Pratique, Yoga na Vida

Despertador ambulante: isso é o professor de Yoga!

Simples é fazer sempre a mesma coisa, tendo um modelo básico na mente. Difícil é olhar para a pessoa e tentar ver através dela

Escrito por Manuela Mendonça · 3 mins de leitura >

Dar aula não é fácil. Não é fácil ensinar qualquer coisa pra qualquer pessoa. Mais simples é fazer sempre a mesma coisa, tendo um modelo básico na mente. Difícil é olhar pra pessoa e tentar ver através dela. Ver o que ela não fala, não mostra e sequer percebe.

Pior ainda, o que exige uma capacidade especial de comunicação é conseguir falar não na própria língua, mas na língua da pessoa. Dar aula é antes de tudo, um trabalho que exige dedicação e abertura. Professor que não vê aluno não consegue ensinar nada. Não adianta soltar aos ares qualquer proposta. Alunos não são pescadores e professor com preguiça é frustrante.

Nunca pensei que eu fosse fazer o que faço hoje. Na época em que deveria escolher uma profissão não me passava pela cabeça ensinar coisa alguma. Só me ocorria que deveria ter uma profissão mais “importante”. Minha mãe era professora. Era professora e era completamente descabelada, alucinada com o dia-a-dia. Professor rala muito e ganha pouco. Mas professor é rico, muito rico porque se alimenta de relação.

Hoje percebo a importância dos professores que tive e como foi determinante na minha vida a atenção especial que alguns professores me deram. Os que me olharam regaram sementes. Dos outros não restou nem a lembrança de um conteúdo sem utilidade. Não ouve o toque. Não aprendi. A voz não ressoou nos meus ouvidos.

Mas aqueles que leram, que ouviram e que se preocuparam, esses sim, fizeram na minha infância, brotar de dentro de mim, um começo de pessoa. Sentia que existia, que podia, que talvez conseguisse. Professor trabalha com o fortalecimento de um ser, em qualquer idade, em qualquer matéria. Professor é professor.

Professor de Yoga tem uma missão. Um trabalho muito especial. Sutil, delicado, impalpável. Professor de Yoga faz uma pessoa perceber a si mesma. Um corpo. Uma mente. Um indivíduo e um todo.

O professor de Yoga mostra o que é relativo, subjetivo e absoluto. Sim, apresenta o corpo. Músculos, melhor postura e blá blá blá. Mais do que isso. Mostra o que existe no corpo, que vive no corpo, que pulsa no corpo. E mais do que isso. Mostra que isso que vive no corpo, vive em tudo.

E assim vai, aos poucos, usando o corpo, revelando um algo a mais que é pra lá de muito mais. É extremamente orientador. Ésse algo a mais é a capacidade de contemplar. A si, aos outros e tudo isso junto.

É como um zoom que consegue entrar mais profundamente em um foco, mas que também consegue afastamento mais amplo, percebendo o contexto em que um foco está inserido. Agradeço aos céus cada vez que consigo me afastar de situações extremamente angustiantes quando percebidas isoladamente e insignificantes quando em um contexto maior.

Venho refletindo sobre esse ofício tão exquisito, tão sem limites e cada vez mais comum, que é dar aulas de yoga. Sobre o que é ser professor e finalmente, que linda é a relação entre professor e aluno. Quando não existe essa relação, mútua, não existe nada. Nada acontece ali. Não cresce nenhuma flor. Mas quando existe, que lindo, a evolução acontece mais rapidamente um duplas, trios, grupos. O ser humano é ser de coletivos.

É impressionante como é tentador o isolamento. Preguiça pura. Dar aula e sair fora. Não explicar nada. Entrar no carro e não passar pelo coletivo, pelo povo, pela mistura. Colar o nariz no relógio e tentar correr o máximo possível, afinal, “time is money”. Isolamento gera mal humor e miopia. Dedicação e vida no coletivo gera abertura e compaixão. Ser professor exige dedicação. Exige estar ali, misturado. Exige gostar disso. Ser aluno, bom aluno, exige não estar isolado exigindo o que se quer pelo dinheiro investido.

E pior. Professor de Yoga não tira férias. Não separa a vida da profissão porque a própria vida é a fonte maior de aprendizados. E que beleza, cada esforço em direção ao conhecimento é recompensado por uma satisfação no coração por entender um pouco mais dessa coisa doida que é existir. A vida vai ficando cada vez mais clara, mais limpa, mais doce e grande, muito grande.

Dedico cada aula àqueles que me ensinaram e que vivem por aí a ensinar. Dedico cada aula à minha mãe, professora incansável. Agradeço àqueles que me puxaram as orelhas e que me cuidaram. Aos colegas que me ensinaram, que me passaram os primeiros alunos e que hoje ainda confiam em mim para cuidar dos seus alunos. Agradeço aos alunos, pela santa paciência, pelo amor e dedicação. E espero poder ajudar, sendo aluna e professora, seja lá como for, a despertar um pouquinho do olhar que contempla e vê mais além de si.

Manu é yogini e professora de Yoga no Rio.
Ela postou este artigo em seu blog, www.yogapadah.blogspot.com e nos autorizou a reproduzí-lo aqui.
Se quiser entrar em contato com ela, escreva para [email protected].

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6 respostas para “Despertador ambulante: isso é o professor de Yoga!”

  1. Lúcido texto,
    como eu sou professor de educação física e artes marciais e também de yoga me senti o texto como uma homenagem.
    Muito obrigado,
    Daniel.

  2. Que lindo o seu texto! Através dele eu consegui renovar algumas intenções sobre mim mesma e meus alunos!
    Om Shanti, Shanti, Shanti!

  3. ACHEI TUDO LEGAL, DESPERDADOR AMBULANTE: ISSO É UM PROFESSOR DE YOGA MASSA A FRASE! ABRAÇOS.

  4. Manu, querida amiga!

    Que linda sua reflexão, suas palavras, sua honestidade e comprometimento com vc mesma e com o próximo. Sua maturidade é nítida em seu texto e em suas aulas. Reflexo da sua prática construída dentro e fora do tapete… principalmente fora dele, no dia-a-dia, nos questionamentos, nas dúvidas e pirações… na troca, na comunicação, no contato… Contato, contato, contato!

    Que bom ter vc como amiga pra compartilhar várias pirações e principalmente muita LUZ. Esse contato que a gente tanto fala não acontece dentro do tapete. É fora mesmo. Na dança o contato acontece com a ferramenta do corpo e nos traz várias sensações, perguntas, respostas. É maravilhoso. No Yoga a gente usa o corpo com outra finalidade, mas que, da mesma forma, nos leva a sensações, perguntas, respostas.

    Cada um, de forma diferente, só vem nos dizer que contato se faz no dia-a-dia, fora da sala de aula, nas relações, no olhar, num toque, numa palavra, numa pausa, num suspiro, num sorriso.

    Que bom ler suas palavras e tirar daí inspiração para exercer essa função de ser instrumento, veículo de ensinamento… A prática de dar aula é uma outra prática a parte. Mais uma outra prática de auto conhecimento que traz informações sobre nós mesmos que às vezes, no dia-a-dia, nem percebemos. Com certeza os alunos são igualmente fonte de ensinamento para nós.

    É isso… que possamos dar nossas aulas cada vez mais conscientes da importância do CONTATO! Do que isso realmente significa!
    Beijos da amiga!
    Si

  5. Parábens Manuela!
    Professores espalham e plantam sementes e assim podemos transmitir aquilo que acreditamos, o que vivemos e experimentamos! Cada professores que pinta em nossa história tem algo de valioso para nos oferecer em um determinado momento da vida, seja sobre o corpo ou sobre algo mais profundo, para entendermos nossa verdadeira essência. Que possamos ser sempre um canal de transmissão do Yoga!
    Namastê!

  6. É dureza mesmo ser professor, e espero que hajam muitos ainda no meu caminho como voce Manu. Nos vemos nas voltas do mundo, em uma aula, ou em qualquer outro lugar, mas sempre conscientes de nosso papel de disseminadores de uma nobre filosofia. Abraçao, e que a bem-aventurança sempre te acompanhe.

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