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Porno Yoga

O fim da picada: mistura de Yoga e pornografia promovida pela revista Playboy para vender seus hipersexualizados “produtos”. Essa iniciativa visa, assim como as ações das outras multinacionais que tentam associar sua imagem ao Yoga, o claro e excuso objetivo de lucrar com nosso estilo de vida.

Escrito por Pedro Kupfer · 5 mins de leitura >

O observador atento da relação entre a mídia e o Yoga, na onda de popularidade crescente que este vive atualmente, já viu de tudo: Yoga e vinho, Yoga nu, Yoga para cavalos e cachorros, Yoga para acrobatas, Star Wars Yoga, etc. Enfim, Yoga deturpado em todas as suas formas. Essa enxurrada de atropelos e distorções pode provocar um efeito anestesiante na nossa comunidade, que já não se espanta mais com a próxima palhaçada new age ou invenção sectária.

Essa insensibilidade é similar ao marasmo que campa na nossa sociedade perante a infindável lista de escândalos do presente governo que, infelizmente, não escandalizam mais ninguém, nem terminam em punição para os envolvidos. Lá se foi o tempo em que Collor, o “caçador de marajás”, foi defenstrado da Presidência por causa de um Fiat Elba recebido como favor de corrupção.

Hoje em dia nossos políticos roubam bilhões nos níveis federal, estadual e até municipal, e isso não mais produz espanto ou indignação. Estamos anestesiados. Marx errou: o ópio do povo não é a religião, mas a política mequetrefe praticada pelos que governam este belo país atualmente.

Yoga + erotismo = $$$

Volto ao assunto do título: na onda da popularização do Yoga, multinacionais como Adidas, Puma e Nissan estão lutando para extrair seu quinhão de lucro, o que não surpreende. Agora, o que ninguém esperava, e que pode deixar muitos espantados, é a mistura de Yoga e pornografia, promovida pela revista Playboy para vender seus hipersexualizados “produtos”. Essa iniciativa visa, como as estratégias promovidas pelas demais multinacionais, o mesmo objetivo: lucrar com as nossas saudações ao sol e estilo de vida.

Nessa guerra pelo dinheiro, vale até usar até o chumbo grosso da apelação mais vil: a pornografia pura e dura associada à prática de ásana. Vai ser difícil aquele guru da mentira ou o criador da próxima palhaçada caírem mais baixo do que isto. Este é o fundo do poço, o fim da picada, mesmo. Não lembro de ter visto nada parecido nestes mais de 30 anos de convívio com todas as formas de Yoga, fidedignas e não fidedignas. O Porno Yoga deixou as demais distorções no chinelo. Tudo pelo lucro.


O corpo como objeto.

Aquela velha desculpa de que é melhor aceitar quaisquer práticas de ásana como sendo Yoga (pois quanto mais Yoga, mesmo deturpado, melhor para todos), não cola mais, nem pode ser mais aceita sem ressalvas. Na leitura de Yoga que a revista Playboy faz, o corpo da “instrutora” é um commodity, um mero objeto usado para excitar os sentidos dos “clientes” da publicação. Ninguém vai praticar em casa seguindo as ”instruções” contidas nestes vídeos. A Playboy não pode ser tão cínica como para afirmar isto.

Você consegue aceitar isso numa boa? Que significado tem, para você, seu próprio corpo? Você consegue perceber essa objetificação do corpo humano neste anúncio de meias cujo público-alvo somos os(as) praticantes de Yoga? Aqui, eu vejo o corpo da moça como um objeto, e o Yoga como um produto que se associa a esse objeto, para vender meias. Isso está certo?

Se aceitarmos isto como sendo Yoga, o que nos reserva o futuro? Já temos Playboy Yoga e Adidas Yoga. Qual vai ser o próximo passo? Monsanto Yoga? Petrobras Yoga? Disney Yoga? Globo Yoga? Quem vai ser o próximo capitalista demente a querer apropriar-se do Yoga?

Em tempo, coloco aqui que não tenho nada pessoal contra a beleza do corpo nu, ou contra a sensualidade ou contra a celebração dessa beleza e dessa sensualidade. Pelo contário. Porém, creio que cada expressão deste tipo deve acontecer dentro de seu devido contexto. Qual é a diferença entre usar um corpo nu para vender pneus de caminhão e usar um corpo nu para vender meias? Ambos são igualmente degradantes para a mulher, no sentido de que reduzem o corpo, que é, per se, sagrado, e sua beleza e sensualidade, ao prosaico uso de um instrumento mercantil.

[Um aparte: você reparou no absurdo do produto que está sendo publicitado? Meias antiderrapantes para praticar Yoga? Onde se viu? Yoga se pratica, e sempre se praticou, de pés descalços. Aliás, exatamente o oposto do que se vê na foto acima: o corpo coberto (em caso de clima frio ou estarmos na Índia), e os pés descalços. Enfim…]

Yogis nus, lá e cá.

Um sadhu fazer Yoga sem roupa numa montanha sagrada da Índia e muito diferente de uma coelhinha da Playboy fazer demonstrações com direito a caras e bocas (essa parte estou imaginando, pois não assisti o vídeo para cujo link aponta a imagem abaixo no site da Playboy, embora seja certo que haja caras, bocas e muitas outras partes expostas do corpo da modelo).

O yogi nu da Índia não tira a roupa com a intenção de apelar ou despertar o desejo sexual em si mesmo ou nos demais. Pelo contrário: ele desnuda seu corpo como un sinal externo de desapego, que acompanha uma série de outras atitudes desapegadas em relação à sociedade e a si mesmo. Esse desapego, bem compreendido, é um passo importante no processo de moka, no qual o praticante deve se desvencilhar daquilo que não tem valor para si.

Isto não significa que todos os praticantes devamos tirar a roupa ou praticar o nudismo. A maneira em que interpretamos o desapego está em função do tipo de prática que precisamos fazer. Existem práticas tamásicas, rajásicas ou sáttvicas, de acordo com a necessidade de cada praticante. Porém, não há prática do Yoga erótico ou pornográfico, como quer a tal publicação. Yoga, associado a esse tipo de conteúdo é o oposto do Yoga e do que ele propõe.

Agora, vejamos um caso de nudez humana, bem usada para publicitar uma boa causa. Eis um grupo de professores de Yoga numa campanha da PETA (“Povo pelo Tratamento Ético dos Animais”) para não usarmos artigos de couro, considerando os direitos dos animais. “Prefirimos andar NUS do que usar couro”, diz a frase abaixo, em inglês. O leitor amigo saberá perceber a diferença entre a duvidosa intenção das imagens acima e a intenção inequívoca desta que vem a seguir. Aqui não há apelo nem uso do corpo como um objeto para vender algo.

O Yoga na sociedade de consumo.

A sociedade de consumo reduz tudo a dois tipos de produto: os que dão lucro e os que não. Por enquanto, o Yoga vende bem, ao que parece. A sexualização do Yoga, sua associação com o erotismo e a pornografia, é mais um capítulo que degrada e afasta aquilo que hoje se conhece como Yoga, do Yoga de raíz, o original. O problema da pornografia é que ela mostra tudo, menos o essencial. O yogi busca ver o essencial, como bem sabemos.

Yoga como distração ou entretenimento não é Yoga. Yoga é uma ferramenta para a liberdade. Não tem, nunca teve, a pretensão de entreter ou divertir ninguém. Se você olhar com cuidado, verá que a sociedade destina os maiores pagamentos aos maiores “distraidores”: atores, políticos, rock stars, “celebridades” e falsos gurus. O Yoga sempre esteve à margem desses acontecimentos, tanto no seu lugar de origem, quanto aqui em Ocidente. Até agora.

O autor destas linhas não considera que o Yoga deva receber algum tipo de tratamento especial na sociedade de consumo. O fato de não gostar da mercantilização e o uso questionável que se faz atualmente da imagem do Yoga está inserido num contexto maior. Pessoalmente, não gosto da comercialização do Yoga assim como tampouco gosto da comercialização da arte, do erotismo e de todas as manifestações culturais. Essa extrema comercialização é ruim para todos nós, para a nossa cultura e para o mundo. Só isso.

Assim sendo, penso que o praticante consciente não deve dar força nem ficar calado perante esse tipo de distorção. Afundamos cada vez mais na kali yuga, a era do egoísmo e dos conflitos. Salve-se quem puder. Salve o Yoga, quem puder. Porém, antes de declararmos a morte do Yoga por choque de capitalismo, pensemos o que podemos fazer para tirá-lo da UTI onde se encontra agora.

Namaste!

Mohinī, a Encantadora

Pedro Kupfer em Conheça, Dharma Hindu
  ·   4 mins de leitura
jñānayoga

Jñānayoga em 11 Palavras

Pedro Kupfer em Conheça, Vedānta
  ·   55 segundos de leitura

24 respostas para “Porno Yoga”

  1. Nào sei não… com o faro que eu tenho, se entra uma aluna com esse perfil na minha turma, eu chamo para conversar… sei lá… onde foi que ela aprendeu tudo o que sabe? Por que as práticas espirituais acabaram tão vulgarizadas?
    Vale a velha frase: é muito cacique para pouco indio… tem “mestre” sobrando, e faltando “aluno de verdade”… tem momentos que o professor tem, sim, que chamar um aluno para conversar… é o que eu penso!
    NAMASTE!

  2. Pedro,
    Gostei de lhe “ouvir”, pois foi isso que aconteceu, lhe vi e lhe ouvi nesse texto. As vezes vejo uma passividade em nome do não-julgamento que me questiono muito. Em nome do “não-julgamento” muitas vezes existe uma inércia, o receio de ser julgado…
    Penso que aí também há uma distorção… Não trata-se de julgar e sim de conhecimento e atitude. O direito de se indignar com algumas coisas! Vejo você, o Bruno, o Vicente e tantos outros que ainda não conheço não ficarem calados que penso, ufa! ainda bem, eles praticam o que me ensinam!
    Beijo Pedroji e obrigada!
    Obs: Pedro, me sinto meio nenê no meio de gente grande… 🙂

  3. É a engrenagem funcionando: coopta-se o que parece ser uma boa oportunidade de negócio, refina-se (processamento) para que possa haver um produto formatado e vendável – ou seja, eliminá-se o conteúdo e cria-se um espaço publicitário para a Coca-Cola – associando-se saúde com veneno. O mercado é um buraco negro que engole até a luz. Mas o Yoga existe e resiste à milênios, antes, durante e depois desse “deus” mercado.
    Um abraço, Pedro.
    Namaste!

  4. É Pedroji,
    quanto mais o “Yoga” vende, mais a Tradição é posta de lado! Enfim, realmente, é muito difícil se acomodar perante esse tipo de aberração! O que mais me conforta é que o Yoga em si não vai se perder nunca!
    Om tat sat!

  5. É terrivel tudo isso que acontece. Mais é muito bom saber que tem pessoas como você e todos que deixaram suas críticas, que estão de olhos abertos e fortes na luta , para que a verdadeira essência do Yoga não acabe.
    Que essas pessoas inconscientes, que estão “no automático”, só querendo vender e ganhar a qualquer custo, recebam uma luz e possam refletir mais sobre suas atitudes e aprender a respeitar e conhecer os verdadeiros valores da vida!
    Grato pelo texto.
    Namaste!

  6. Pedrão!
    Que “pérola”! Posso copiar para o blog? Avisa para o pessoal que lá tem mais!
    http://www.issoeyoga.blogspot.com
    Abração!
    Bruno.
    ===============================
    Fala Bruno!
    Claro que pode! Os textos estão para isso mesmo: serem divulgados!
    Namaste!
    Pedro.

  7. Pedro,
    Esta matéria chega em bom momento. É preciso separar o joio do trigo, o problema nem é o público que está sendo seduzido por esta insanidade, mas sim os próprios yogis que não conseguem enxergar esta desconstrução atual.
    Tenho visto muitos professores de Yoga propagando o corpinho sarado e usando o “yoga lifestyle” apenas como acessório de marketing… É comum escutar professores dizerem que não podem dar aulas de meditação, ou que não podem ensinar mantras em academias, porque os alunos “não gostam”, porque a aula esvazia.
    E eu fico pensando se é pura incompetência (provavelmente na prática pessoal desses professores estes “detalhes” também não entram) ou se para um mundo de aparências desenvolveu-se um Fitness Yoga de aparências, que seria correlato, feito para satisfazer os desejos de quem não objetiva tirar o véu. Neste caso seria papel dos yogis revelar o que não cabe ou não ser revelado?
    O Yoga, de qualquer forma, restará intacto, e aberto a todo aquele que quiser ver. Como em tantos outros caminhos de evolução, o que você recebe do Yoga é o equivalente ao tamanho da sua entrega. Muito grata por compartilhar!
    Namaste!

  8. A vulgarizaçao está em todos os setores, lembram quando as propagandas de cigarro vendiam aquele espírito aventureiro? Até no surf, já são raros aqueles surfistas de alma, pois virou mais uma moda! Na capoeira, que hoje é apenas luta, as academias nunca abordam questoes espirituais envolvidas! A solução está em compartilhar o conhecimento! Para que as pessoas possam entender o verdadeiro significado do Yoga.
    “Há apenas um conhecimento! e Ele é eterno, sem começo ou fim. Nada é tao real quanto Ele. A diversidade que vemos no mundo resulta das limitações sensoriais. Quando essas limitações são ultrapassadas, entao apenas o conhecimento permanece, nada mais! ”
    Ensinamentos de Shiva sobre Hatha Yoga.

  9. Oi Pedro,
    mais uma óptima reflexão, agradeço. O Yoga já serve para vender de tudo, e vender a todos há bastante tempo. O mundo corporativo em geral nunca teve nenhum pudor em usar a imagem do yoga (saúde, serenidade, paz, etc) para vender os seus produtos.
    Desde filmes e revistas, passando por seguros ed todo tipo, colchões de dormir, produtos bancários variados, automóveis, viagens, spas, etc, etc. Só quem parece ter vergonha de utilizar a imagem do yoga são os os yogins. Mas até talvez nem tanto.
    Na realidade, no mundo dos yogins faz-se o mesmo. Aliás, está em franco desaparecimento a separação entre o mundo corporativo e o do yogins, já que quase todos têm ou trabalham para empresas (embora a maioria bastante pequena e até idealistas).
    E não é só aqui no ocidente contemporâneo. Na índia também se vende muito yoga. Ou melhor, a imagem do yoga. Perante muitas coisas que tenho visto pergunto-me se até a paz, a liberdade, a felicidade e a felicidade não serão um mero produto comercial!
    Nós, os yogins, também vendemos o yoga, o “nosso” estilo de vida. E muitas vezes não sei o que vem primeiro, ideal ou profissão-comércio. Vivemos para o yoga, ou vivemos dele? E reflectir sobre isto faz-me questionar: será que o yoga é nosso?
    Nós yogins, praticantes e professores de yoga somos donos do yoga? Temos algum direito especial sobre essa palavra ou sua imagem?

  10. Atualmente o corpo humano é cada vez mais utilizado, através da pornografia, para vender produtos. O próprio corpo tornou-se um produto.
    Pessoalmente, não tenho nada contra o erotismo, mas apenas quando está inserido em seus contexto específico.
    Uma mulher nua é, em minha opinião, uma obra de arte divina, mas a partir do momento em que é utilizada para comercializar algo que, essencialmente, não possui nenhuma relação erótica, torna-se pornografia enrustida, disfarçada, estratégia publicitária das mais sórdidas.
    Parabéns pelo texto.

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