. A obra do hatha-yogin consiste em unir Shakti e Shiva. Para que aconteça esse casamento, porém, é preciso antes estabilizar a corrente alternada de força vital que anima o corpo. Esse fluxo dinâmico (comumente chamado de hamsa) tem um pólo positivo e um negativo; sobe e desce pelo lado esquerdo e o lado direito do corpo 21.600 vezes por dia (1). A corrente positiva tem o efeito de esquentar, e a negativa, o de esfriar. No nível material, elas correspondem respectivamente aos sistemas nervosos simpático e parassimpático.

Segundo o modelo tântrico do corpo humano, o canal axial (chamado sushumná) é circundado pelas nádís idá e pingala, de forma helicóide. Pingala é o conduto ou o fluxo da força solar, à direita. A sílaba ha na palavra hatha também representa a força solar do corpo e a sílaba tha representa a força lunar (2). A palavra yoga significa a conjunção das duas, que é o estado extático de identidade entre o sujeito e o objeto.

O objetivo primeiro do Hatha Yoga é o de interceptar as correntes da esquerda e da direita e concentrar a energia bipolar no canal central, que começa no chakra do ânus ou múládhára chakra, onde se diz que a kundaliní permanece adormecida. Esse esforço perseverante de redirecionar a força vital tem efeito sobre a kundaliní, que fica então mobilizada. Essa ação pode ser comparada à de um malho que golpeia repetidamente a bigorna; por isso, o sentido comum e exotérico da palavra hatha é ‘força’. O Hatha Yoga é uma obra de força na qual a força vital intrínseca ao corpo é usada para a transcendência do ego.


(1) Segundo a Gheranda Samhitá (5.80), o hamsa ? também chamado de Gáyatrí Mantra espontâneo ? opera nas narinas, no coração e no múládhára chakra, na base da coluna.
(2) Alguns livros populares sobre Yoga afirmam erroneamente que ha e tha são palavras que de fato significam ‘sol’ e ‘lua’ respectivamente, ao passo que, na verdade, elas são apenas sílabas que representam os dois luminares.

Extraído do livro A Tradição do Yoga (traduzido por Marcelo Brandão Cipolla), Editora Pensamento, São Paulo, e digitado por Cristiano Bezerra.

Copyright (c) 2001 Georg Feuerstein, Yoga Research and Education Center.

2 respostas para “Andando no fio da navalha: o caminho do hatha yoga”

  1. Oi Pedro!Estava fazendo umas pesquisas por aqui , e encontrei esse errinho :
    “O idá é o conduto ou o fluxo da força solar, à direita. ”
    bjo

    1. Ida – Narina Esquerda, testículo direito, também chamada Candra Nadi (Nadi da Lua). Representa a Lua, Tha, frio e corresponde ao Parasimpático.Pingala – Narina Direita, testículo esquerdo, também chamada Suria Nadi (Nadi do Sol). Representa o Sol, Ha, calor e corresponde ao Simpático.

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