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A história do yoga.pro.br

Esta entrevista foi concedida ao professor Carlos Eduardo Barbosa, criador do portal de estudos de Yoga e sânscrito www.yogaforum.org

Escrito por entrevista com Pedro Kupfer · 9 mins de leitura >
entrevista

Esta entrevista foi concedida ao professor Carlos Eduardo G. Barbosa, criador do portal de estudos de Yoga e sânscrito www.yogaforum.org, com este texto introdutório:

Numa entrevista concedida ao editor do Yogaforum, o criador do conhecido site sobre Yoga conversa informalmente sobre o trabalho com o site e sobre Yoga. Em apenas 14 questões, o yogi-surfista mostra todo o bom humor e a maturidade de alguém que leva a vida com autenticidade – um estilo de vida coerente com o que sugerem as escrituras do Yoga.

1. Quando e onde foi concebido e criado o site yoga.pro.br? Por quem? Quais foram as motivações que levaram à sua criação? Quais seus objetivos?

A versão original do yoga.pro.br foi feita em apenas dois dias, na cidade de Porto Alegre, no inverno de 1999, por Maurício Wolff, Cathia Karin Heuser e Pedro Kupfer, atendendo a uma iniciativa deste último.

A princípio, a idéia era colocar algo da informação de Yoga gratuitamente para os poucos cibernautas que havia naquela época. Naquela momento, não tivemos nenhuma intenção de fazer um portal de conteúdo, não faziamos idéia do quanto a internet viria a tornar-se um importante veículo para a divulgação do Yoga. Muito menos, suspeitávamos o quanto este site iria crescer.

yoga.pro.br

2. Qual o público-alvo que foi imaginado quando da concepção inicial do site? Esse publico-alvo é o mesmo, atualmente? Houve alguma surpresa em relação ao público que acessa o site?

Lembro que, à época, muitas pessoas já começavam a solicitar informações sobre a prática de Yoga, pediam conselhos ou recomendações por email. A iniciativa de construir o site surgiu para poder disponibilizar a informação que nós tinhamos sobre esses assuntos, de maneira fácil e rápida, para quem precisasse dela.

Essa idéia está ainda presente na atualidade, norteando o trabalho no site. O público-alvo sempre foi a nação do Yoga dos países lusófonos. Já pensamos em ter versões do site em outras línguas mas o volume e a quantidade dos textos inviabiliza a tradução.

Tivemos duas supresas: a primeira, foi que percebemos, ao longo do tempo, que muitos professores de cidades distantes dos grandes centros urbanos, passaram a usar o site como fonte de recursos para estudo e preparação de aulas e práticas.

Isso é ótimo, pois as pessoas têm acesso gratuitamente a informação que alguns anos atrás estava restrita apenas a alguns espaços urbanos, como São Paulo e o Rio. Nesse sentido, o website cumpre uma importante função didática e educacional, mesmo considerando a limitação de estudar sem estar em presença física do professor que ensina.

A segunda surpresa, mais recente, foi que conseguimos, meio sem nos dar conta, reconstruir a imagem que a mídia tem do Yoga.

Descobrimos recentemente que alguns jornalistas da grande mídia entram com freqüência no yoga.pro.br buscando inspiração para matérias ligadas à ética, dharma, ecologia, liberdade, relacionamentos, convivência e outros assuntos relacionados ao Yoga.

Isso é uma fonte de satisfação para nós, pois mostra que o trabalho do site é considerado algo sério e relevante.

3. Os números do site: quantos visitantes o site recebe por dia, em média? De onde são esses visitantes? Quantos artigos estão publicados no site, atualmente?

O total de visitantes distintos neste mês foi de 83.320. Tivemos 1,87 milhões de hits no mesmo período. A maior parte dos visitantes é do Brasil, obviamente. Em segundo lugar, surpreendentemente, vem os Estados Unidos. Em terceiro, Portugal.

Presentemente há, publicados no nosso site, 669 artigos. Alguns deles têm mais de 40 páginas. Esse número tende a aumentar, pois há mais de 160 colaboradores contribuíndo espontanea, mas consistentemente, para a biblioteca online. Eles são professores, praticantes e estudiosos que produzem ou traduzem textos de ótimo nível.

4. Há algum assunto que se destaca nas consultas ou que seja o mais procurado pelos visitantes?

O assunto mais procurado no mecanismo de busca interna do site é a palavra “Yoga”, mesmo. Percebemos que tem muita gente que entra no website buscando informações sobre onde praticar, ou sobre a prática em geral.

Muita gente que não pratica fica motivada depois de ler alguns textos sobre os benefícios do Yoga. Isso está aliado, obviamente, à recomendação de amigos praticantes.

Uma surpresa que tivemos, revisando as estatísticas, foi que muita gente que não está diretamente interessada em Yoga vem para o site buscando um tal de “sexo tântrico”.

5. Quem são os colaboradores principais do site?

O site encontra-se atualmente em sua terceira “reencarnação”. Nesse período muitas mãos e corações diferentes deram valiosas contribuições, para que o site pudesse existir.

Em primeiro lugar, não podemos deixar de mencionar a pessoa que foi responsável pelo nascimento do site: Maurício Wolff, lageano de Porto Alegre. Ele e sua esposa, Cathia Karin Heuser, fizeram o site sair do plano das idéias.

Maurício desenhou o layout das duas primeiras “encarnações” e manteve ele no ar durante os primeiros anos. Atualmente, eles criaram e mantêm outros importantes websites e portais de conteúdo de Yoga, como o www.yogamala.org e o www.ashtanga.com.br.

Em segundo lugar, devemos mencionar o professor de Yoga de Fortaleza, Cristiano Bezerra, que digitou a Bhagavad Gita inteira e inúmeros textos do professor Hermógenes e outros, além de editar e organizar por mais de quatro anos o conteúdo do site.

Foi um longo e exaustivo trabalho de seva, que deu ao site a cara e o volume que ele tem hoje em dia. Cristiano, que foi o principal editor naquele período, mantém atualmente o seu site www.ekadantayoga.com.br que, além de ser muito completo em termos de conteúdo, funciona como um portal de informações e eventos de Yoga no nordeste do país.

Outra pessoa importantíssima para o www.yoga.pro.br foi, e continua sendo, o webdesigner e yogi gaúcho radicado em Fortaleza Renato Carvalho (www.codigodigital.com.br). Ele prepara atualmente a quarta “encarnação” do site.

Dentre os principais colaboradores, destaco a generosidade do erudito Georg Feuerstein, que sempre disponibilizou seus textos para traduzirmos, e os professores Hermógenes e Gloria Arieira (www.vidyamandir.org.br), do Rio, Rosana Biondillo, de Guarulhos, Ana Malagueta, de Sampa, Tales Nunes, nordestino de Floripa, e Miguel Homem (www.dharmabindu.com), de Portugal.

Também temos contribuições freqüentes e expressivas do professor português Gustavo Cunha, da paulistana Tereza Freire, a carioca/gaúcha Manuela Mendonça, o yogi florianopolitano Rogério Maniezi ou o carioca Bruno Jones, além deste servidor, que escreveu muitos textos e ainda disponibilizou longos trechos de seus livros para consulta online.

6. Alguma matéria do site já gerou polêmica que mereça ser mencionada?

O símbolo invisível que inspira o trabalho do site é o laço azul, que representa a liberdade de pensamento na internet. De modo geral, artigos que denunciam atropelos à ética, seitas, falsos mestres e manipuladores, geram alguma polêmica e reclamações por parte dos seguidores de certas formas intolerantes de Yoga.

Os comentários, desde que não sejam ofensivos ou insultantes, são liberados e ficam registrados no pé de cada página.

Eventualmente, os autores ou editores do site fazem algum esclarecimento ou pontualização, quando isso se faz necessário e, em poucos casos, deletam comentários insultantes, intolerantes, racistas, homófobos ou que atentem para a liberdade de opinião em alguma das suas formas.

No capítulo das polêmicas, cabe lembrar que muita gente não entendeu as sutilezas do humor do Tales Nunes, editor dos Cadernos de Yoga (www.cadernosdeyoga.com.br) que ironizava a si mesmo e à cultura nordestina em dois textos com “sotaque”: “Pachmottanāsana nordestino” e Suapralascar: a saudação ao sol nordestina“.

Acreditamos que que a maior polêmica na história do website foi levantada por um texto do professor mineiro Rodrigo Carvalho, que questionava a conexão entre o Aṣṭāṅga Vinyasa Yoga e o Aṣṭāṅga Yoga de Patañjali.

Atualmente, várias pessoas estão postando comentários com opiniões divergentes no artigo do professor Humberto Meneghin, sobre o Yoga praticado em academias de ginástica.

7. Há ocorrências pitorescas ou estranhas que tenham ocorrido na relação do site com seus visitantes-leitores?

Sim, uma das coisas mais engraçadas e inesperadas, considerando-se que este é um site de estudo de Yoga, é ler os comentários dos evangêlicos fundamentalistas que acham que o Yoga é coisa do demônio. Esses comentários não são liberados para o público, pois muitas vezes são ofensivos, mas nós damos boas risadas quando os lemos.

Outra coisa que nos surpreendeu, alguns anos atrás, foi uma ameaça de processo vinda de um membro do movimento Hare Kṛṣṇa. Vendedor dos livros publicados por esse grupo, ele alegava que nós estávamos infringindo direitos de autor ao usarmos algumas imagens da Bhagavadgītā que aparecem na tradução de Prabhupāda, usadas para ilustrar os capítulos dessa obra que íamos publicando regularmente.

Bastante supresos, retiramos imediatamente essas imagens pois não queremos problemas com ninguém. O mais engraçado é que toda a comunidade de Yoga continua usando as imagens livremente.

Mas, de longe, o mais hilário foi um comentário postado por uma empresária-professora que pretendia ter uma “compensação” (monetária, obviamente) pelo eventual prejuízo que ela teria com o questionamento do Aṣṭāṅga Vinyasa Yoga no texto acima mencionado.

8. Quem é Pedro Kupfer?

Alguém que se dedica ao Yoga há mais de 35 anos e que, quando a moda do Yoga passar, provavelmente ainda estará estudando, praticando e ensinando.

9. Como você enxerga o mercado de trabalho do Yoga no Brasil, hoje? Você acredita que tem havido mudanças positivas nesse mercado?

A pergunta é engraçada pois, pessoalmente, nunca vi o Yoga como um “mercado de trabalho”. O mercado é o lugar dos mercadores. O âmbito do Yoga é um âmbito educacional e formativo, creio eu. Mercadores negociam. Professores ensinam.

Mas, respondendo, há mais de vinte anos fiz um juramento para mim mesmo: nunca mais iria trabalhar com nada que não fosse Yoga, pois estava claro que praticar, ensinar e compartilhar o Yoga era minha vocação.

No início, literalmente, passei fome. Por momentos, não tive dinheiro nem para comer, mas a força daquele saṅkalpa e a motivação interior me sustentaram. Quando essa atividade de anarquistas vivendo no meio do mato sem eletricidade fica na moda, muda a maneira que a sociedade tem de olhar para essas pessoas.

Da noite para o dia, nós éramos chiques. E, para piorar as coisas, o surfe, do qual sou praticante assíduo, também ficou na moda. Então, fiquei duplamente chique.

Passei a receber mais convites para trabalhar dos que consigo aceitar. Isso é bom, pois percebo que há uma valorização do trabalho daquela geração de yogis da qual faço parte, e isso nos permite divulgarmos a nossa visão do Yoga como um modo de vida enraizado na tradição e com os pés no chão, livre de sectarismos, politicagem ou crenças cegas.

De fato, hoje há o que poderiamos chamar de mercado do Yoga. No entanto, como educador em Yoga, não vejo o nosso ambiente como um mercado.

Vejo esse ambiente como um lugar no qual pessoas bem preparadas e bem intencionadas podem ter seu sustento garantido com o trabalho de Yoga, como tem sido desde tempos imemoriais.

É claro que tem sempre candidatos a gurus-empresários, yuppie-yogis e outras figuras igualmente caricatas, mas quem é sério e bem intencionado sempre acha o professor que merece.

10. Você acredita que os praticantes e professores de Yoga do Brasil têm sido formados adequadamente? As escolas estão oferecendo informações suficientes para capacitá-los?

Tirando uma ou duas escolas que ainda insistem em preparar professores em alguns poucos fins de semana, vejo que há bastante seriedade no quesito formação hoje em dia. A Aliança do Yoga (www.aliancadoyoga.com.br), o Colegiado Dharmaparishad e outras boas instituições, estão fazendo um belo trabalho em prol da qualidade do ensino do Yoga no Brasil.

11. Você acredita que o contato direto com a Índia e sua cultura seja importante para quem trabalha com Yoga?

Sim. De fato, acho fundamental, mas não porque seja indesejável aprender Yoga aqui no Brasil. Pelo contrário, há atualmente excelentes professores ensinando e o nível aumentou muitíssimo nas últimas duas décadas. Atualmente temos ótimos cursos e muitos livros publicados, e isso ajuda muito.

No entanto, considero fundamental o contato com a cultura hindu para terminar de compreender e contextualizar o Yoga na vida real. Obviamente, essa é uma opinião subjetiva, fruto da minha própria experiência de vida.

No meu caso pessoal, percebi que o Yoga começou mesmo a produzir seus efeitos mais profundos e transformadores, a partir das viagens de estudos que, aliás, continuo mantendo anualmente para visitar o meu mestre e continuar estudando com ele.

12. Você acredita que o estudo da cultura sânscrita possa ajudar o profissional ou o praticante de Yoga a melhorar sua atividade?

Certamente, sim. Porém, não considero que, para ser um bom professor de āsana ou meditação, a pessoa precise saber sânscrito. Entendo o estudo do sânscrito como um passo necessário para deixar de ser um bom professor e tornar-se um ótimo professor.

Nos cursos que ministro, vejo que algumas pessoas olham com pânico para o sânscrito. Então, respiro fundo, e peço para elas repetirem junto comigo: “o sânscrito não é difícil. O sânscrito é complexo…”

Sinto que a compreensão do sânscrito ajuda no entendimento global da cultura do Yoga e que, por mais que o professor não utilize o que sabe numa prática para iniciantes, esse conhecimento lhe dá uma visão mais profunda uma vez que, graças à vibração sutil desta língua sagrada, ele aprende a pensar com a mente yogika.

13. Você recebe solicitações de cursos de sânscrito, dos leitores do site?

Sim, mas não ministro cursos sobre o tema, nem ouso afirmar que ensino sânscrito. Nos cursos que dou sobre Yoga, nunca vou além de apresentar os rudimentos da fonética, algumas regras de sandhi e ensinar o alfabeto.

Vejo com preocupação pessoas que alegremente afirmam ensinar sânscrito sem ter fluidez na escrita, sem ter o vocabulário básico e ignorando a gramática de Panini, e acho isso uma temeridade.

Assim como percebo que o Yoga sofre um processo de vira-latização que acompanha a popularidade e o aumento na demanda de professores, vejo que o mesmo está acontecendo com o ensino de Vedanta e sânscrito, infelizmente.

Hoje em dia, temos professores fraquinhos ensinando essas matérias, sem ter se preparado devidamente. Eles pensam que, em terra de cegos, quem tem um olho é rei. Mas, acredito que o público é inteligente o suficiente como para separar o joio do trigo.

Encaminho os estudantes motivados para outros professores competentes, como as excelentes Paula Ornellas, do Rio, e Sônia Novaes, de Auroville, ou a você, Carlos Eduardo, em Florianópolis (www.yogaforum.org).

14. Quais são suas expectativas em relação ao futuro do site? Para onde caminha sua orientação editorial?

Para o futuro, esperamos poder ampliar ainda mais o banco de dados. A regra pétrea é que o acesso ao site foi e será sempre gratuito, livre e aberto.

Estamos com boas expectativas em relação à próxima encarnação do yoga.pro.br, que será ampliado, reformulado e atualizado.

E, enquanto isso, vamos desfrutando imensamente do privilégio de trabalhar como agentes divulgadores desse modo de vida que é o Yoga.

Nossa filosofia é e continuará sendo um clique até chegar ao conteúdo. Vemos o trabalho com o website como uma maneira de retribuir à sociedade o bom que ela nos deu e, ainda mais, uma forma de retribuir ao Yoga as transformações positivas que vivemos ao aplicá-lo na vida real.

Nesse sentido, o trabalho no site é uma oferenda que fazemos diariamente para agradecer por ter conhecido o Yoga, e que se estende naturalmente ao Dharma Hindu. ॥ हरिः ॐ ॥

2 respostas para “A história do yoga.pro.br”

  1. Faz uns bons anos que entro neste site para estudar e ler os artigos brilhantes e inspiradores de tantos maravilhosos professores, que vieram a melhoras muito meus estudos e prática. Graças a isso, conheci o Pedro, com tem tenho a honra de estudar hoje, e ainda assim, continuar a estudar dessa fonte inesgotável e gratuita, que é o yoga.pro.br. Parabéns pelo reconhecimento e sucesso….que seja apenas o começo. Om namah shivaya!

  2. Namaste, Pedroji, valeu pelo reconhecimento público, bem legal mesmo! Saudades desses nossos cinco anos de parceiria, quando, de 2001 a 2006, aprendi muito do que sei hoje em relação à edição de websites, e também por isso (além da privilegiada oportunidade de promover os teus Cursos aqui em Fortaleza há 7 anos, o que me abriu muitos caminhos, trazendo mais credibilidade para o meu trabalho como Organizador local) lhe sou sempre grato por essa rica e preciosa experiência. Um grande abraço e nos vemos no próximo Sangam! 😉

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