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Machismo na Sala de Prática: um Alerta Importante

O machismo é endêmico: está em todas partes na nossa sociedade e, desafortunadamente também bastante presente nos ambientes do Yoga. Negar esse fato é contribuir ativamente para os estupros, femicídios e agressões que preenchem o noticiário. É preciso fazer alguma coisa. O grande Albert Einstein disse uma vez que os “problemas não podem ser resolvidos […]

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machismo

O machismo é endêmico: está em todas partes na nossa sociedade e, desafortunadamente também bastante presente nos ambientes do Yoga.

Negar esse fato é contribuir ativamente para os estupros, femicídios e agressões que preenchem o noticiário. É preciso fazer alguma coisa.

O grande Albert Einstein disse uma vez que os “problemas não podem ser resolvidos pela mesma mentalidade que os criou”. Portanto, vamos ter que aprender a pensar fora da caixa. Vamos ter que sair do lugar comum.

Antimachismo 

Com a mesma atitude condescendente com a qual a nação brasileira prefere dar as costas ao genocídio dos povos nativos, as pessoas ditas “do bem” preferem ignorar o machismo estrutural da nossa sociedade.

No melhor dos casos, no máximo, elas reduzem o machismo a frases como “fui citado fora de contexto”, ou “não escolhi bem as minhas palavras”, quando alguém comete abuso sexual ou faz apologia a esse crime.

Ora, isso é simplificar demais. Dissimular a falta de caráter das referidas pessoas “do bem” é adiar a necessária reflexão.

Dar as costas a este fato, ou ficar calado (desculpe-me se pareço radical), é contribuir ativamente para que as agressões continuem.

Angela Davis, uma excelente professora universitária e ativista do movimento Black Lives Matter nos EUA, disse uma vez que “em uma sociedade racista, não basta não ser racista: é preciso ser antirracista”.

Parafraseando a professora Angela, podemos dizer que “em uma sociedade machista, não basta não ser machista: é preciso ser antimachista”.

Machismo e misoginia no Yoga

Um lugar muito peculiar dentro da ordem misógina é ocupado pela espiritualidade. Seja na religião, seja no Yoga, no Tantra ou no Vedānta, o machismo, a misoginia e os abusos sexuais prosperam e gozam de boa saúde. Infelizmente. 

Professores de Yoga, Tantra  e Vedānta perpetuam os velhos clichés. Suas alunas e alunos muitas vezes repetem, assentem e/ou consentem sem o mínimo senso crítico sobre as barbaridades cometidas dentro da sala em nome do “progresso espiritual”. 

O machismo e a misoginia estão naturalizados e integrados dentro do discurso da espiritualidade, e são transmitidos por alguns “mestres” como se fizessem parte do ensinamento tradicional. 

Por exemplo, submissão somática, humilhação, toques impróprios, agressões verbais e maus tratos fazem parte do cotidiano de muitas escolas e métodos que são praticados na atualidade.

O problema é que essas atitudes refletem a normalização do inaceitável. Professores de Yoga fazendo ajustes inapropriados (e que configuram crime de assédio sexual, quando não de abuso) não é notícia.

Felizmente, esses abusadores são uma porção realmente ínfima dentro da nossa comunidade, apesar do barulho e da infâmia que trazem para a espiritualidade e para o Yoga.

Os clichés

Eis aqui apenas algumas das afirmações com as quais nos defrontamos em textos e palestras que justificam e defendem os crimes dos gurus e professores abusadores no meio do Yoga. 

Os praticantes e devotos muitas vezes sofrem lavagem cerebral. Alguns fazem verdadeiros malabarismos de racionalização e dissonância cognitiva para justificar esses crimes, de maneira a poder conviver com os criminosos.

Diz o nosso mestre, Swāmi Tattvavidānanda, “people are crazy”. Há de tudo na vinha do Senhor, e há pessoas suficientemente alienadas e com o cérebro lavado como para aplaudir estas barbaridades. E algumas aplaudem mesmo.

Os clichés misóginos que já ouvimos nestes ambientes são do seguinte naipe:

“As mulheres são seres sexuais que pedem para ser tocados.”
“Não foi abuso: ela quis, ela buscou.”
“Desapegue-se, você não é o corpo.”
“As mulheres se queixam porque são histéricas.”
“A responsabilidade não é do abusador.”

Cabe lembrar que transferir a responsabilidade do abusador para a vítima é uma das estratégias mais caras ao discurso machista, que invariavelmente culpabiliza a pessoa que sofre o abuso.

Abuso “de leve” = estupro culposo

Nunca se fez tão necessário confrontar com firmeza as vozes dos pretensos líderes espirituais e aspirantes a guru que cometem, encobrem ou fazem apologia desses crimes.

Diante do acima exposto, refugiar-se no silêncio, na “ausência de julgamento” ou numa autocomplacente equanimidade não cola mais. Neste caso, silêncio é cumplicidade. Silêncio é consentimento. 

Não dá mais para deixar passar piadinhas machistas. Não dá mais para tolerar no Yoga, ou em nenhum outro lugar o “abuso de leve”, infeliz expressão cunhada por um apologista da violência sexual, equivalente ao “estupro culposo” de Mariana Ferrer.

Porém, essa é a mentalidade encalacrada na nossa sociedade. Ter que explicar nos dias atuais que não existe “abuso de leve”, no Yoga ou fora dele, nos mostra o nível lamentável em que nos encontramos. A nossa comunidade está em pé. E esta luta precisa da participação de [email protected]

A estratégia dos abusadores

A estratégia universal, adoptada por 100% dos abusadores, suas seitas e sicofantas, é o que poderíamos chamar de NAIPVA: Negar, Atacar e Inverter os Papéis de Vítima e Agressor.

Em primeiro lugar, tanto o agressor quanto os seus defensores irão negar até a morte que houve algum abuso. A mentira e o negacionismo são as defesas mais naturais e eficientes nestes casos, assim como acontece com o racismo.

A seguir, o próximo passo é fazer ataques à pessoa que teve a coragem de denunciar. Esse método é igualmente muito eficaz. De modo geral, as campanhas de difamação acontecem nas redes sociais, caluniando a vítima para anular seus argumentos.

Também pode ter lugar através de processos na Justiça, alegando defesa da honra ou danos morais, pelos quais muitas vezes pede-se uma compensação punitiva que tem como objetivo acabar com a vida financeira da vítima ou do denunciante.

Essas iniciativas, por sua vez, pretendem dissuadir outras vítimas de levantar a voz. É por isso que dissemos mais acima que o silêncio é o grande aliado dos abusadores.

Finalmente, a inversão dos papéis de vítima e agressor é parte essencial da cartilha de qualquer machista, racista ou classista: existe uma transferência de culpa onde a vítima torna-se invariavelmente o criminoso, seja pela roupa que estava a usar, seja pela suposta atitude (“ela gostava dos ajustes sexuais”).

Yoga

As soluções

Em primeiro lugar, é preciso acabar com a mentalidade que subjaz em afirmações como “ele é um ótimo professor que ajudou muita gente e apenas se equivocou nesse ponto” ou anda “ele melhorou a minha vida; assim, posso ignorar os abusos”.

Esse tipo de desculpa deriva do profundo egoísmo e insensibilidade do praticante que, ao sentir que suas crenças estão sendo questionadas, cria uma explanação para si mesmo que está sempre de acordo com esta linha: “Já peguei daqui o que preciso para mim. O resto não me interessa”.

É justamente através desse tipo de racionalização que os praticantes fortalecem esses abusadores e falsos gurus. Essas crenças fortalecem a lógica interna das seitas e grupos onde o abuso é tolerado. A solução é abrir mão deliberadamente desse tipo de desculpa.

Outras preferem refugiar-se num conveniente silêncio, apelando para samatva, a equanimidade. Ora, qual seria o valor da minha equanimidade quando as pessoas ao meu lado estão a sofrer humilhações ou abusos? Qual é o valor do silêncio, nesse contexto? A solução é abrir mão deliberadamente do silêncio conivente.

Dizemos isto pois são essas as dificuldades que os sobreviventes de abuso têm de enfrentar quando tentam contar suas experiências: negacionismo, silêncio e ataques pessoais.

Em segundo lugar, é necessário ter uma atitude proativa, de defesa das vítimas e denúncia dos abusadores. Certamente é muito mais fácil dizer isso do que fazê-lo, mas a passagem da intenção para a ação é absolutamente necessária. A solução é denunciar os abusadores e cair fora, mesmo que isso signifique cortar na própria carne.

Uma yogiṇī ou um yogin são pessoas de caráter firme, de valores. Sem os valores, o Yoga de nada vale. Literalmente (e valha o pleonasmo).

As boas notícias

A comunidade do Yoga está mobilizada. Como já dissemos noutro texto, os abusos datam de longa data. No entanto, algo mudou a partir de 2018, com o surgimento nos EUA do movimento #metoo. 

Mulheres inspiradas e inspiradoras, numa iniciativa que rapidamente adquiriu uma dimensão global, resolveram dar um basta: esses atropelos tinham que acabar.

Em Portugal, um grupo de mulheres que sofreu abusos sexuais nas garras de um pretenso iluminado, líder de uma instituição muito visível, levou aos tribunais esse falso guru e está a correr uma investigação no Ministério Público.

No Brasil, articula-se atualmente um movimento similar, que irá render frutos no futuro próximo. A cada denúncia, mais e mais vítimas (não apenas mulheres) estão a alçar a voz, fortalecendo o movimento #MeTooBrasil.

॥ हरिः ॐ ॥

Pedro nasceu no Uruguai, 55 anos atrás. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o website www.yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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5 respostas para “Machismo na Sala de Prática: um Alerta Importante”

  1. Vou compartilhar, grata Pedro e Ângela! Sabemos o quanto o machismo está encroado na sociedade e a desconstrução precisa ser diária, a cada posicionamento preciso diante de qualquer abuso!

  2. Muito bom o artigo, muito esclarecedor.
    Cada vez mais admiro o trabalho de vcs.

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