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Assunto Indigesto

Já estou acostumada com o clima constrangedor que se levanta pesando toneladas quando o assunto é carne. Na minha opinião o assunto é bicho. Para outros o papo ainda é de alimentação

Escrito por Manuela Mendonça · 2 mins de leitura >

Já estou acostumada com o clima constrangedor que se levanta pesando toneladas quando o assunto é carne. Na minha opinião o assunto é bicho. Para outros o papo ainda é de alimentação. Mas tudo bem. A questão é que é geralmente na mesa, na horinha sagrada de nurição coletiva que começam as perguntas. Antes ou depois de abocanhar o bife, tanto faz. O clima fica medonho do mesmo jeito. Evito falar. Mas a polêmica brota e a indigestão é inevitável!

Enquanto o papo é sobre proteínas, corpo, músculos e blábláblá, tudo bem. Mas quando começamos a falar de tortura, sofrimento, indústria desumana de vidas, poluição, toxinas, doenças e coisas do tipo, o primeiro impulso é mudar o assunto. Este é realmente indigesto.

Sou vegetariana há seis anos e deixei a carne quando comecei a praticar Yoga. Foi fácil ser convencida. Não sei bem como aconteceu mas resolvi experimentar e gostei. Amei na verdade. Descobri que tenho enorme dificuldade em digerir carne e que meus problemas de sono crônico e preguiça fatal após as refeições tinham um nome: carne. Mas faz pouco tempo que resolvi pesquisar.

Precisava de argumentos para que me deixassem em paz! E então percebi a profundidade do assunto. Estamos falando de vidas, de seres que têm sistema nervoso como o nosso, de escolhas e de um hábito que tem consequências que nossos olhos não vêm. Como diz Peter Singer em seu livro A ética da alimentação:

Se você gosta tanto de comida insalubre que está disposto a aceitar o risco de doenças e morte prematura, então, da mesma forma como a decisão de fumar ou escalar um pico do Himalaia, trata-se primariamente de uma questão pessoal. Nosso foco é o impacto de suas escolhas alimentares sobre os outros.

O que não vemos é o que está para além de nossas barrigas. O que não vemos é o outro. O cara do nosso lado. A vaca, a árvore, os rios, o ar que respiramos e a miséria ali na esquina. O sofrimento de um animal é tão irrelevante como o sofrimento de milhões de pessoas que vivem em condições desumanas. A indústria da carne é consequência de uma cegueira que está em toda a parte.

Poderíamos aqui falar sobre o mito da proteína animal e sobre o impacto da carne na saúde. Ou então sobre paladar e desejo irrefreável de comer um churrasquinho. Ouço com certa frequência esclamações apaixonadas de pessoas que não viveriam sem um bifinho.

Esse prazer delirante e mórbido só pode ser sustentado com ignorância. Poucos são so que aguentam ver imagens ou até mesmo receber as informações sobre o que realmente acontece até o filézinho chegar no prato. Chorei debulhada agarrada ao meu cachorro lendo os livros do Peter Singer e nunca aguentei ver o documentário “A carne é fraca” inteiro. É muita, muita crueldade.

O que se faz com bicho se faz aos nossos olhos com gente. A tortura não é novidade e é sobre isso que estamos falando. O sofrimento de qualquer ser não vale a pena para me alimentar de forma alguma. Afirma Peter Singer:

(…) A agricultura animal destruiu nosso senso instintivo de afinidade com os animais e o ambiente, substituindo-o por uma crença na dominação – uma licença divina para utilizá-los como parecer mais adequado- e um senso de alienação da natureza que está na raiz de muitas de nossas crises sociais e ambientais.” – A ética da alimentação.

É importante que tenhamos informações. Se somos praticantes de yoga ou de qualquer forma de filosofia que busca auto-conhecimento é importante mergulhar para fora, no mundo, na vida e assim encontrar a passagem para o lado de dentro. O outro é um espelho. E se não vemos o outro, seja bicho, gente ou planta, fica mais difícil ainda enxergar a nós mesmos.

Não basta fechar os olhos e meditar. Abre os olhos e olha pra fora. Olha, vê, repara. Olha de novo. Pensa. Fecha os olhos e medita. Abre os olhos e vê melhor, de novo e de novo. Leva a mente junto, o bom senso e a sensibilidade. E depois pega o tapetinho e vai “fazer Yoga”. A gente não está falando de proteína, músculos e blá blá blá. A gente está falando de vida e de compaixão.

8 respostas para “Assunto Indigesto”

  1. Manuela, parabéns pelo seu artigo.
    Eu fiz o caminho contrário – primeiro me tornei vegana, depois procurei o Yoga. Na realidade, o que me levou para a busca de autoconhecimento e equilíbrio interior foi a minha opção de deixar de comer carne. De repente, eu estava procurando todos os tipos de técnicas que pudesse ampliar o bem-estar que eu já estava sentindo com o vegetarianismo, o que significa que realmente a alimentação carnívora influi no nosso sistema sutil.

  2. A comida…e um problema mundial… Essa etica passa primeiro pela fome.

    A venda e tortura da carne esta algemada na fome imposta pela miseria humana.

    Primeiro devesse falar em educaçao etica de divisao e depois dos nojos e preferencias alimentares.

    Muito bom seu artigo! Poderia se aprofundar na ignorancia sobre a fome! Muito obrigada pela leitura!

    Lucia

  3. Olá querida Manu,

    adorei a materia. Também sou vegetariano e concordo em grau e genero em tudo que foi colocado. Na verdade esse condicionamento que sofremos quanto a alimentação realmente não é fácil. Antes de mais nada temos que compreender o processo de cada um quanto a sua má alimentação. Mas issonão justifica essa matança exacerbada dos nossos indefesos animais. O que temos que fazer é passar orientação quanto uma boa alimentação e não incentivar a matança dos animais seja qual especié seja. A consciência como identidade Universal.

  4. Parabéns pelo texto Manuela! Sou vegetariana e sigo feliz com minha opção.A sensação de que estou contribuindo para que haja mais compaixão pelos animais é de muita alegria. Sinto meu organismo limpo,também me sentia muito pesada após as refeições com carne.
    O yoga me mostrou um outro lado da vida mais sutil,refinado e isso inclui a eliminação de qualquer tipo de carne. Todos os seres merecem nosso respeito. Namastê!

  5. Sou cristã. Não pratico Yoga. Em vários momento penso que o homen é viciado em carne. Conheço pessoas que nao conseguem se alimentar sem a famigerada carne. A Bíblia condena os vícios, pois estes escravizam o homem. O primeiro animal a ser morto na terra foi para ser sacrificado pelo pecado do homen (Adão). Todos nós somos criaturas de Deus. Tenho pena dos animais que morrem pela maldade dos homens. Amo os animais e tenho nojo de quem come um cão ou um gato ou insetos. Que Deus nos ajude a encontrar a armonia que perdemos quando nos afastamos da ordem.

  6. Oi Manu querida!

    Que bom ver seu texto aqui! Pois eh, voce sabe que eu parei de comer carne faz uns 3 meses e tudo está correndo muito bem. Minha familia eh gaucha e adepta do churrasquinho. Domingo passado teve churrasco, ai eu levei meus legumes e fiz uns espetinhos de legume.
    Sabe que eles adoraram? Meus espetinhos fizeram a maior presenca, eram tao coloridos! Todos comeram. Quem sabe consigo pelo menos diminuir a quantidade de carne nesses churrascos… Beijos e parabéns pelo texto.

  7. Parabenizo a Manuela pela sensibilidade e discernimento com que descreve esse assunto tão polêmico, mesmo em nosso meio “yogico”. Sou vegetariana desde que entrei no Yoga, mas fico triste quando vejo profissionais do yoga que ainda não perceberam a profundidade dessa simples atitude de respeito e amor a todas as formas de vida.
    Os preceitos básicos do Yoga falam claramente dessa prática, mas a maioria dos simpatizantes simplesmente ignoram ahymsa (não-violência). Vão simplesmente deixando para depois, “para uma ocasião mais conveniente”.
    Que possamos juntos, através do exemplo, criarmos uma atmosfera mais consciente de nosso papel na evolução coletiva das espécies.
    Namastê!

  8. Olá!
    Estou vivendo um momento onde esse assunto está realmente me pesando, junto com o pedaço de churrasco que ingeri quarta-feira e me pesa no estômago até agora…
    Desde que comecei a praticar Yoga, comecei a perceber também o que meu organismo gosta e não gosta… De carne, ele realmente não gosta muito…

    E a cada vez que como um bife, não consigo parar de pensar no boi q morreu ali para que eu pudesse me encher de todas aquelas proteínas que os mais antigosacreditam q só a carne tem e que, sem elas, eu ficaria anêmica… hj, eu não acredito mais nisso!
    E como nada acontece por acaso, acho q encontrei esse artigo no momento certo de minha vida, onde eu não quero mais fazer parte dessa tortura injustificável a seres vivos, criados não para serem devorados em churrascos ou coisa e tal…
    Será um longo acaminho a percorrer, tanto fisiológico, qto psicológico, afinal de contas, toda minha família come muuuuuuita carne e não sei se aceitarão essa atitude com o respeito e cuidado q deve ser dedicado…

    Conto então, com a força de vcs e desses artigos e td o q me fizer pensar muito a respeito!
    Paz a todos nós!

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