Começando, Pratique

Do alto de Si

Equilíbrio. Palavra amada pelos yogis e por todos aqueles que conhecem o seu antônimo. Palavra desejada e que remete à calma. Equilíbrio parece um lugar distante. Um lugar sem vento e sem tempestade

Escrito por Manuela Mendonça · 5 mins de leitura >

Equilíbrio, esse tão querido, nas palavras de um dicionário (Larousse): 1. Estado de um corpo que se sustém sobre um apoio, sem se desviar da posição normal. 2. Igualdade entre forças opostas. 3. Posição estável no corpo humano. 4. Fig. ponderação, calma, prudência. 5. Fig. Estabilidade mental ou emocional. 6. Justa combinação de forças, de elementos; harmonia, proprção. No minidicionário de sinônimos (Melhoramentos): 1. Igualdade, proporção. 2. Harmonia, concordância, acordo. 3. Estabilidade, firmeza, imobilidade. 4. Moderação, controle, comedimento.

Equilíbrio. Palavra amada pelos yogis e por todos aqueles que conhecem o seu antônimo. Palavra desejada e que remete à calma. Equilíbrio parece um lugar distante. Um lugar sem vento e sem tempestade. Um lugar onde faz sol constante e a temperatura é amena. Na cidade do equilíbrio, eu me pergunto, se existe emoção. Equilíbrio é um ponto fixo ou é algo que se flexibiliza? Equilíbrio é assim, um lugar entre dois pontos. Um entre dois, uma medida certa ou um lugar mais pra cima? É aqui, no meio, ou logo mais li onde vejo inclusive o equilíbrio?

Equilíbrio me lembra logo um fio, a ponta dos pés, o controle de um instante suspenso entre suas forças. O instante nulo, no corpo, dos vetores opostos. O equilíbrio na mente logo me lembra o cara calmo. Aquele ser capaz de não reagir ou que jamais se altera. Aquele ser que segue em linha sem aceleração ou saltos. Ele flui sem quedas, sem sustos, sem gritos. Equilíbrio só existe pra quem se movimenta e pra quem sabe o que é dualidade e polaridade. Pra quem vai de lá pra cá e sabe que bem no meio do caminho existe um ponto agradável. Seria no meio do caminho ou fora dele? É um ponto no meio ou é um terceiro ponto? Algo assim mais parecido com um triângulo do que com uma reta e um ponto no meio.

Penso que existem tipos de equilíbrio. Um, o do ponto no meio. Um lugar de zero, de nada. Nem lá nem cá. Não é neutro. Não é nada. É simplesmente no meio. É a cara de calmo. Que não sente nada. Inexpressivo. Morto. Vazio. Ou cheio e duro, escuro. Desse ponto no meio, ou vira-se para um lado ou para o outro. Desse equilíbrio ainda não se vê o todo. Aqui, às vezes me sinto sem vida. Sem energia. Sem emoção. Aqui questiono o equilíbrio esteriotipado que se confunde com falta de sensibilidade. E me pergunto, onde coloco as emoções? No ponto do meio, ali existe algum movimento? Ali existe sentimento? Ali não pode haver força para lugar algum ou eu sairía de meu equilíbrio. Equilíbrio yogi é “frio”? Ou no ponto do meio, ali onde penso que não existe nada, existe amor?

Em reflexão penso que talvez equilíbrio seja um pouco mais pra cima. Algo como um terceiro. um novo lugar. Sim. Um nem lá nem cá também. Mas um outro em posição privilegiada de observação. Aqui, equilíbrio é um espaço amplo, lúcido, vivo. Ali, na exata distância entre um ponto e outro, mas móvel, flexível. Não duro. Não cego. Não dormente. Totalmente acordado. Desse ponto lúcido posso experimentar, quem sabe. Porque desse espaço amplo eu vejo os dois. vejo a linha que une dois pontos opostos. Existiria emoção aqui? Esse doce balanço das energias. Ondas no oceano interno. Surf na criação. Sem quedas, sem vaca ou tombos fortes.

Em posição de equilíbrio o corpo continua pulsando. Ali, na imobilidade, com uma pé só no chão, percebo uma leveza entre o céu e a terra. Equilíbrio aqui teria uma qualidade de elevação. Mas a pulsação continua. O movimento está presente. Equilíbrio é um movimento de dois que dá nascimento à mais um que observa. Tempo e contratempo. E toda a criação que se faz em música. E pode-se viver ou pode-se elevar-se à própria vida, sendo o equilíbrio pelo lado de fora. Ou o terceiro olho bem aberto.

E como fica o equilibrado no oceano de emoções? Seriam estado incompatíveis? É muito forte a idéia de que um cara equilibrado não se altera e muito menos se abala por fortes emoções. É mais forte ainda a idéia de que fortes emoções são negativas. E nisso, o buscador da justa medida entre forças opostas acaba sozinho no ponto do meio não elevado. Porque ali não vive, mesmo estando encarnado em um corpo. No equilíbrio elevado, no espaço amplo, a mobilidade é possível. Os ventos batem, as tempestades caem. Eu balanço de um lado para o outro. Mas não caio. Porque balanço, sinto o balanço, e sei que é balanço. E que balanço é balanço, e nada mais. Porque não, aceitá-las, vivê-las e chorá-las, sabendo de meu lugar mais amplo? Dali de cima, do equilíbrio flexível, não há mistura. O equilíbrio seria verdadeiramente o discernimento. Não a negação. Não o fechar-se ao meu canto morno. Mas o elevar-se para além do frio e do quente, sabendo profundamente sobre os dois. Porque é saber para além dos dois.

O equilíbrio que é de espaço amplo e olhos abertos pode lançar-se à intensidade e voltar. É elástico. Vai e volta. Apaixona-se sem perder-se de seu lugar mais alto. Vive, intensamente seu balanço e serve-se de seu ponto fixo como âncora de seu laboratório. De seu mundo lúdico de experiências em direção a lugares ainda mais amplos. O equilibrado que se move nada por cantos profundos e ilumina quartos escuros nunca antes arejados. E cada vez que abre uma janela descobre uma peça de um todo que se revelará cada vez maior. Do equilíbrio elevado revela-se que o equilíbrio imóvel mais parece uma prisão. Um ponto confortável, pode ser. Mas um ponto inseguro de sua base e que no fim, é pura instabilidade, ou medo.

E nesse papo todo de equilíbrio quantos já não sofreram por ter em mente esse modelo caricaturado de yogue ou de “estabilidade’, que muita vezes não é compatível com a pessoa, com a pessoa única como ela é. Quantos não lutaram por querer impor um equilíbrio para não se vêr, para ficar ali, “protegidos”. Quantos extrovertidos não se sufocaram. Quantos deixaram de se apaixonar. Quantos deixam de viver e colorem a vida em tons pastéis por simples medo do vermelho. Cores fortes fazem parte da natureza. Tempestades também. Têm o seu papel. Limpam, renovam. E é o mais puro sinal de equilíbrio.

Se não chover, se você não chorar, você resseca, queima e arde. Não não trovoar, se você não gritar quando for necessário, se você não disser não ou chega, você explode. E que bom sentir a brisa calma, que bom os tempos de calmaria também. Na natureza, o equilíbrio se faz assim, com um pouco de tudo para a manutenção da vida. No homem também, e olha que lindo. Podemos perceber tudo isso. Nosso equilíbrio é mais complexo e se faz abrindo uma dimensão logo acima de si. Um olho novo que olha pra todos os lados. Um pano preso no céu que se balança para um lado e para o outro. E que gira e se enrola. Que enfim, brinca e nunca esquece de si. E se quiser, que bom, também pode ficar ali, só olhando do alto de seu chão.

Manu é yogini e professora de Yoga no Rio. Ela postou este artigo no seu blog, www.yogapadah.blogspot.com e nos autorizou a reproduzí-lo aqui. Se quiser entrar em contato com ela, escreva para [email protected].

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Uma resposta para “Do alto de Si”

  1. Que texto maravilhoso.Todos os textos que li aqui escritos por você são ótimos, e desafiam o senso comum.

    Participei de um debate no artigo de seu vizinho de site, onde ele disse uma frase que nunca me esquecerei : “A paz do Yoga repousa na cama da conveniência”.

    Seus artigos desafiam alguns clichês e isso é ótimo, faz pensar e sair da mesmice. O Pedro também escreveu um artigo tocante. Que bom que os yogis estão despertando de verdade e parando de só falar do que é agradável de se ouvir.

    Parabéns Manuela!

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